quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Marcas - Parte II - No.6

Olá Babies! Finalmente consegui escrever a parte II da fanfic Marcas, que foi um presente de aniversário para a Jack- Sampaio!
Novamente, foi a linda e doce Mel Keigo que betou! Agradeçam todos a ela! *0*

enfim, fiquem com a Fanfic, espero que gostem! (e espero que eu não demore tanto para escrever a Parte III)



Marcas - Parte II

Passou o dia todo lá, inerte tal qual uma melancólica estátua, solitariamente depositado no alto de um morro, sem parecer importar-se com nada, sobretudo com o fato de que hoje deveria ter ido ao último ensaio antes da estreia da nova peça que apresentaria no dia seguinte.

Apenas observando o decadente movimento no Distrito Oeste, Nezumi permitia que volta e meia seus olhos se desviassem para a distante suntuosidade das luzes de No.6, a qual já começava a se destacar, mesmo por detrás de seus gigantescos muros, graças às fortes luzes que a faziam brilhar mais do que o pôr do Sol. Como competir com aquele brilho? Como esperar que Shion escolhesse ficar consigo, quando não podia oferecer a ele sequer uma fagulha de toda aquela luz?

Deu um pequeno sorriso abatido enquanto relembrava algumas cenas dos momentos que passaram juntos ali, no Distrito Oeste, e teve certeza de que tudo agora era apenas uma lembrança perdida. Sentiu vontade de chorar, mas não se permitiu. Shion havia roubado lágrimas suas na noite anterior, mas nunca mais as teria.

Ninguém nunca mais as teria.

“Shion...”

Olhou por mais um tempo para as luzes artificiais da cidade perfeita e se perguntou se o jovem de cabelos brancos conseguiria chegar lá sem ser morto. Tinha quase certeza de que sim. Apesar de sua ingenuidade e idealismo quase infantil, Shion no fundo era um sobrevivente nato.

E saber que Shion não mais seria salvo por suas mãos fez doer ainda mais seu peito.

Nezumi encarou o próprio punho machucado e sentiu vontade de reabrir cada uma de suas feridas. Não havia conseguido salvar Shion de si próprio, e esse fora seu maior crime. Jamais se perdoaria pelo que havia feito com o menor. Jamais se perdoaria por tê-lo jeito chorar e sofrer daquela maneira, e do fundo do coração desejou que aquela tal garota Safu fosse capaz de amar Shion como ele merecia.

Suas pernas moveram-se mesmo contra sua vontade. Já era noite e estava frio, e cedo ou tarde ele teria que voltar para sua casa e encarar a ausência de Shion, mas mesmo assim ele fazia questão de caminhar o mais lentamente possível, como um moribundo arrastando-se do seu leito de morte até o inferno.

“Que trágico...”

Riu baixo, mais uma vez repleto de dor e sem divertimento algum. Riu do quão patético era.

E, achando que tinha preparado seu coração para nunca mais ter Shion ao seu lado, adentrou a própria morada. Tão logo a porta foi aberta seu olfato foi invadido por um delicioso aroma de curry e açafrão. Sentiu sua espinha gelar e seus olhos se arregalaram a princípio, mas logo voltaram à normalidade fria e cinzenta. De fato havia chegado a pensar nessa hipótese, mas sinceramente não achou que fosse possível, por isso a havia excluído de sua mente querendo evitar mais desilusões.

Não seria idiota o suficiente para achar que a vida seria tão simples, que deveria apenas abraçar Shion e acreditar que o garoto havia decidido ficar consigo.

O garoto de cabelos brancos apenas era tão imbecil quanto si próprio, e por isso o menor estava lá, ainda no seu quarto, preparando calmamente um guisado, aparentemente alheio ao fato de estar machucando Nezumi com sua simples presença.

-O que você está fazendo aqui? –O moreno perguntou com a foz baixa e cortante.

-Jantar. –O menor respondeu prontamente, sem ter coragem de encarar o outro. –Guisado de carne e arroz com curry.

-Um banquete de despedida, é? –Deu uma risada breve e engasgada. -Não se faça de desentendido, Shion! –Ergueu um pouco o tom de voz. -Quero saber por que você não foi embora ainda!

O jovem de cabelos brancos não respondeu, apenas continuou cozinhando, o que deixou Nezumi ainda mais irritado.

O moreno suspirou pesadamente e foi ao banheiro tomar uma ducha. Tinha que esfriar a cabeça ou acabaria expulsando Shion naquele exato instante. Ou, na pior das hipóteses, espancá-lo-ia para então chutá-lo da sua casa.

Durante todo o tempo que teve seu corpo sendo massageado pela ducha, Nezumi ponderou sobre como deveria reagir. Conhecia o outro bem o suficiente para saber que ele não pretendia simplesmente ficar lá, do seu lado. Shion jamais desistiria de salvar a No.6, e por saber disso Nezumi se sentia ainda mais angustiado. Fechou o registro do chuveiro e se secou lentamente, vestindo-se em seguida, mas não se sentindo sequer um pouco mais calmo. Saiu do banheiro e encarou a pequena mesa já posta, as duas tigelas de comida lado a lado e Shion já sentado no sofá, esperando-o para começar comer.

Sentou-se também e pôs-se a comer sem cerimônias. A comida estava muito boa, mas qualquer coisa em sua língua parecia deter um incrível amargor.

O menor o imitou, pondo-se a comer calmamente, o silêncio imperando entre eles de maneira desconfortável, tão diferente de todas as outras vezes que haviam jantado juntos. Shion tentou pensar em alguma coisa para falar, um assunto a puxar, mas não teve sucesso nem coragem, e por isso continuou a comer lenta e silenciosamente.

-Como você se sente? –Nezumi quebrou enfim o silêncio, mas pelo tom severo de sua voz e pelo conteúdo de sua pergunta, era evidente que ele não tinha intenção alguma de melhorar o clima daquela mesa.

-Eu estou bem. –O garoto de cabelos prateados respondeu sem emoção, sem tirar seus olhos da própria colher.

-Mentiroso. Você é um péssimo ator, eu posso notar claramente que você está com dor.

-Eu estou bem. –Reiterou, mas sem conseguir atribuir qualquer convicção a suas palavras.

-Você ainda está sangrando? –Fez questão de continuar naquele desagradável assunto, o que resultou no rapaz de cabelos brancos engasgando-se com a comida.

-EU JÁ DISSE QUE ESTOU BEM! –Shion falou bem alto, tão logo se recuperou do susto, levantando-se da mesa em seguida. –Estou satisfeito. –Disse baixo logo depois, pegando sua tigela.

-MAS EU NÃO ESTOU SATISFEITO! –O moreno gritou, batendo forte com as duas mãos na mesa e se levantando em seguida. –O QUE VOCÊ QUER AFINAL, HEIN? POR QUE VOCÊ AINDA ESTÁ AQUI? POR CAUSA DA MERDA DA JANTA? –Continuou com suas indagações proferidas em claro tom de acusação e repletas de raiva, fazendo questão de dar um tapa na sua tigela de comida, fazendo-a partir-se contra o chão.

-EU NÃO SEI! –O menor também gritou, atirando sua tigela contra Nezumi, mas errando por pouco, resultando em vidro quebrado e comida na parede. –EU SIMPLESMENTE NÃO CONSEGUI IR EMBORA!

O moreno não deixou de se espantar pelo fato daquela tigela ter passado a meros dois centímetros de seu rosto. Definitivamente aquela não era uma reação que esperaria de Shion – pelo menos, não contra si. Aquilo servia apenas para deixar claro ao maior que ele não era o único aflito com a situação.

-Se você está com raiva de mim pelo que eu fiz ontem, não seria melhor simplesmente ter ido embora e nunca mais olhar para a minha cara? Não me venha com esse papo de ‘eu não consigo’, pois eu não acredito. Você consegue ser sincero em todos os aspectos, mas mentiu quando disse que queria viver aqui fora comigo!

-EU NÃO MENTI! Eu realmente quero, mas...

-Mas seu coração pertence à No.6, eu sei. Você disse ontem que me amava, mas na verdade aquela cidade... –Novamente os olhos de Nezumi se arregalaram naquela noite, e ele se viu calado ante o atrevimento de Shion em agarrar-lhe e puxar-lhe pela gola da camisa.

Os orbes escarlates encaravam-no repletos de raiva.

-VOCÊ NÃO FAZ IDEIA DE COMO EU ME SINTO! –O menor vociferou, sua voz saindo irreconhecível aos ouvidos de Nezumi, o qual também se irritou e também agarrou o colarinho de Shion. –VOCÊ NÃO FAZ IDEIA DO QUÃO DIFÍCIL É PARA MIM!

-E você faz ideia de como EU me sinto? Você faz ideia de como foi passar a merda do dia pensando se você estaria bem, mesmo sabendo que nunca mais iria te ver? Mesmo sabendo que você preferiu a No.6 a mim? –Perguntou em tom baixo, mas severo. -Você ainda vai voltar para a No.6, Shion? –O menor apenas abaixou a cabeça, deixando muito claro para Nezumi qual era sua resposta. -Se você ainda está com essa ideia fixa na cabeça, não devia ter se dado ao trabalho de ficar mais um dia. Me pouparia dessa merda de discussão... Me pouparia de olhar na tua cara. –Falou fechando os olhos, o tom magoado finalmente se permitindo ser notado enquanto suas mãos soltavam o colarinho de Shion e seu corpo de afastava do dele.

-Me ajuda, Nezumi... –O menor pediu bem baixo, imitando o maior e soltando a camisa dele.

-Foi por isso que você voltou, então? Não tem coragem de ir sozinho?

-Você sabe que não é isso.

-Não, Shion. Eu não sei de nada. –Deu as costas enquanto sua bela voz de ator ressoava com indiferença. -Eu não sei nada de você, você não sabe nada sobre mim. Somos dois completos estranhos, nada mais natural do que seguirmos por caminhos distintos.

O menor apenas engoliu aquelas palavras, machucado por se ver obrigado a concordar em parte com aquilo. Mal conhecia Nezumi, apesar do bom tempo que conviveram. O moreno nunca lhe falava nada de si, e parecia pouco se interessar com as coisas ele que falava.

“Estranhos...?”

-Estranhos não se amariam.

Nezumi não soube como rebater aquele argumento. Amava Shion, mais do que qualquer coisa na vida, mais do que a si mesmo. Amava tanto, mas tanto que chegava a doer... E como doía saber que Shion o deixaria. E como doía, como doía saber que deveria protegê-lo do ódio que surgia em seu peito e abraçava-se ao amor que sentia.

-Se nós de fato nos amássemos, as coisas não teriam acontecido como aconteceram ontem.

Shion sentiu seu coração se apertar em lembranças dolorosas, mas de alguma maneira, doces também. Um sorriso triste se fez em seu rosto e, puxando-o pelo ombro, o jovem de cabelos brancos fez com que Nezumi voltasse a encará-lo.

-Eu não me arrependo por ontem. –Tentou falar com tanta firmeza quanto possível, mas ainda assim gaguejava um pouco, sem saber ao certo o que falar. –Eu já desejava aquilo há algum tempo, e...

-Eu me arrependo. –Cortou a fala do outro. –Nem eu nem você desejávamos que fosse daquela maneira.

-Mas eu desejava que fosse com você, isso que importa. –O menor falou baixinho, sua mão direita alcançando a mão esquerda de Nezumi, apertando-a firmemente e entrelaçando seus dedos.

“Tão quente...”

O maior sentiu seus olhos arderem, algo se embolar em sua garganta, ao ponto de quase sufocá-lo.

“Eu desejava que fosse você... Eu desejo apenas você...”

A mão direita do maior se ergueu ao rosto de Shion, o polegar resvalou levemente pela marca rubra sobre a bochecha esquerda. Os olhos prateados firmemente conectados aos rubros, e sua voz forte saindo repleta de certeza.

-Eu te amo, Shion. –Disse enquanto permitia que seus demais dedos acariciarem a face do menor. –Eu te quero só para mim, eu não vou conseguir te dividir com a No.6, com aquela garota ou com mais ninguém. –Continuou a falar, cada palavra sua quase hipnotizando o menor, o qual apenas reagia com o suave arrepiar de sua pele enquanto Nezumi permitia que as pontas de seus dedos descessem um pouco pelo queixo, e depois ao pescoço.

Shion engoliu em seco, ainda olhando para Nezumi. Seus orbes tremiam, mas ele não desviava, nem se afastaria, não importava o que sentisse, não importava a mão de Nezumi descendo ainda mais por seu pescoço, abrindo o primeiro botão da camisa de tecido claro.

O menor suspirou e tremeu, e fechou fortemente os olhos.

“Medo.”

-Para seres desnudado, tu te faças de rogado, e possam expulsar teus braços, os dedos devassos... –Mais uma vez recitou um poema de Baudelaire, a voz saía cortante, tão cortante quanto o frio que Shion sentiu ao ter as mãos de Nezumi distanciando-se de si.

-Para que eu me faria de rogado?

-Para se defender de mim. Você sabe do que eu sou capaz.

-Eu não tenho medo de você, Nezumi.

-Você está com medo, e seus olhos estavam repletos de medo naquela hora.

-Aquele não era você. –Foi enfático.

-Errado, Shion. Aquele era eu. Aquele era o meu eu verdadeiro. –O moreno respondeu prontamente

-Eu discordo. Você é doce, Nezumi.

-Eu já disse, você não me conhece, Shion.

-Nem você se conhece. -Acertou em cheio, e com aquela certeza encarou os olhos cinzentos que o encaravam quase mortos e desprovidos de esperança. –Mas a gente pode se conhecer juntos, aos poucos. –Falou docemente, e com leveza encostou seus lábios aos do maior.

Para Shion, não importava que o moreno dissesse que aquela violência fora parte de si, não importava que ele recitasse Baudelaire novamente com a voz embargada em um sentimento que o menor jamais se consideraria capaz de compreender. Shion era teimoso – poucos poderiam sê-lo como ele era, e por isso, tão logo se partiu aquele beijo tão doce, Shion juntou toda sua coragem. Encarou firmemente o maior enquanto suas mãos pequenas e trêmulas abriam cada um dos botões da própria camisa, expondo o tórax alvo, mas marcado.

Queria deixar muito claro para Nezumi o quão verdadeiros eram seus sentimentos, e por isso estava mais do que disposto a lutar contra cada um de seus instintos. Lentamente, cada botão se desfazia, para o deleite os olhos do maior, mas para o martírio de seu coração também. E quando estava prestes a tirar a própria camisa, Nezumi o deteve, pondo-se a reabotoar a peça.

-Eu já entendi... –Murmurou baixo tão logo terminou o que fazia e colocou-se a bagunçar os cabelos prateados para então o abraçar com carinho. –Eu vou com você para a No.6. A gente vai salvar sua amiga e sua mãe, mas depois disso eu vou querer você só para mim. Você pode ser só meu depois disso, Shion?

Ao ouvir aquilo, o menor abraçou fortemente Nezumi, escondendo sua face nos ombros do maior e se permitindo molhar um pouco a camisa do garoto com suas lágrimas.

-Obrigado, Nezumi... –Falou bem baixo, a voz carregada, mas verdadeiramente feliz e aliviada.

O moreno suspirou pesadamente, o peito ainda doendo, mas ainda assim um pouco mais feliz.

-Vem... Vamos dormir... –Disse calmamente, puxando Shion ainda em seu abraço na direção a cama de solteiro que partilhavam.

Os dois se deitaram, Shion primeiro, encolhendo-se um pouco para perto da parede, dando espaço mais do que suficiente para Nezumi – esta ação, provavelmente advinda da preocupação com o bem estar do moreno, foi compreendida de outra maneira, todavia.

-Se você está com medo de mim, não precisa ficar na mesma cama que eu. –O maior resmungou, um pouco irritado, levantando-se e fazendo menção de ir deitar no sofá.

-Eu já disse que não estou com medo de você. –O menor insistiu, erguendo seu tronco para segurar o pulso de Nezumi, impedindo-o de se afastar.

Nezumi encarou a mão pálida que o segurava quase sem forças.

-Você está tremendo. –Utilizou o argumento que Shion jamais poderia refutar.

-Eu estou com frio. –Mentiu. Por Deus, como mentia mal, mas mesmo assim, Nezumi não conseguiu sentir raiva. Sentia apenas culpa e arrependimento pelo que havia feito, pela maneira como havia marcado o menor.

-Pode ficar com os dois cobertores. –Falou de maneira estranhamente doce, enquanto elevava seu lençol com as duas mãos, dando a entender que embrulharia Shion tão logo ele se aquietasse e deitasse de volta.

-Eu... -O menor apenas balbuciou. Sem conseguir pensar em nada, apenas abraçou Nezumi. Apesar dos pesares, precisava da segurança que o calor do moreno ainda lhe propiciava. Aquilo tocou o coração de Nezumi, o qual não conteve sua vontade de envolver e proteger o pequeno, mesma sabendo que era o culpado pelo medo que ele sentia então. –Eu quero que você durma comigo.

-Não se preocupe, eu nunca mais vou te tocar... –O maior murmurou bem baixo, sua voz saindo talvez grave e pesarosa demais.

-Nunca mais? –O menor perguntou um tanto aflito. Não que quisesse fazer sexo com Nezumi naquele momento, mas se perguntou como poderia ser seu namorado se ele nunca mais o tocasse de fato. Amantes deveriam fazer sexo, não?

O maior logo notou o tipo de pensamento que percorrera a cabeça de Shion, e por isso, afagando os cabelos prateados, corrigiu-se:

-Nunca mais vou te tocar daquela maneira. Nunca mais vou te provocar dor.

Ao ouvir aquilo, Shion se sentiu realmente aliviado, ao ponto de quase suspirar contra o peito de Nezumi, finalmente permitindo seu corpo relaxar um pouco.

-Você também sentiu dor na sua primeira vez? –O menino perguntou um tanto curioso, mas ainda envergonhado. Realmente não tinha maiores noções sobre sexo. Tudo o que sabia era o que poderia deduzir através de seus conhecimentos em anatomia e por sua breve e dolorosa experiência da noite anterior.

-Eu nunca fui passivo. –Nezumi cortou rapidamente o assunto. Agora era ele que não queria falar a respeito.

-Ahh... –Shion apenas concordou, encolhendo-se um pouco mais contra a parede, puxando Nezumi para voltar a se deitar consigo, o que o maior fez um pouco a contragosto, principalmente quando sentiu o menor mais uma vez tremer levemente graças ao mero contato entre os dois corpos.

Nezumi suspirou e se conteve para não levantar, mas também para não abraçar Shion. Queria acolhê-lo, aninhá-lo em seus braços, mas o receio de avivar memórias dolorosas no garoto o impedia. E, provavelmente, aquele era o correto no momento, pois muito embora o sono fosse aos poucos tomando conta de Shion, sem o cansaço ao qual fora exposto na noite anterior, dormir mostrava-se uma tarefa um tanto complicada, principalmente quando tinha os músculos tão tensos e a mente volta e meia tomada por lembranças no mínimo conflitantes com seu desejo de ficar ao lado de Nezumi.

O pequeno fechou os olhos e não resistiu: abraçou Nezumi, encolhendo-se contra seu peito forte e recebendo os braços do moreno ao redor de seu corpo, uma mão em suas costas, a outra comprimida entre os peitos de ambos. Aquilo o fazia se sentir não apenas seguro, mas também à mercê. A respiração do outro era calma e balançava com carinho seus fios de cabelos brancos, mas de alguma maneira lhe fazia lembrar da respiração pesada que fora jogada contra seu pescoço na noite anterior. E os dois corpos juntos, tão próximos, quase como um só. Aquilo era bom, delicioso, quente, mas de alguma, doloroso e aterrorizante – mas talvez seu maior medo fosse perder aquele contato algum dia. Como ter certeza, se nem Shion compreendia seus próprios pensamentos? E como haveria Nezumi de compreender a inquietude do outro, senão como pavor e desconforto?

Pensou novamente em tentar se afastar, mas sabia que o menor não permitiria. Suspirou, necessitando de coragem. Faria algo que jamais imaginaria, mas que julgava ser necessário, talvez a única maneira. Talvez...

“Talvez...”
-Doeu sim... –Falou bem baixo, a voz greve quase se recusando a sair pelos lábios.

-Hum? –O garoto perguntou sonolento, sem saber do que Nezumi estaria falando.

-A minha primeira vez doeu muito. –Explicou em tom ainda inexpressivo.

-Como foi? –Shion despertou depressa em interesse. Era a primeira vez que Nezumi lhe falaria espontaneamente sobre um assunto tão pessoal.

-Eu tinha dez anos, foi com um dos guardas da No.6, no Instituto Correcional..

-Como assim? Um guarda? Dez anos? Mas você era só uma criança...

-Ele me estuprou, Shion. Numa noite qualquer ele entrou na minha cela e me comeu, simples assim. -Falou de forma crua, exatamente como fora o ato em si.

Cru.

Nojento.

Doloroso.

Shion ficou pensando por um tempo se deveria ou não falar algo. Provavelmente não deveria, mas sentia que precisava. O quê, exatamente, não fazia ideia, mas o aperto em sem seu peito não cessava, como se algo muito importante estivesse preso na garganta, necessitando sair.

-Fica comigo, Nezumi... Apenas comigo... -Disse baixo, o rosto escondido, afundando-se um pouco mais no peito do maior.

-Por que você quer ficar comigo?


-Eu já disse, eu te amo. -Continuou falando baixo, a voz um pouco vacilante, mas de alguma forma, repleta de certezas. -E por isso eu te quero de todas as maneiras.

-Mesmo depois do que eu fiz contigo?

-Mesmo depois daquilo.

-Depois do que fizeram comigo, eu jurei para mim mesmo que jamais deixaria outro homem tocar em mim daquela forma, Shion.

-Você não amava aquele homem, Nezumi. Eu te amo.

-Isso não é uma questão de amor, é um caso de violência. Violência causa ódio, medo, mágoa.

-Tudo isso pode ser perdoado se houver amor.

-Eu acredito que não há amor suficiente no mundo para se perdoar certas coisas.

-Você nunca vai perdoar seu passado?
-Eu nunca vou perdoar aquele homem, aquele instituto, aquela cidade. Nunca mais vou deixar nenhum deles tocar em mim, me machucarem, me corromperem. Pelo menos, não mais do que já o fizeram.

-E eu, Nezumi? Você me deixaria te tocar da forma que você me tocou? -Perguntou, sua voz doce e incerta começando a ecoar de forma quase horripilante pelos ouvidos de Nezumi.

6 comentários:

  1. que lindoooooooooooooooooooooo! Obrigada pelo presente, eu realmente amei! vc tem uma forma tão limpa e carregada de sentimentos na hora da escrita que me arrepia! e consegue como ninguem colocar shion e nezumi nas mais diferentes situações e ainda sim conserva-los do jeito original. muito obrigada pelo presente, sinto-me honrada.

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  2. Que bom que você gostou desse presente a prestações, baby XD ahauhauaha
    espero apenas publicar a próxima parte antes do seu próximo aniversário, pq esse meu ritmo de escrita está sofrível, viu? ahauahaa
    nhai,to obrigada por todo seu carinho, e por me acompanhar sempre, baby! és um anjinho em minha vida, sabia?
    Obrigada, e beijinhos!

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  3. Night Dragon Ninja29 de janeiro de 2012 18:18

    O que me deixa feliz é que a história ainda não acabou! Acho que um dos animes que mais gosto de ler fanfics é No.6! Os seus em especial, já que escreve divinamente!
    Shion é realmente muito apaixonado por Nezumi, perdoando até mesmo o ato violento que o outro cometeu com ele. Acho que entendeu que foi por impulso, num momento de raiva. Quem nunca agiu antes de pensar e depois se arrependeu? E Nezumi de um jeito ou de outro parece que quer reverter a situação na qual se meteu. Acho que ainda vai mostrar seu lado mais doce à Shion... hehe!
    Quero muito ver o que vai acontecer com esses dois, depois de ler a parte 2 de Marcas!
    Desculpe ter demorado pra comentar aqui!
    Um abraço!

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  4. Ah, meu bem, eu raramente escrevo fanfics de animes, mas no.6 me conquistou! Nenhum outro anime me fez escrever ‘tantas’ fanfics assim (3, hehehehe)
    E sim, só mesmo sendo muito apaixonado mesmo para perdoar algo assim! O amor ente eles é forte e puro demais, por isso acho que estão destinados a ficar juntos! Muito obrigada mesmo, baby! E por favor, continue aparecendo por aqui! Beijinhos!

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  5. Kawaii*----*
    Ja li muitos fanfic de no.6 mas esse é o melhor! vc escreve muito bem e de um jeito muito lindo!!

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    1. Poxa, muito obrigada, fico muito feliz que tenhas gostado *-*

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