sábado, 22 de setembro de 2012

Não.... E Relatos da Queda X

Não, eu não morri. Não, não voltei a escrever, ao menos, não do jeito de antes, mas também não, não abandonei minha paixão.
Tanto não abandonei que estou com um capítulo inédito de Relatos da queda, aqui, para vocês que ainda não me abandonaram....

Ah, um recado àqueles que querem A Lenda de Fausto, a inflação ainda  não atingiu a o livro! XD O Frete ainda tá GRATIS! O Valor de R$ 37,80 sai para quem compra no boleto bancário, se você comprar fazendo depósito bancário, sai a R$ 35,00.

Minha conta é a mesma: Bradesco, Agência: 1300-5, C/c: 0005434-8

Qualquer dúvida meu e-mail é:  samila.lages[ARROBA]gmail.com

Mas sim, deixa eu parar de enrolação, e postar o capítulo:
(detalhe que eu não tinha postado todos os caps anteriores aqui no blog, então, se você quiser lê-los, vá aqui no Nyah, que estão todos >.<)
http://fanfiction.com.br/historia/18255/Belial_-_Relatos_Da_Queda




Capítulo X – Sombras



Devia estar satisfeito com aquela situação, afinal, Lúcifer poderia ser para mim o deus que todo Anjo precisa ter para adorar... Pergunto-me apenas qual seria então o deus de Lúcifer naquele momento.
-Mais uma estrela caiu sem fazer som algum... -Ele comentou enquanto ambos olhávamos para o céu noturno, observando o fato de outra estrela ter se apagado. Obra de Anakiel, eu podia apostar.
-Haverá um dia em que o firmamento não será nada além de uma escuridão sem fim? -Indaguei-lhe enquanto me abraçava a seu corpo e repousava minha cabeça sobre seu peito.
-Já não estamos visualizando esse dia, Belial?
-Sim, mas ele me parece tão distante, meu senhor...
-De fato, está distante... Mas se aproximará à medida em que lutemos... -Ele disse após longos momentos de silêncio.
-Achas isso prudente, Lúcifer?
-Viemos tão longe, Belial... Haveríamos de parar agora? Olha! Olha como está claro o céu com as estrelas ao nosso alcance! Não achas que devemos despi-las a fim de ver sua real beleza? Não achas que ele ficará mais encantador caso a escuridão o tome?
-Temos poder para tal, meu senhor?
-Tens dúvidas de minhas capacidades, Belial? -Ele perguntou ligeiramente sarcástico, simulando um tom ofendido.
-Não! De maneira alguma! Mas... E as espadas Arcanjos dos Guerreiros? Como enfrentar aquele poder?
-Com um poder superior, é evidente.
-Que seria...?
Ele se levantou e sorriu para mim, frio apenas como ele poderia ser. Perguntei-me qual poderia ser o trunfo do grande Arcanjo que trajava a mais simples vestes dentre todos eles... Como pretendia alguém aparentemente tão delicado enfrentar três guerreiros armados? A resposta veio então com um movimento de sua mão esquerda. Não sei dizer como, mas de lá, de sua nudez mesmo, Lúcifer sacou uma espada.
Oh sim! Da delicada e forte mão brotou a princípio uma lâmina de cristal esculpida com perfeição, formando o mais fino dos fios e a mais bela transparência. Esta mesma lâmina se estendeu por mais de um metro, até de se sua mão saísse o cabo também em diamante, sendo seu guarda-mão ornado por belas gemas negras primorosamente lapidadas, e seu pomo a mais intensa e bela turmalina negra, de tamanha perfeição em seu formato e cor que jamais poderá se encontrar na natureza terrestre.
-Diga, Belial, se pode haver mais adequada bainha à mais poderosa arma divina, senão a carne do mais poderoso Arcanjo? –Ele perguntou enquanto exibia, bem diante dos meus olhos a nefasta espada.
Mirei abismado para a assustadora beleza daquela arma, sentindo meu interior tremer em algum receio profundo; mas mais profunda era a admiração pelo que me era desconhecido. Estendi minha mão para tocar aquela arma, mas antes que meus dedos alcançassem o cristal, Lúcifer a afastou de mim e disse suavemente:
-Jamais a toques, Belial, mesmo que a evites o fio. Nem em seu punho, menos ainda em sua lâmina, pois qualquer um que a toque, excerto eu, sofrerá com um terrível corte.
Encolhi minha mão assustado, tendo certeza que aquilo que Lúcifer falava era verdade.
-Como se dá isso?
-Este foi um presente divino, dado a mim no ato de minha criação. –Ele contou enquanto guardava a espada mais uma vez dentro de si, e pôs-se a vestir-se. -Foi quando Deus disse que eu haveria de ser um guerreiro e que tendo esta espada, Celestial algum seria capaz de se opor a mim. Ele disse que eu era o mais poderoso dos Arcanjos, Belial... E por isso conferiu a mim a mais poderosa das armas.
No momento em que Lúcifer me disse aquilo, perguntei-me por que haveria Deus de armar seus Arcanjos contra os demais Celestiais. Qual seria a necessidade disso, a princípio? Senti em meu âmago que nosso Criador já havia antecipado nossa batalha em seus planos, e aquela certeza me preencheu de terror. Seriam nossas vontades, desejos e revoltas apenas desígnios de Sua vontade?
Aquela dúvida me aturdiu tanto que tive até receio de estendê-la a meu novo senhor. Não queria pensar naquilo, não queria perder as poucas certezas que havia construído acerca de mim mesmo em minha recém-adquirida independência. Tampouco queria que fosse levada ao coração de Lúcifer qualquer dúvida acerca de nossas intenções ou de sua própria majestade.
Calei-me acerca de minhas preocupações, contudo ainda indague-lhe:
-Mas... Ainda assim, meu senhor, somos tão poucos... Como agiremos sem que nos massacrem tão logo notem nossas intenções?
-Como sombras! -Ele falou repentinamente, sua magnífica voz detendo um tom contido de agitação, como se aquela simples palavras fosse fruto de alguma complexa epifania. -Sejamos como sombras, Belial! Sombras que rastejam pelo reino de Deus, maculando com desejos, dúvidas e convicções a todos que tocarmos! Rastejando seguiremos, até que nossos números superem os daqueles que se manterem fieis Àquele que os domina!
-Rastejar, Lúcifer? Perdão, mas rastejar não me soa digno! -Reclamei de imediato, já envolto no orgulho que para sempre me marcaria.
Ele sorriu para mim e passando a mão por meus cabelos começou a falar suavemente:
-Rastejar, meu querido... Locomover-se sem fazer barulho, bem rente ao chão, sem riscos de desabar e deixando os mais sutis rastros possíveis. Rastejar como as serpentes do pântano, que sorrateiras dão o bote, sem aviso ou piedade! Sejamos como elas, rainhas de maldade, repletas do veneno que apodrece as carnes, mas ilumina as almas e sentidos! Oh, sim, como sombras e serpentes, que discretas ocultam-se a cada alvorecer, mas poderosas saem a cada crepúsculo!
-Acho que teu encontro com as impuras criaturas dos contornos do Édem não te fez bem...
-Por que dizes isso? Não gostas de minhas palavras, atitudes ou intenções?
-Amo a todas essas, com mesma intensidade que amo a tua figura, a teu corpo e a teu espírito! Mas...
-Mas enxergas indignidade no ato de te associares com criaturas mortais?
-Isso é obvio, não?
-Sim, e, no entanto, te associaste com Lilith.
-Mas Lilith era diferente!
-Tratas o Ser Humano como um ser superior aos demais animais?
-O Ser Humano, não. Apenas a Mulher.
-E isso inclui Eva?
-Claro que não!
-Compreende a contradição na qual te colocas? O que torna Lilith e Eva diferentes, sendo ambas da mesma espécie?
-Lilith era...
-Inteligente, audaciosa, ambiciosa. -Ele respondeu, antes que eu pudesse pensar em adjetivos tão adequados quanto.
-Sim... Tudo que Eva não é. Isso as torna diferentes.
-Concordo, e da mesma maneira, dentre os animais e as bestas, existem aqueles que são diferentes. O pântano em que nos encontramos, e os desertos que se formam além dele... Funestos e repugnantes! Inóspitas moradas reservadas apenas a criaturas incapazes de compreender porque lhes foi dada tão ingrata vida, enquanto os seres do Édem se deliciam com frescas brisas, águas cristalinas e todas as facilidades que Deus provém. Essas pobres criaturas são tão fracas! Mortais, pois precisam de comida enquanto nós sequer conhecemos a fome, e precisam de ar para respirar, enquanto nós não necessitamos sequer do vento para empurrar nossas asas ao mais esplendoroso voo. Nós nos bastamos em nós mesmos, enquanto elas são fracas e precisam umas das outras, fazendo deste convívio uma desarmoniosa e cruel batalha. Elas, meu caro, não precisam do Deus que as abandonou, pois a providência Divina não as alcança nem as abençoa... São como nós, Belial, fadadas às sombras. Agora imagina como seria se nós as abençoássemos com nossa divindade e as iluminássemos com nossa sabedoria? A gratidão por se manterem vivas, Belial, é o que possuem de mais poderoso. O que acontecerá se tal gratidão for a nós direcionada? Seremos nós os Deuses delas, Belial, e não mais o Criador!
A beleza daquelas palavras me arrebatou, e naquele momento, soube que poderiam também arrebatar qualquer um que as ouvisse; besta ou celestial. A promessa de se equiparar a Deus, por mais absurda que fosse, seria de fato a mais tentadora a qualquer Anjo abandonado.
E se já não bastassem suas palavras para me convencer, veio então a infeliz mosca que havia visto Lúcifer reviver com sua vitae. Ela voou a nosso redor, reproduzindo o grotesco e leve barulho do bater de suas asas. Ao notá-la a nossa redor, ele sorriu para mim, e disse com candura:
-Deixa-me apresentar um de nossos generais então; este é Beelzebub, Senhor de Todas as Moscas, meus furtivos e silenciosos olhos que a tudo enxergam, e meus ouvidos que a tudo hão de ouvir.
Nesse momento, um riso macabro de fez ouvir, e Beelzebub, talvez compreendendo meu desconforto em sua presença, fez questão de aumentá-lo, chegando mais perto de mim e assumindo então uma forma ainda mais horrenda que a sua original.
Não posso descrever o quão enojado senti-me ao contemplar a disforme criatura, asquerosa em todos os sentidos.  Seus olhos eram totalmente vermelhos, sem distinção entre íris e conjuntiva, e seu corpo era apenas vagamente hominídeo, de contornos tortuosos; sua pele parecia um tanto rígida, escurecida, da qual brotava em seu queico e pescoço pelos grossos e pretos, semelhante ao exoesqueleto do inseto que era sua forma original. Sua coluna -se é que aquele ser detinha uma- era torta, formando uma proeminente corcunda em seu contorno, e seus membros eram magros, como se a fome o abatesse há anos.
Ele ofereceu sua mão ossuda a mim na forma de um comprimento, mas eu apenas a olhei, com receito de tocá-la. Ele apenas riu ante minha recusa, e erguendo ainda mais a mão, tentou tocar meu rosto, fazendo-me dar um passo para trás a fim de evitar aquele contato.
Era como se o ar ao redor de si se tornasse mais denso, tomado por invisível pestilência e inodoro fedor. Não é segredo a ninguém que dentre todos os demônios, Beelzebub é o único com o qual jamais tive qualquer nível de intimidade. Esse fato se dá pelo desgosto que sempre senti ao estar perto dele.
-Temes a mim, Celestial? –Me perguntou, sua voz era um tanto aguda, profundamente irritante.
-Não tenho temor algum em meu espírito, General. –Menti. Por dentro, sentia que o toque dele era capaz dos piores feitos, como se seus dedos sujos detivessem um veneno capas de corroer a pele de qualquer ser.
-Então por que foges de mim, Belial? Não enxergas que estamos do mesmo lado? –Ele seguia com sua voz risonha, e ao ouvir aquilo, olhei para Lúcifer, perguntando-me se apenas eu ouvia o sarcasmo escorrendo pela mesma.
-Qual teu interesse em nossa revolução, Beelzebub? –Perguntei.
Ele riu de forma horrenda, transformando-se então de volta em uma mosca, voando em minha direção e dizendo bem rente ao meu ouvido, suas palavras quase enlouquecedoras junto o terrível zumbido advindo do bater de suas asas:
-Devorar os cadáveres desta guerra, meu caro. Sentir o cheiro da morte que se aproxima, e dela me alimentar. Quero que o mundo apodreça junto a todas as queridas criações Divinas.
Ouvindo também aquelas palavras, Lúcifer deu um sorriso, enquanto Beelzebub soltava um riso macabro e voava para longe de mim, novamente assumindo aquela repugnante forma.
-Consideras justos meus intentos, Rei Lúcifer?
-Justíssimos, e muito afins aos nossos. Concordas, Belial?
Contrariado, concordei com um simples meneio de cabeça, fazendo com que a baixa criatura risse ainda mais de mim, para minha ira.
-Bem, tendo encerrado as apresentações, creio que seja hora de agirmos, não? –Interrompi seu riso, dando as costas ao demônio disforme.
-Sim, contudo, há algo que quero que faças para mim antes, Belial.
-O que seria, meu senhor? –Perguntei solícito, realmente disposto a fazer o que ele me pedisse ou ordenasse. Qualquer coisa que me tirasse logo da presença de Beelzebub.
-Venha comigo. -Tendo dito isso, levantou esplendoroso voo. Fiquei algum tempo ainda, apenas observando a enorme graça com a qual suas asas batiam, até voltar a seguir o incômodo advindo da putrefata aura de Beelzebub. Só então voei para segui-lo.
Voamos por algum tempo, até chegarmos à beira do continente criado por Deus, onde a terra se encontrava a uma imensidão azul que servia de espelho ao firmamento. A grande lua cheia refletida naquelas águas fez eu me perguntar se não seria aquele oceano uma extensão do céu. À beira da praia Lúcifer me esperava, seus frios olhos estendidos ao horizonte vislumbravam cada fraca onda a bater contra os recifes.
Diante daquele cenário, sua beleza pálida se fazia ainda mais estonteante.
-Quando procurei uma serpente como aliada, ela me disse que não poderia auxiliar-nos, pois já servia a alguém. Foi-me revelado por ela que dentro desta infinidade azulada existe uma besta que dorme, a maior dentre todas e a mais poderosa também. -Ele começou a falar tão logo pousei a seu lado. -Seu nome é Leviathan, e o animal me disse que ele reina absoluto sobre as víboras venenosas e sobre todas as criaturas do mar. Trata-se de um ser gigantesco, que com seu simples movimento poderia mover toda essa água que podemos ver. Essa besta precisa ser despertada, Belial, e conto contigo para esta tarefa.
-Uma besta? Como esperas que eu consiga lidar com uma besta? Não aprendi a falar com os animais, como tu fizeste!
-A serpente me afirmou que a Besta é sábia e fala nossa língua, e que assim como nós foi amaldiçoada por Deus. Tenho certeza de que com tuas palavras serás capaz de convencer Leviathan a se unir a nossa causa.
-Por que não pedes para Beelzebub cumprir tal missão?
-Beelzebub já está encarregado de falar com Ziz, a grande besta que reina sobre as aves nos ares terrestres, enquanto eu hei de falar com Behemoth, o grande touro que reina sobre o solo.
-Ainda que me peças, não sei se posso fazer isso, Lúcifer. Sabes que não me sinto confortável com a ideia de nos unirmos a criaturas inferiores, e... -Ia continuar meu protesto, mas ele me interrompeu com a voz calma e risonha:
-Aceitar-me-ás como teu Rei, Belial?
-Tu já o és, meu senhor...
Lúcifer sorriu então para mim, contente com minha submissão... Perverso o suficiente para me fazer temer, encantador demais para me permitir recuar.
-Então faça o que digo, meu príncipe. -Ele ordenou enfim, ruflando seu par de asas e seguindo seu caminho, deixando-me ainda aturdido ao olhar para aquele mundo azul diante de mim.
Oh, sim, eu estava sendo tolo, e sabia disso. Reconhecia minha fraqueza naquele momento, mas não permitia que a vergonha por tal me tomasse... Pois o amor há sempre de ser a verdadeira causa para todas as desventuras do mundo... No Céu ou na Terra, sobre os Homens ou sobre os Anjos... Todos nós caímos por amar!
Lilith caiu por tanto amar a justiça, a lógica, a liberdade... Eu caí talvez por amar a mim mesmo, à minha imagem, minha perfeição. Samael tornou-se Lúcifer por amar demais a Deus... E mesmo tendo ciência de tais fatos, eu ainda me permitia cair mais... Eu queria –do fundo de minh’alma- amar ainda mais Lúcifer... Eu precisava amá-lo, eu precisava que ele ocupasse aquele vazio doloroso que a ausência da Luz Divina deixara em meu peito.
Por isso eu precisava de Lúcifer ainda mais próximo ao meu coração.
Por isso eu precisava encontrar o Leviathan.

sábado, 5 de maio de 2012

Apenas uma explicação...

... para meu sumiço...

Estou doente... Faz um tempo que não me sinto bem, e quem me acompanha deve ter notado isso de uns anos pra cá pela redução do meu ritmo de escrita... Desde o ano passado para cá não escrevi praticamente nada, e devo dizer que isso é muito frustrante.

Muitos leitores me perguntam sobre isso, se parei, se abandoei meus projetos, e minha resposta é definitivamente não. Amo escrever, amo meus leitores, amo meus personagens, amo os mundos e sentimentos que a escrita me permite criar. Nunca vou desistir disso. Apenas, não estou conseguindo, no momento.

Tem sido bem difícil para mim, mas tenho me esforçado. Meu foco para continuar o tratamento tem sido sempre 'voltar a escrever', e minha força tem sido sempre a força, a cobrança, os puxões de orelha, e-mails, comentários, críticas, elogios, declarações de amor ao Belial e ao Leviathan, as 'ameaças de morte', o carinho de todos vocês.

Eu amo vocês, a a simples ideia de nunca mais poder contar com tudo isso faz tudo perder o sentido, a cor, o motivo.

Estou partilhando isso com vocês apenas porque vocês são importantes demais, e para quem é importante para mim, sinto que devo uma explicação. É isso. Sinto muito por minhas demoras, mas juro que estou me esforçando.

Beijinhos.

ps: Ah, mesmo que eu fique um pouco ausente do blog, eu checo meu e-mail diariamente, então se quiserem adquirir A Lenda de Fausto, ou tiverem alguma dúvida, o melhor caminho é mandar um e-mail para 'samila.lages@gmail.com'

sexta-feira, 9 de março de 2012

Sobre o Ato de Não Escrever - e - Promoção!






Sobre o ato de não escrever

Presos à gloria dos velhos tempos, seus olhos quase negros, outrora brilhantes, repletos de misterioso encantamento –a chama da criação- agora miravam vazios, despidos de vida, o alvo papel abaixo suas mãos.

As linhas não formavam sequer garranchos inteligíveis porque a tinta não saia da pena. O absinto não estava no copo, o incenso não perfumava o ambiente e, por mais que chamasse, Titânia não apareceria naquela noite.

A chuva lá fora era calma, mas não inspirava. Seu coração batia, mas não animava. A mente era inquieta, mas não viajava. O mundo não parava, mas nada se movia. Apenas o ar deixava seus pulmões, e assim tudo seguia, na inércia de um criador cansado, que talvez por saber o que criaria, por saber o que viria, por saber do destino que o aguardava... Talvez por isso não mais se arriscaria, não mais via sentido naquela história cujo final era conhecido, cujos amores já eram vividos, cujos beijos já eram sentidos e cujo... Ah... Suspirou.

A quem queria enganar? O que sabia afinal? O que era afinal? O Criador? O Senhor? Ha! Riu! Mas que graça! Mas que farsa! Riu até as forças lhe faltarem e obrigarem o riso a cessar em um soluço contido. Até o copo vazio cair e se partir, estilhaçando-se como os fragmentos da realidade que ali se fazia, ou ao menos ali deveria se fazer.

O fato era que desconhecia o destino, mas, sobretudo, o temia.

Temia, mesmo que fossem apenas em ficções, pois quantas vezes não vira aquelas ficções tão reais dentro de si? Não apenas em sonhos, visões, vislumbres e ilusões, mas também e momentos, falas, sentimentos e emoções. Quantas vezes não notara que a beleza tão distinta e reluzente não passava de um disfarce enquanto a podridão poderia se exibir sem temer, tão exuberante e chamativa quanto? Nas suas ficções, quantos lábios não beijara, quantas almas não amara?

Quantos deuses já não fora e, banhando em divindade, quantos demônios não perdoara? Na ficção pouco importava se no paraíso todas as harpas se quebravam ou se no inferno as bestas se prostravam em adoração. Nas ficções poderia voar, poderia ser, poderia mudar e poderia sonhar. Amava a ficção pois apenas nela as vísceras mereciam aplausos, os amores fingidos haveriam de gerar lágrimas e os dramas sofridos haveriam de ter finais felizes.

Queria as ficções para ser, fazer parte delas, talvez viver nelas, sobretudo refazer-se nelas, num conto, numa crônica, num livro, Num elogio, no seu nome escrito em uma dedicatória valorizada, numa capa envernizada. Um sonho eternizado, uma idéia, um pensamento, e uma singela lágrima que agora escorria por seus olhos quase negros, outrora despidos de vida, agora tão brilhantes.

Mais do que ser deus, queria ser imortal.



~~~~

Sim, o blog está parado, pela condição emocional da autora. Não estou muito bem, mas tenho melhorado aos poucos.

Mas, tenho uma boa notícia: Dia 14 de Março agora a Lenda de Fausto completa 1 ano de publicação, um ano de um sonho realizado, e para comemorar junto a vocês, meu amados leitores, eu fiz uma parceria com o Yaoi Project para sortearmos um livro!

Participar é mega fácil! É só clickar no Banner lá em cima, ou entrar no site do yaoi project e se cadastrar na promoção conforme as instruções! Mas corra! Você tem só até amanhã para se inscrever!!! @_@ *desculpem não ter avisado antes aqui '-'*

Enfim, amor vocês, beijinhos e obrigada a todos pelo apoio =*


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Come Dream: A Lenda de Fausto - Resenha por Lena Gomes

Bom dia a todos! Temos mais uma resenha do livro A Lenda de Fausto, dessa vez feita por Lena Gomes, do blog Come Dream!

Come Dream: A Lenda de Fausto:

Antes de tudo, gostaria de avisar que este livro não é um livro como muitos estão acostumados.
Contém yaoi (relacionamento entre dois homens) e sexo explicito, se não gosta, a outras postagens no site que não falam sobre coisas do assunto. E, contém temas “delicados” e é pesado, contendo estupro e outras coisas.

Bem, tudo começou quando a um tempo atras fiquei sabendo de um tal livro chamado “ A Lenda de Fausto” uma outra versão de uma lenda alemã (se não me engano), totalmente diferente do comum segundo fontes. E bem, no momento não tive muito interesse mas um certo tempo depois, ao descobrir algumas coisas que encontraria no livro, me veio a curiosidade e nisso fui atras. Nisso eu descobri o preço do livro e que a única maneira de comprá-lo era direta com a autora. E, eu na época sem dinheiro tive que deixar a ideia de lado. Porém num belo dia eu consegui a primeira coisa: Dinheiro. E ai veio outra coisa mais do que perfeita, uma promoção de frete grátis. Não pensei duas vezes e comecei a me organizar.

E nisso o livro parou em minhas mãos, eu o li em dois dias e... Posso lhes dizer uma coisa com toda e qualquer razão, era MUITO mais do que eu esperava. Muito mesmo. Só de ver a dedicatória na primeira página do livro já senti que ali vinha mais do que esperava. (Sim, a autora escreve uma dedicatória para você e eu adorei isso)


(...) Continue lendo no Blog Come Dream

E muito obrigada Lena por seu post! Fiquei muito feliz que tenhas gostado do livro, e que a dedicatória tinha 'funcionado', hehehehe! Obrigada mesmo!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Fim da promoção! - E Começo de uma nova!

Amores! Eu queria só agradecer a todos você que participaram da promoção de Janeiro, seja comprando, seja divulgando! Foram muitos livros enviados para os mais diversos estados do Brasil, o que me deixa muito feliz! É bom ver tanta gente se interessando por um livro yaoi (um nicho ainda tímido no Brasil, convenhamos) e vencendo as barreiras geográficas, afinal, eu estou aqui no Amapá, e infelizmente o livro ainda não foi para as livrarias Brasil afora...
Mas o sucesso dessa promoção me levou a querer espalhar ainda mais me trabalho, e vi que para tal, o frete grátis foi muito efetivo! Por isso, a partir de agora, todas as vendas serão com frete grátis!
Isso mesmo! Quem quiser comprar o livro vai paga apenas apenas R$ 35,00 para depósito em conta no Banco Bradesco, ou R$ 36,80 caso opte por boleto bancário (lembrando que o Pagseguro gera automaticamente uma taxa de risco, que na impressão do boleto gerará um valor de R$ 37,80).

Então, relembrando os procedimentos para depósito em conta:

Fazer o depósito/transferência no banco Bradesco Ag:1300-5, CC:0005434-8 no valor de R$ 35,00

Aí é só me mandar para o e-mail samila.lages@ gmail.com os dados do depósito, seu endereço, e nome que deseja para dedicatória.

Da mesma maneira, quem quiser pagar com boleto, mande um e-mail informando o mesmo, que eu lhe mando a cobrança por e-mail, do PagSeguro =D

O livro será enviado pelos correios com registro módico, cujo prazo médio é de 5 - 7 dias úteis.

Qualquer dúvida, é só me mandar um e-mail, ou deixar um comentário!

Obrigada mesmo, gente!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Mammon - Fanart Feita por Yamimi


Gente, apenas hoje que eu notei a falha que cometi! A Yamimi me mandou essa fanart LINDA do Livro A Lenda de Fausto em agosto de 2011, e hoje deu vontade de olha ela aqui no blog, procurei, procurei, e aí vi que não tinha postado! God, sou uma anta... >.<
Mas sim, apreciem tardiamente essa fanart maravilhosa que a Yamimi fez a princípio com o intuito de ser Belial, mas que pelos chifres acabou por caracterizar com perfeição Mammon, Príncipe Infernal da Avareza! (lindo! fofo! meigo! desnudo! XD)




Obrigada Yamimi por um presente lindo desses, e desculpe minha cabeça de vento!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Marcas - Parte II - No.6

Olá Babies! Finalmente consegui escrever a parte II da fanfic Marcas, que foi um presente de aniversário para a Jack- Sampaio!
Novamente, foi a linda e doce Mel Keigo que betou! Agradeçam todos a ela! *0*

enfim, fiquem com a Fanfic, espero que gostem! (e espero que eu não demore tanto para escrever a Parte III)



Marcas - Parte II

Passou o dia todo lá, inerte tal qual uma melancólica estátua, solitariamente depositado no alto de um morro, sem parecer importar-se com nada, sobretudo com o fato de que hoje deveria ter ido ao último ensaio antes da estreia da nova peça que apresentaria no dia seguinte.

Apenas observando o decadente movimento no Distrito Oeste, Nezumi permitia que volta e meia seus olhos se desviassem para a distante suntuosidade das luzes de No.6, a qual já começava a se destacar, mesmo por detrás de seus gigantescos muros, graças às fortes luzes que a faziam brilhar mais do que o pôr do Sol. Como competir com aquele brilho? Como esperar que Shion escolhesse ficar consigo, quando não podia oferecer a ele sequer uma fagulha de toda aquela luz?

Deu um pequeno sorriso abatido enquanto relembrava algumas cenas dos momentos que passaram juntos ali, no Distrito Oeste, e teve certeza de que tudo agora era apenas uma lembrança perdida. Sentiu vontade de chorar, mas não se permitiu. Shion havia roubado lágrimas suas na noite anterior, mas nunca mais as teria.

Ninguém nunca mais as teria.

“Shion...”

Olhou por mais um tempo para as luzes artificiais da cidade perfeita e se perguntou se o jovem de cabelos brancos conseguiria chegar lá sem ser morto. Tinha quase certeza de que sim. Apesar de sua ingenuidade e idealismo quase infantil, Shion no fundo era um sobrevivente nato.

E saber que Shion não mais seria salvo por suas mãos fez doer ainda mais seu peito.

Nezumi encarou o próprio punho machucado e sentiu vontade de reabrir cada uma de suas feridas. Não havia conseguido salvar Shion de si próprio, e esse fora seu maior crime. Jamais se perdoaria pelo que havia feito com o menor. Jamais se perdoaria por tê-lo jeito chorar e sofrer daquela maneira, e do fundo do coração desejou que aquela tal garota Safu fosse capaz de amar Shion como ele merecia.

Suas pernas moveram-se mesmo contra sua vontade. Já era noite e estava frio, e cedo ou tarde ele teria que voltar para sua casa e encarar a ausência de Shion, mas mesmo assim ele fazia questão de caminhar o mais lentamente possível, como um moribundo arrastando-se do seu leito de morte até o inferno.

“Que trágico...”

Riu baixo, mais uma vez repleto de dor e sem divertimento algum. Riu do quão patético era.

E, achando que tinha preparado seu coração para nunca mais ter Shion ao seu lado, adentrou a própria morada. Tão logo a porta foi aberta seu olfato foi invadido por um delicioso aroma de curry e açafrão. Sentiu sua espinha gelar e seus olhos se arregalaram a princípio, mas logo voltaram à normalidade fria e cinzenta. De fato havia chegado a pensar nessa hipótese, mas sinceramente não achou que fosse possível, por isso a havia excluído de sua mente querendo evitar mais desilusões.

Não seria idiota o suficiente para achar que a vida seria tão simples, que deveria apenas abraçar Shion e acreditar que o garoto havia decidido ficar consigo.

O garoto de cabelos brancos apenas era tão imbecil quanto si próprio, e por isso o menor estava lá, ainda no seu quarto, preparando calmamente um guisado, aparentemente alheio ao fato de estar machucando Nezumi com sua simples presença.

-O que você está fazendo aqui? –O moreno perguntou com a foz baixa e cortante.

-Jantar. –O menor respondeu prontamente, sem ter coragem de encarar o outro. –Guisado de carne e arroz com curry.

-Um banquete de despedida, é? –Deu uma risada breve e engasgada. -Não se faça de desentendido, Shion! –Ergueu um pouco o tom de voz. -Quero saber por que você não foi embora ainda!

O jovem de cabelos brancos não respondeu, apenas continuou cozinhando, o que deixou Nezumi ainda mais irritado.

O moreno suspirou pesadamente e foi ao banheiro tomar uma ducha. Tinha que esfriar a cabeça ou acabaria expulsando Shion naquele exato instante. Ou, na pior das hipóteses, espancá-lo-ia para então chutá-lo da sua casa.

Durante todo o tempo que teve seu corpo sendo massageado pela ducha, Nezumi ponderou sobre como deveria reagir. Conhecia o outro bem o suficiente para saber que ele não pretendia simplesmente ficar lá, do seu lado. Shion jamais desistiria de salvar a No.6, e por saber disso Nezumi se sentia ainda mais angustiado. Fechou o registro do chuveiro e se secou lentamente, vestindo-se em seguida, mas não se sentindo sequer um pouco mais calmo. Saiu do banheiro e encarou a pequena mesa já posta, as duas tigelas de comida lado a lado e Shion já sentado no sofá, esperando-o para começar comer.

Sentou-se também e pôs-se a comer sem cerimônias. A comida estava muito boa, mas qualquer coisa em sua língua parecia deter um incrível amargor.

O menor o imitou, pondo-se a comer calmamente, o silêncio imperando entre eles de maneira desconfortável, tão diferente de todas as outras vezes que haviam jantado juntos. Shion tentou pensar em alguma coisa para falar, um assunto a puxar, mas não teve sucesso nem coragem, e por isso continuou a comer lenta e silenciosamente.

-Como você se sente? –Nezumi quebrou enfim o silêncio, mas pelo tom severo de sua voz e pelo conteúdo de sua pergunta, era evidente que ele não tinha intenção alguma de melhorar o clima daquela mesa.

-Eu estou bem. –O garoto de cabelos prateados respondeu sem emoção, sem tirar seus olhos da própria colher.

-Mentiroso. Você é um péssimo ator, eu posso notar claramente que você está com dor.

-Eu estou bem. –Reiterou, mas sem conseguir atribuir qualquer convicção a suas palavras.

-Você ainda está sangrando? –Fez questão de continuar naquele desagradável assunto, o que resultou no rapaz de cabelos brancos engasgando-se com a comida.

-EU JÁ DISSE QUE ESTOU BEM! –Shion falou bem alto, tão logo se recuperou do susto, levantando-se da mesa em seguida. –Estou satisfeito. –Disse baixo logo depois, pegando sua tigela.

-MAS EU NÃO ESTOU SATISFEITO! –O moreno gritou, batendo forte com as duas mãos na mesa e se levantando em seguida. –O QUE VOCÊ QUER AFINAL, HEIN? POR QUE VOCÊ AINDA ESTÁ AQUI? POR CAUSA DA MERDA DA JANTA? –Continuou com suas indagações proferidas em claro tom de acusação e repletas de raiva, fazendo questão de dar um tapa na sua tigela de comida, fazendo-a partir-se contra o chão.

-EU NÃO SEI! –O menor também gritou, atirando sua tigela contra Nezumi, mas errando por pouco, resultando em vidro quebrado e comida na parede. –EU SIMPLESMENTE NÃO CONSEGUI IR EMBORA!

O moreno não deixou de se espantar pelo fato daquela tigela ter passado a meros dois centímetros de seu rosto. Definitivamente aquela não era uma reação que esperaria de Shion – pelo menos, não contra si. Aquilo servia apenas para deixar claro ao maior que ele não era o único aflito com a situação.

-Se você está com raiva de mim pelo que eu fiz ontem, não seria melhor simplesmente ter ido embora e nunca mais olhar para a minha cara? Não me venha com esse papo de ‘eu não consigo’, pois eu não acredito. Você consegue ser sincero em todos os aspectos, mas mentiu quando disse que queria viver aqui fora comigo!

-EU NÃO MENTI! Eu realmente quero, mas...

-Mas seu coração pertence à No.6, eu sei. Você disse ontem que me amava, mas na verdade aquela cidade... –Novamente os olhos de Nezumi se arregalaram naquela noite, e ele se viu calado ante o atrevimento de Shion em agarrar-lhe e puxar-lhe pela gola da camisa.

Os orbes escarlates encaravam-no repletos de raiva.

-VOCÊ NÃO FAZ IDEIA DE COMO EU ME SINTO! –O menor vociferou, sua voz saindo irreconhecível aos ouvidos de Nezumi, o qual também se irritou e também agarrou o colarinho de Shion. –VOCÊ NÃO FAZ IDEIA DO QUÃO DIFÍCIL É PARA MIM!

-E você faz ideia de como EU me sinto? Você faz ideia de como foi passar a merda do dia pensando se você estaria bem, mesmo sabendo que nunca mais iria te ver? Mesmo sabendo que você preferiu a No.6 a mim? –Perguntou em tom baixo, mas severo. -Você ainda vai voltar para a No.6, Shion? –O menor apenas abaixou a cabeça, deixando muito claro para Nezumi qual era sua resposta. -Se você ainda está com essa ideia fixa na cabeça, não devia ter se dado ao trabalho de ficar mais um dia. Me pouparia dessa merda de discussão... Me pouparia de olhar na tua cara. –Falou fechando os olhos, o tom magoado finalmente se permitindo ser notado enquanto suas mãos soltavam o colarinho de Shion e seu corpo de afastava do dele.

-Me ajuda, Nezumi... –O menor pediu bem baixo, imitando o maior e soltando a camisa dele.

-Foi por isso que você voltou, então? Não tem coragem de ir sozinho?

-Você sabe que não é isso.

-Não, Shion. Eu não sei de nada. –Deu as costas enquanto sua bela voz de ator ressoava com indiferença. -Eu não sei nada de você, você não sabe nada sobre mim. Somos dois completos estranhos, nada mais natural do que seguirmos por caminhos distintos.

O menor apenas engoliu aquelas palavras, machucado por se ver obrigado a concordar em parte com aquilo. Mal conhecia Nezumi, apesar do bom tempo que conviveram. O moreno nunca lhe falava nada de si, e parecia pouco se interessar com as coisas ele que falava.

“Estranhos...?”

-Estranhos não se amariam.

Nezumi não soube como rebater aquele argumento. Amava Shion, mais do que qualquer coisa na vida, mais do que a si mesmo. Amava tanto, mas tanto que chegava a doer... E como doía saber que Shion o deixaria. E como doía, como doía saber que deveria protegê-lo do ódio que surgia em seu peito e abraçava-se ao amor que sentia.

-Se nós de fato nos amássemos, as coisas não teriam acontecido como aconteceram ontem.

Shion sentiu seu coração se apertar em lembranças dolorosas, mas de alguma maneira, doces também. Um sorriso triste se fez em seu rosto e, puxando-o pelo ombro, o jovem de cabelos brancos fez com que Nezumi voltasse a encará-lo.

-Eu não me arrependo por ontem. –Tentou falar com tanta firmeza quanto possível, mas ainda assim gaguejava um pouco, sem saber ao certo o que falar. –Eu já desejava aquilo há algum tempo, e...

-Eu me arrependo. –Cortou a fala do outro. –Nem eu nem você desejávamos que fosse daquela maneira.

-Mas eu desejava que fosse com você, isso que importa. –O menor falou baixinho, sua mão direita alcançando a mão esquerda de Nezumi, apertando-a firmemente e entrelaçando seus dedos.

“Tão quente...”

O maior sentiu seus olhos arderem, algo se embolar em sua garganta, ao ponto de quase sufocá-lo.

“Eu desejava que fosse você... Eu desejo apenas você...”

A mão direita do maior se ergueu ao rosto de Shion, o polegar resvalou levemente pela marca rubra sobre a bochecha esquerda. Os olhos prateados firmemente conectados aos rubros, e sua voz forte saindo repleta de certeza.

-Eu te amo, Shion. –Disse enquanto permitia que seus demais dedos acariciarem a face do menor. –Eu te quero só para mim, eu não vou conseguir te dividir com a No.6, com aquela garota ou com mais ninguém. –Continuou a falar, cada palavra sua quase hipnotizando o menor, o qual apenas reagia com o suave arrepiar de sua pele enquanto Nezumi permitia que as pontas de seus dedos descessem um pouco pelo queixo, e depois ao pescoço.

Shion engoliu em seco, ainda olhando para Nezumi. Seus orbes tremiam, mas ele não desviava, nem se afastaria, não importava o que sentisse, não importava a mão de Nezumi descendo ainda mais por seu pescoço, abrindo o primeiro botão da camisa de tecido claro.

O menor suspirou e tremeu, e fechou fortemente os olhos.

“Medo.”

-Para seres desnudado, tu te faças de rogado, e possam expulsar teus braços, os dedos devassos... –Mais uma vez recitou um poema de Baudelaire, a voz saía cortante, tão cortante quanto o frio que Shion sentiu ao ter as mãos de Nezumi distanciando-se de si.

-Para que eu me faria de rogado?

-Para se defender de mim. Você sabe do que eu sou capaz.

-Eu não tenho medo de você, Nezumi.

-Você está com medo, e seus olhos estavam repletos de medo naquela hora.

-Aquele não era você. –Foi enfático.

-Errado, Shion. Aquele era eu. Aquele era o meu eu verdadeiro. –O moreno respondeu prontamente

-Eu discordo. Você é doce, Nezumi.

-Eu já disse, você não me conhece, Shion.

-Nem você se conhece. -Acertou em cheio, e com aquela certeza encarou os olhos cinzentos que o encaravam quase mortos e desprovidos de esperança. –Mas a gente pode se conhecer juntos, aos poucos. –Falou docemente, e com leveza encostou seus lábios aos do maior.

Para Shion, não importava que o moreno dissesse que aquela violência fora parte de si, não importava que ele recitasse Baudelaire novamente com a voz embargada em um sentimento que o menor jamais se consideraria capaz de compreender. Shion era teimoso – poucos poderiam sê-lo como ele era, e por isso, tão logo se partiu aquele beijo tão doce, Shion juntou toda sua coragem. Encarou firmemente o maior enquanto suas mãos pequenas e trêmulas abriam cada um dos botões da própria camisa, expondo o tórax alvo, mas marcado.

Queria deixar muito claro para Nezumi o quão verdadeiros eram seus sentimentos, e por isso estava mais do que disposto a lutar contra cada um de seus instintos. Lentamente, cada botão se desfazia, para o deleite os olhos do maior, mas para o martírio de seu coração também. E quando estava prestes a tirar a própria camisa, Nezumi o deteve, pondo-se a reabotoar a peça.

-Eu já entendi... –Murmurou baixo tão logo terminou o que fazia e colocou-se a bagunçar os cabelos prateados para então o abraçar com carinho. –Eu vou com você para a No.6. A gente vai salvar sua amiga e sua mãe, mas depois disso eu vou querer você só para mim. Você pode ser só meu depois disso, Shion?

Ao ouvir aquilo, o menor abraçou fortemente Nezumi, escondendo sua face nos ombros do maior e se permitindo molhar um pouco a camisa do garoto com suas lágrimas.

-Obrigado, Nezumi... –Falou bem baixo, a voz carregada, mas verdadeiramente feliz e aliviada.

O moreno suspirou pesadamente, o peito ainda doendo, mas ainda assim um pouco mais feliz.

-Vem... Vamos dormir... –Disse calmamente, puxando Shion ainda em seu abraço na direção a cama de solteiro que partilhavam.

Os dois se deitaram, Shion primeiro, encolhendo-se um pouco para perto da parede, dando espaço mais do que suficiente para Nezumi – esta ação, provavelmente advinda da preocupação com o bem estar do moreno, foi compreendida de outra maneira, todavia.

-Se você está com medo de mim, não precisa ficar na mesma cama que eu. –O maior resmungou, um pouco irritado, levantando-se e fazendo menção de ir deitar no sofá.

-Eu já disse que não estou com medo de você. –O menor insistiu, erguendo seu tronco para segurar o pulso de Nezumi, impedindo-o de se afastar.

Nezumi encarou a mão pálida que o segurava quase sem forças.

-Você está tremendo. –Utilizou o argumento que Shion jamais poderia refutar.

-Eu estou com frio. –Mentiu. Por Deus, como mentia mal, mas mesmo assim, Nezumi não conseguiu sentir raiva. Sentia apenas culpa e arrependimento pelo que havia feito, pela maneira como havia marcado o menor.

-Pode ficar com os dois cobertores. –Falou de maneira estranhamente doce, enquanto elevava seu lençol com as duas mãos, dando a entender que embrulharia Shion tão logo ele se aquietasse e deitasse de volta.

-Eu... -O menor apenas balbuciou. Sem conseguir pensar em nada, apenas abraçou Nezumi. Apesar dos pesares, precisava da segurança que o calor do moreno ainda lhe propiciava. Aquilo tocou o coração de Nezumi, o qual não conteve sua vontade de envolver e proteger o pequeno, mesma sabendo que era o culpado pelo medo que ele sentia então. –Eu quero que você durma comigo.

-Não se preocupe, eu nunca mais vou te tocar... –O maior murmurou bem baixo, sua voz saindo talvez grave e pesarosa demais.

-Nunca mais? –O menor perguntou um tanto aflito. Não que quisesse fazer sexo com Nezumi naquele momento, mas se perguntou como poderia ser seu namorado se ele nunca mais o tocasse de fato. Amantes deveriam fazer sexo, não?

O maior logo notou o tipo de pensamento que percorrera a cabeça de Shion, e por isso, afagando os cabelos prateados, corrigiu-se:

-Nunca mais vou te tocar daquela maneira. Nunca mais vou te provocar dor.

Ao ouvir aquilo, Shion se sentiu realmente aliviado, ao ponto de quase suspirar contra o peito de Nezumi, finalmente permitindo seu corpo relaxar um pouco.

-Você também sentiu dor na sua primeira vez? –O menino perguntou um tanto curioso, mas ainda envergonhado. Realmente não tinha maiores noções sobre sexo. Tudo o que sabia era o que poderia deduzir através de seus conhecimentos em anatomia e por sua breve e dolorosa experiência da noite anterior.

-Eu nunca fui passivo. –Nezumi cortou rapidamente o assunto. Agora era ele que não queria falar a respeito.

-Ahh... –Shion apenas concordou, encolhendo-se um pouco mais contra a parede, puxando Nezumi para voltar a se deitar consigo, o que o maior fez um pouco a contragosto, principalmente quando sentiu o menor mais uma vez tremer levemente graças ao mero contato entre os dois corpos.

Nezumi suspirou e se conteve para não levantar, mas também para não abraçar Shion. Queria acolhê-lo, aninhá-lo em seus braços, mas o receio de avivar memórias dolorosas no garoto o impedia. E, provavelmente, aquele era o correto no momento, pois muito embora o sono fosse aos poucos tomando conta de Shion, sem o cansaço ao qual fora exposto na noite anterior, dormir mostrava-se uma tarefa um tanto complicada, principalmente quando tinha os músculos tão tensos e a mente volta e meia tomada por lembranças no mínimo conflitantes com seu desejo de ficar ao lado de Nezumi.

O pequeno fechou os olhos e não resistiu: abraçou Nezumi, encolhendo-se contra seu peito forte e recebendo os braços do moreno ao redor de seu corpo, uma mão em suas costas, a outra comprimida entre os peitos de ambos. Aquilo o fazia se sentir não apenas seguro, mas também à mercê. A respiração do outro era calma e balançava com carinho seus fios de cabelos brancos, mas de alguma maneira lhe fazia lembrar da respiração pesada que fora jogada contra seu pescoço na noite anterior. E os dois corpos juntos, tão próximos, quase como um só. Aquilo era bom, delicioso, quente, mas de alguma, doloroso e aterrorizante – mas talvez seu maior medo fosse perder aquele contato algum dia. Como ter certeza, se nem Shion compreendia seus próprios pensamentos? E como haveria Nezumi de compreender a inquietude do outro, senão como pavor e desconforto?

Pensou novamente em tentar se afastar, mas sabia que o menor não permitiria. Suspirou, necessitando de coragem. Faria algo que jamais imaginaria, mas que julgava ser necessário, talvez a única maneira. Talvez...

“Talvez...”
-Doeu sim... –Falou bem baixo, a voz greve quase se recusando a sair pelos lábios.

-Hum? –O garoto perguntou sonolento, sem saber do que Nezumi estaria falando.

-A minha primeira vez doeu muito. –Explicou em tom ainda inexpressivo.

-Como foi? –Shion despertou depressa em interesse. Era a primeira vez que Nezumi lhe falaria espontaneamente sobre um assunto tão pessoal.

-Eu tinha dez anos, foi com um dos guardas da No.6, no Instituto Correcional..

-Como assim? Um guarda? Dez anos? Mas você era só uma criança...

-Ele me estuprou, Shion. Numa noite qualquer ele entrou na minha cela e me comeu, simples assim. -Falou de forma crua, exatamente como fora o ato em si.

Cru.

Nojento.

Doloroso.

Shion ficou pensando por um tempo se deveria ou não falar algo. Provavelmente não deveria, mas sentia que precisava. O quê, exatamente, não fazia ideia, mas o aperto em sem seu peito não cessava, como se algo muito importante estivesse preso na garganta, necessitando sair.

-Fica comigo, Nezumi... Apenas comigo... -Disse baixo, o rosto escondido, afundando-se um pouco mais no peito do maior.

-Por que você quer ficar comigo?


-Eu já disse, eu te amo. -Continuou falando baixo, a voz um pouco vacilante, mas de alguma forma, repleta de certezas. -E por isso eu te quero de todas as maneiras.

-Mesmo depois do que eu fiz contigo?

-Mesmo depois daquilo.

-Depois do que fizeram comigo, eu jurei para mim mesmo que jamais deixaria outro homem tocar em mim daquela forma, Shion.

-Você não amava aquele homem, Nezumi. Eu te amo.

-Isso não é uma questão de amor, é um caso de violência. Violência causa ódio, medo, mágoa.

-Tudo isso pode ser perdoado se houver amor.

-Eu acredito que não há amor suficiente no mundo para se perdoar certas coisas.

-Você nunca vai perdoar seu passado?
-Eu nunca vou perdoar aquele homem, aquele instituto, aquela cidade. Nunca mais vou deixar nenhum deles tocar em mim, me machucarem, me corromperem. Pelo menos, não mais do que já o fizeram.

-E eu, Nezumi? Você me deixaria te tocar da forma que você me tocou? -Perguntou, sua voz doce e incerta começando a ecoar de forma quase horripilante pelos ouvidos de Nezumi.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Bittersweet - Fanfic de No.6

Olá a todos! Como vão? Já aproveitaram a promoção de frete grátis na compra de A Lenda de Fausto? Aproveitem, é só até o fim do mês! Mas sim, deixa eu ir logo ao assunto de hoje: Fanfic Yaoi de No.6 com lemon! hohoho!

Essa fanfic foi escrita de presente para a Iara-Chan do Amigo Secreto de Natal do Yaoi Writers, e deixa eu dizer que adorei escrever, apesar de ter travado horrores!


Agradecimentos eternos a Mel Keigo, que fez uma betagem urgente nesta fanfic!

Enfim, fiquem com a fanfic!
Atenção: Lemon de leve, então, recomendo para maiores de 18 anos


Bittersweet

Doce e amargo, ao mesmo tempo. Aquele fora o beijo que Shion lhe dera.

Era claro demais, óbvio demais. Shion era um mentiroso, mas um péssimo mentiroso.

Shion era transparente.

E talvez fosse esse um dos tantos motivos que haviam feito Nezumi se apaixonar.

“Apaixonado...” –O moreno pensou enquanto mantinha olhos ainda arregalados pela surpresa do doce ósculo e sorriu em seguida de maneira quase que sarcástica.

-Esse não foi um beijo de gratidão, foi? –Perguntou de maneira cínica, o sorriso fingido ainda em seus lábios e os olhos ocultos pela franja.

-Foi um beijo de boa noite. –O menor respondeu sorrindo também, a expressão meiga tentando a todo custo encobrir a tristeza que carregava.

-De boa noite?

“Mentiroso...”

E mesmo sentindo raiva, ainda lhe imperava a vontade ter mais uma vez aqueles lábios junto aos seus.

-Ah! Preciso levantar cedo amanhã! Preciso aparar os pelos dos cães! –O menor exclamou em uma patética tentativa de quebrar o momento e se afastou da respiração levemente pesada de Nezumi. Virou em direção a porta, prestes a recolher e lavar a louça do jantar.

“Beijo de boa noite...?” –Nezumi ainda sorria, um sorriso mordaz que lhe provocava dor. Levantou-se e apenas ergueu sua mão, pondo-a sobre o ombro de Shion, paralisando-o ante o simples toque que emanava acusação.

Sentindo um frio percorrer sua espinha e não conseguindo saber se havia de fato falhando em sua atuação, Shion virou-se vagarosamente para encarar o moreno e temeu ao notar o quão estranhos estavam os olhos dele.

Sem brilho.

“Decepção..?” –Perguntou-se em pensamento antes de conseguir proferir qualquer palavra.

E antes que pudesse indagar o que Nezumi queria, sentiu seus lábios sendo fortemente pressionados pelos do maior.

O caneco que segurava caiu e se partiu graças à surpresa que foi sentir a língua quente e macia do moreno resvalando por sua boca, a qual se abriu quase que instantaneamente, praticamente alheia à sua vontade e sobretudo à sua racionalidade.

-Nezu... –O jovem de cabelos alvos tentou perguntar alguma coisa, afastando sua boca da dele, mas não teve tempo sequer de tomar um pouco de ar, pois o maior agarrara sua nuca e o trouxera de volta àquele beijo intenso, passional e asfixiante.

Shion tentou se afastar novamente, mas logo se deu conta que estava preso pelo braço de Nezumi ao redor de sua cintura, e aquilo de alguma maneira estranha o acalmou. O abraço de Nezumi lhe transmitia uma intrigante sensação de segurança, independente de qualquer fator, como, por exemplo, o susto, a incerteza ou a curiosa falta de forças que repentinamente assolou suas pernas, levando-o a buscar apoio no corpo do maior.

E foi ao sentir os braços de Shion enroscando-se por cima de seus ombros, foi ao notar que o menor se entregava por completo e retribuía aquele beijo, que Nezumi resolveu parti-lo, mais uma vez deixando Shion sem compreender coisa alguma.

Os dois se encararam por dois segundos, ofegantes e com as faces vermelhas – a de Shion bem mais que a de Nezumi. Mas logo o contato visual foi quebrado, assim como o contato corporal entre ambos. Nezumi desfez seu abraço empurrou o menor para longe com uma delicadeza um tanto duvidosa. Suspirou e deu as costas, jogando-se em seguida na sua cama.

Shion demorou um pouco para se recuperar da situação e só então esboçou alguma reação: piscar várias vezes a fim de ter certeza de que aquilo que acabara de vivenciar fora de fato real e não apenas um daqueles sonhos estranhos que começara a ter desde que deixara a No.6. Tendo se convencido, o garoto de cabelos brancos ainda levou mais algum tempo para recuperar sua irritante capacidade de proferir perguntas:

-O que foi isso, Nezumi?

O moreno, que se encontrava virado para a parede, respondeu com um simples resmungo irritado, o que deixou o menor ainda mais curioso, levando-o a se aproximar da cama.

-Nezumi..? –Perguntou baixinho, sua mão estendendo-se a fim de tocar os cabelos negros, mas, antes de conseguir, foi agarrada fortemente pela do maior, o qual havia se virado repentinamente e agora praticamente rosnava palavras com a voz raivosa e impaciente:

-O que foi? Não foi suficiente para um beijo de despedida?

-...Despedida? –O menor quase gaguejou, ainda tentando se fazer de desentendido. A mão de Nezumi apertando seu pulso o machucava e o deixava confuso.

-VOCÊ ACHA QUE EU SOU IDIOTA, SHION? ACHA QUE É ASSIM? ACHA QUE PODE ENTRAR NA MINHA VIDA, BAGUNÇAR TUDO, E AÍ ME DAR UM BEIJO E SAIR COMO SE NUNCA TIVESSE ENTRADO? É ASSIM QUE VOCÊ ACHA QUE FUNCIONA? –Perguntou gritando de maneira furiosa, para então soltar o braço de Shion e mais uma vez se deitar virado para a parede.

-Nezumi... Eu... –Parou. Não sabia o que dizer, e não era bom em mentir, por isso escolheu o silêncio.

O ar tornou-se denso e pesado à medida que o silêncio crescia, e suportar aquilo se tornava uma tarefa mais difícil a cada segundo. Shion respirou fundo, e tomou coragem.

-Eu tenho que salvar a Safu, ela foi... –Sua justificativa proferida em voz baixa foi interrompida pela voz grave e quase desprovida de emoção que Nezumi detinha.

-Levada para o Instituto Correcional, eu sei.

Os olhos de Shion se arregalaram ante aquela declaração, e alguma espécie desconhecida de fúria tomou conta de seu corpo. Suas mãos não precisaram de qualquer pensamento ou ordem para se moverem, e foram sozinhas até a camisa de Nezumi, o qual mais uma vez se surpreendeu por se deixar pegar com a guarda baixa.

-VOCÊ SABIA! -O menor gritou em tom de acusação enquanto apertava a gola da camisa do moreno, claramente visando sufocá-lo. –VOCÊ SABIA E NÃO ME DISSE NADA! –Cuspiu aquelas palavras, soltando a gola de uma das mãos e desferindo um forte soco sobre a face de Nezumi, o qual ficou por um momento apenas absorto na dor que sentiu. Não sabia que aquele fracote acima de si poderia ser tão forte às vezes.

Mas tão logo passou seu susto, o moreno, com um rápido movimento, saiu debaixo do jovem de cabelos alvos e inverteu suas posições, retribuindo a agressão com dois socos, um em cada lado da face.

-PRA QUE EU IA TE FALAR, HEIM? PARA VOCÊ SAIR QUE NEM UM RETARDADO ATRÁS DA SUA NAMORADINHA, É? –Gritou, como se o ódio em estado puro pudesse ser transmitido por sua garganta e pelo novo punho que encontrou a face delicada do amigo. –VOCÊ QUER TANTO ASSIM MORRER NA SUA AMADA NO.6 COM AQUELA PIRRALHA, É?

-E SE EU QUISER? –O menor gritou, deixando Nezumi em um estado de choque que permitiu que o menor saísse debaixo de si. –É a minha vida! Eu decido o que fazer com ela!

-É! É sua! Essa merda de vida é sua! Toda sua, essa vida de ignorância! Fica com ela, ou melhor, joga ela fora! Vai lá servir de alvo dos soldados da Cidade Gloriosa! Você não conseguirá nem encostar no muro deles sem minha ajuda! –Falou se levantando, afastando-se da cama, querendo ficar tão longe do menor quanto possível.

-E o que você tem a ver com isso, heim?

-O que eu tenho a ver? PORRA NENHUMA! –Gritou mais uma vez enquanto arrancava uma das gavetas do principal cômodo do quarto, deixando-a cair longe, espalhando pelo chão seu conteúdo.-Tenho tão pouco a ver que gastei toda a merda do dinheiro que eu tinha por esse lixo! -Gritava ainda, apontando para os papéis no chão.

A indicação de seu dedo foi seguida pelas orbes vermelhas de Shion, o qual logo se surpreendeu e abaixou-se para pegar as folhas, os quais se resumiam a mapas e planos para pontos secretos de acesso do instituto correcional.

-Você...

-Sim, eu ia resgatar a sua namoradinha... -Falou com escárnio, ainda limpando o canto da boca por onde escorria sangue.

-Você é um idiota, Nezumi, se acha que eu ia ficar feliz de saber que você foi pra lá morrer sozinho...! -Falou um pouco mais baixo, com os olhos lacrimejantes. Seus passos lentos o levavam à porta.

-Não, Shion! Você é que é um idiota! -Falou ainda mais grave do que de costume, alcançando o ombro do menor com uma das mãos, apertando mais do que o necessário. -Você é um idiota morto! Eu ia fazer tudo por você, mas você preferiu não confiar em mim, e por isso VOCÊ VAI MORRER SHION! -Gritou, ainda tentando dissuadir o outro de ir.

Ainda assim, a porta se abriu com leveza, mas foi fechada logo em seguida, abruptamente, com um baque furioso. O corpo maior de Nezumi envolvia por trás o de Shion, e como uma jaula impedia-o de fugir.

–VOCÊ VAI MORRER SOZINHO SEM SABER DE NADA DA VIDA! -O moreno vociferou bem rente à orelha do menor, causando neste aterrorizantes arrepios. -Você vai morrer porque não sabe nada de lutas, de livros e de sexo...

-Eu aprendi a me defender, eu saio sozinho por essas ruas a qualquer hora da noite... Eu li todos os livros do Shakespeare, do Poe, do Maupassant, do Bram Stoker e do Oscar Wilde... Eu aprendi mais coisas do que você imagina, Nezumi. Eu não sou mais o pirralho que você resgatou na No. 6! Eu aprendi o bastante para me virar! -Falou com raiva, virando seu rosto por cima do ombro, tentando encarar o moreno.

-Mas ainda não aprendeu nada sobre sexo... -Constatou maldoso ao sentir contra seu corpo o tremor involuntário do menor quando este foi mais fortemente prensado contra a porta, sua genitália esfregando-se contra as nádegas do menor.

Mas desse movimento adveio surpresa, não apenas nos olhos arregalados de Shion, mas também nos de Nezumi, quando o garoto mais magro virou-se envolto em seus braços e ficou de frente para si; face corada, respiração acelerada, corpo trêmulo e uma coxa mais do que atrevida no meio de suas pernas.

-Você realmente acha que eu não aprendi nada de sexo? -O menor perguntou, pressionando ainda mais sua perna contra o membro do outro, fazendo-o gemer com um pouco de dor. -Esqueceu de todas as noites que eu fui atrás de ti pelas ruas, debaixo de chuva? Acha que em nenhuma dessas vezes eu te vi pegando uma ou duas putas pelos becos? –Indagou com a voz baixa de irritação, suas duas mãos segurando fortemente os ombros de Nezumi.

-Queria ser uma delas, Shion? -Perguntou ainda mais sarcástico do que antes, com mais sarcasmo do que deveria, na verdade. Sua mão direcionou-se ao queixo delicado do menor, como se fosse puxá-lo para um novo beijo. Arrependeu-se da provocação quando de repente teve a mão afastada e os lábios tomados com voracidade, violência de fato. Sentiu o gosto de sangue na sua boca se intensificar à medida que o garoto de cabelos platinados sugava seus lábios energeticamente, mordendo com mais força do que seria aprazível ao moreno. Novamente o beijo era doce e amargo, e agora tinha gosto de sangue, de lábios frágeis se partindo ante uma violência desnecessária, ou que ao menos parecia desnecessária.

Nezumi tentou se afastar, mas antes que as bocas perdessem o contato por mais do que dois segundos, as mãos de Shion agarraram-se à nunca do maior com uma força até então desconhecida, compelindo os lábios machucados mais uma vez a fundirem seus sabores e fluídos de maneira dolorosa e selvagem.

“Mas tão doce...”

Doce porque Shion segurava seu pescoço, suas mãos eram pequenas e macias, e seus dedos eram quentes.

E Nezumi amava aquelas mãos.

Por mais que não quisesse admitir, por mais que procurasse no corpo de prostitutas a paz para seu espírito, não tinha como negar.

“Eu te amo.”

Mas as palavras não foram ditas, por nenhuma das partes. Apenas os lábios machucados retribuíram o beijo, e as mãos pequenas agiram, descendo pelo pescoço, adentrando a jaqueta surrada, despindo o maior.

Nezumi não fez nada, apenas se deixou levar, apenas beijou Shion, sentindo seu gosto enquanto cada uma de suas peças de roupa era tirada com cuidado, e seu corpo era direcionado em passos lentos à pequena cama de solteiro coberta por lençóis velhos.

Sonhara com aquela situação já algumas vezes. Mais vezes do que gostaria, na verdade. Ele e Shion ali, compartilhando aquela cama, unindo seus corpos e trocando juras.

Mas só havia silêncio, além do som de ambas respirações pesadas.

Os dois corpos se jogaram sobre o colchão fino, o menor sob o maior. O beijo deles interrompido por meros instantes, apenas para que as duas camisetas fossem retiradas e jogadas longe. Os dois troncos nus finalmente em contato direto, arrepiando ambas as peles e chamando novamente as bocas para um beijo passional.

As mãos de Shion percorriam o corpo de Nezumi ávidas, mas leves. Cheias de curiosidade, mas também de cuidado, exatamente como Nezumi sonhara, desejara tantas vezes.

Exatamente como não deveria ser.

O moreno afastou-se um pouco, ergueu o tronco e sorriu de canto, forçado, cínico, sexy. Deixou seu dedo indicador percorrer as marcas avermelhadas presentes no corpo do menor, da bochecha ao pescoço, descendo pelo tronco, chegando ao cós das calças. Ah, aquelas marcas...! Achava-as realmente encantadoras, por que não dizer, charmosas?

Desejava aquelas marcas como desejava o poder, como desejava a própria sobrevivência. Vitória, vida; era isso que aquelas marcas representavam para si, e por isso ele gostaria de tê-las em seu próprio corpo, nem que fosse através de Shion. Beijou a marca da bochecha, lambeu a do pescoço, mordeu a do tórax, assim como mordeu um dos mamilos pálidos, pouco acostumados ao toque úmido e levemente áspero de uma língua.

Shion gemeu de imediato ao sentir aquilo.

Gemeu belamente.

Deliciosamente.

Inocentemente.

Nezumi riu perverso contra aquele mamilo, lambeu-o mais, mordeu-o com um pouco mais de força. O jovem de cabelos platinado gemeu novamente e envergonhado pediu:

-Pare de brincar comigo, Nezumi!

Seu olhar era sério, irritado, e encontrou o olhar do moreno igualmente sério, mas talvez mais irritado.

Cortante.

Nezumi mordeu a cintura do menor com alguma força, num claro intento de marcar a pele alva enquanto desabotoava o cinto de Shion com velocidade e alguma rispidez, baixando-lhe as calças e a roupa de baixo, despindo o menor por completo e apertando com força as duas coxas, ignorando o membro já semi-ereto.

-Agora está sério o suficiente para você? –Perguntou, seu tom chegando a ser ameaçador de tão grave enquanto sua língua apenas passava pela glande do rapaz.

Mas se seu intento era assustar Shion, falhara. Shion não procurou cobrir sua nudez, não tentou virar a cara e esconder o rubor de sua face. Pelo contrário, apenas encarou Nazumi, ali, com a boca prestes a alcançar seu membro. Encarou-o tão seriamente quanto alguém poderia encarar aquele que amava.

Amava Nezumi.

E por amar Nezumi, estava pronto para aquilo, queria aquilo, sonhara com aquilo. Talvez não daquela maneira, mas não seria este fato que faria o fogo e o desejo sumirem de suas íris avermelhadas.

Passou sua mão pela face de Nezumi, bem ao lado do sorriso sarcástico que ele ostentava. Foi carinhoso, talvez mais do que deveria. Saiu debaixo do moreno e debruçou-se sobre ele, forçando-o a deitar-se com as costas no colchão. Beijou-lhe mais uma vez.

“Doce.”

Doce em cada um dos seus toques, doce em suas mãos quentes que percorriam com atenção cada um dos músculos bem trabalhados do abdômen do moreno. Doce nos toque suaves, que timidamente desfaziam as calças de Nezumi, adentravam sua roupa íntima, acariciavam seu sexo.

“Não pode ser doce... Precisa ser...”

-Quer me foder, é? Quer me foder e imaginar que tá fodendo a Safu, é? -Perguntou o que não devia, exatamente aquilo que Shion não queria ouvir. Ciúmes ou desapontamento? Nada disso faria com que Shion fosse apenas seu. Sabia disso, e ainda assim disse no pior dos seus tons, com o maior de seus cinismos.

Era um ator.

Um ator quebrado.

Um ator que queria quebrar.

-Ela não ia gostar de todo esse lenga-lenga. Ela ia querer ser comida na mesma hora. -Disse porque queria que Shion sentisse ódio de si. –Se quer me comer, me come direito.

Na verdade, disse porque queria morrer.

E se sentiu morrer a ver toda aquela raiva e aquela decepção nos olhos do seu amado.

Sentiu-se morrer quando as mãos de Shion perderam a leveza e apertavam seu membro sem delicadeza, fazendo-o gritar. Sentiu que o menor o mataria com a simples maneira que ele arrancou o que restava se suas roupas, quase rasgando suas calças e cueca. Estava quase morto quando sentiu as unhas de Shion adentrando suas nádegas ferozmente, as mãos dele separando suas pernas, erguendo seus quadris, trazendo-o para si.

Dois dedos, com muita raiva e sem lubrificante, e Nezumi gritou de dor. Alguns movimentos com a mão direita, bruscos, quase instintivos, que visavam não o alívio ou o prazer de seu parceiro, mas apenas fazer-se caber naquele espaço apertado.

“Eu te odeio...” –Shion pensou ao tirar seus dedos e encaixar-se na entrada de Nezumi.

Apenas pensou. Por um mero segundo, não mais do que isso.

Uma lágrima escorreu por um de seus olhos tão logo ele se forçou a entrar no moreno.

“Eu te amo....”

A dor da penetração sem o devido preparo, uma conhecida antiga e angustiante, algo que Nezumi gostaria de esquecer, de expurgar de suas lembranças. A sensação contra a qual ele lutara pela vida toda, agora, novamente em si, necessária, quase desejada. Ele queria o ódio que advinha dela, precisava daquele ódio, ou não conseguiria matar Shion.

Mataria Shion.

Mataria qualquer um que se colocasse entre si e a No.6.

Mataria Shion, ao menos em seu coração.

Envolveu o corpo do menor com suas pernas e o puxou para si. Precisava sentir mais fundo, mais forte.

Mais dor.

Gritou em consequência, um grito que fez Shion cessar seus movimentos e um gemido de alívio escapar rapidamente por seus lábios. O garoto sem noção ficou apenas lá parando, a preocupação e o arrependimento mais do que claros em suas orbes vermelhas e lacrimejantes.

“Fraco. Você é fraco, Shion. Isso aqui é guerra, Shion... Isso aqui é ódio...” –Pensou enquanto fechava fortemente os olhos, não querendo ver as lágrimas do menor, não querendo que as próprias lágrimas saíssem dos seus olhos. Não queria ver a preocupação estampada na face do outro enquanto mexia os próprios quadris, machucando-se e se jogando contra o corpo daquele que amava.

“Apenas ódio...”

Mas se aquilo era para ser apenas raiva, por que as lágrimas de Shion banhavam seus olhos? Por que ele se recusava a seguir a cadência dos movimentos? Por que os lábios dele se aproximavam tão lentamente dos seus e os tocava agora com com suavidade e doçura, lambendo os cortes e sorvendo o sangue adocicado?

“Por que não é mais amargo?”

“Por que eu não posso te odiar, Shion?” –Perguntou-se enquanto abria os olhos e passava raivosamente a mão por esses, enxugando-os das lágrimas indesejadas.

Pois não eram apenas as lágrimas de Shion que banhavam o rosto de Nezumi, e tendo essa certeza, o menor apenas continuou parado, permaneceu lá, quieto, observando a imagem de dor e decadência daquele que mais amava. Recusou-se a observar o medo e o sofrimento nos olhos prateados, abandonados, magoados. Aqueles olhos que por mais que quisessem, não odiavam.

Shion beijou aqueles olhos.

Novamente doce e amargo.

Saiu de dentro de Nezumi, fazendo o moreno soltar um suspiro de alívio, mas ao mesmo tempo, de reprovação. Odiava-se por isso, por sentir isso, por se sentir fraco. Queria Shion para si, dentro de si, para sempre.

Segurou o pulso do menor e o mirou profundamente nos olhos. Mudamente pediu para que ele não fosse, para que continuasse, para que o amasse. Não teve coragem de externar suas palavras, assim como não teve coragem de encarar aqueles olhos por muito tempo mais. Não teve coragem de manter aquele pulso seguro por suas mãos.

Soltou-o.

Não deixou mais lágrimas caírem de seus olhos, não olhou enquanto Shion buscava por suas roupas e vestia-se lentamente.

Não entendeu que Shion, também mudamente, pedia para ser impedido.

Os passos leves, a expressão de pesar. O menor alcançando a porta com suas mãos pequenas e agora frias. Nezumi apenas sentado na cama, um lençol envolvido em sua cintura, parcialmente cobrindo sua nudez enquanto seu olhar se mantinha fixo em uma mancha recém-descoberta na parede.

Estava tudo acabado, fosse nos olhos que não se encontravam, nas palavras que se engatavam nas gargantas ou nas lágrimas que tinham vergonha de cair. No sexo sem clímax e na cama de solteiro, com apenas um rapaz.

Na despedida muda, sem adeus, mas também sem fim.

O barulho da porta se fechando foi baixo, o som dos passos a seguir se tornou inaudível em poucos instantes. Mas Nezumi ainda escutava o som da própria respiração alterada e do coração acelerado. Ainda sentia o cheiro de Shion em seus lençóis, o sabor dele em sua boca, a sensação dele dentro de si.

Aquele não era o fim.

Não permitiria que aquele fosse o fim.

Seu corpo nu e dolorido se levantou vagarosamente, sentindo os efeitos daquela madrugada chuvosa e tão fria. Os pés descalços sobre o chão de pedra fizeram com que sua mente despertasse mais rapidamente, e os olhos apagados vagaram sem destino pelo quarto, até pousarem sobre os mapas e planos que seu quase-amante nem havia se dado ao trabalho de pegar.

“Ainda não acabou...”

-Shion...