terça-feira, 28 de junho de 2011

Relatos da Queda - Capítulo II - Luxúria


Hey, sweeties, como é de praxe eu venho aqui me desculpando por ter sumido. Estou aqui com o segundo capítulo de Relatos da Queda, para aqueles que ainda não leram o primeiro capítulo é só clicar aqui.
Ah, um aviso, conforme eu editei no post sobre como comprar A Lenda de Fausto, meus exemplares do livro esgotaram, mas eu estou esperando mais. Quando chegar, farei um post avisando.
É isso, Beijinhos!

Relatos da Queda - Capítulo II - Luxúria

Pelo nome e obra do Criador, como eu era lindo!

Seres imortais como eu possuem uma maneira um tanto distinta de ver o tempo. Este não passa para nós como para os humanos, por isso eu não seria capaz de especificar por quanto tempo fiquei lá na beira daquele lago apenas me admirando. Posso dizer apenas que sequer consegui sentir o tempo passar enquanto eu me perguntava por que o Senhor nunca me permitira admirar-me, sendo que eu era tão formoso? Será que ele não compreendia que eu o amaria ainda mais caso soubesse da dádiva sem tamanho que fora direcionada a mim?

Enquanto me banhava em minha perfeição e me perdia em pensamentos, juro que não percebi a presença de Lilith inquieta ao meu lado. Eu sabia apenas que ela me observava, afinal, poderia existir algo mais interessante sobre a face da terra do que eu?

Não, era essa a resposta, eu bem sabia.

Ela não apenas me observava, mas me devorava com seus olhos claros e até então inocentes. Porque eu era belo, muito mais do que ela ou do que o Homem. E diante daquela beleza, não seria difícil imaginar o que se daria. Lilith me desejou, e quando eu finalmente virei meu rosto para encará-la, vi seus então puros e claros olhos arderem em algo indescritível. Ao percebê-lo, senti dentro do mim a mais deliciosa das angústias, semelhante à que eu sentia sempre que a via junto a Adão.

Era desejo, embora na época eu não soubesse nomear aquela sensação.

Lady Lilith aproximou-se lentamente de mim, e eu a temi, verdadeiramente. Eu sabia que ela era pura. Não sentia maldade vinda dela, mas eu sabia que o que ela queria era errado, assim como eu sabia que queria o mesmo que ela. Sabia acima de tudo que estávamos prestes a cometer um grande pecado, mas eu seria incapaz de impedi-la, muito menos de me impedir.

Luxúria.

Assim como Lilith me ensinara o Orgulho ao mostrar-me a mim mesmo, ela despertou em mim a Luxúria, não apenas com seu corpo de curvas esculturais, não apenas com o fato de ela ser uma Mulher. Eu era um anjo, e portanto jamais deveria ter descendentes, pois eu já era o fim em mim mesmo, diferente da continuidade que se espera de todas as outras criaturas de Deus. Minha sementes não haveriam jamais de germinar, e por isso não imperava sobre mim o instinto primitivo que levava o macho à fêmea.

O corpo de Lilith não me interessava como interessava a Adão, e por isso, quando ela me fez a proposta, aceitei de imediato. Eu não seria um macho copulando. Eu seria seu amante, sua diversão, seu prazer, algo bem diferente do que seu marido lhe representava. Ela havia me dito que Adão não se importava em como ela se sentia enquanto seus corpos se uniam. Dizia que ele sempre fazia da mesma maneira, e que quando alcançava seu prazer, tudo terminava. Lilith ficava triste e achava aquilo injusto, pois apenas ele podia controlar tudo, e seu dever era simplesmente obedecer e se submeter.

Ela chorou para mim todas suas mágoas, e eu, como um anjo de bondade, escutei tudo atentamente e concordei com a pobre mulher. Aquilo era mesmo muito injusto. Ela apenas queria um pouco de controle, apenas queria uma relação igualitária. Havia cansado de ficar sempre por baixo do corpo de Adão, apenas sentindo o prazer dele sobre si, sem jamais conseguir fazer nada para se satisfazer.

Lilith tinha razão, e por isso eu me prontifiquei a ajudá-la, sendo que na verdade, ela que me ajudou. Eu era puro demais, não tinha noção de nada que se referisse à carne, e por isso, naquela tarde e naquela noite, Lilith me guiou. Eu era como um bebê, que através dos mais primitivos sentidos, descobria o mundo todo que me cercava. Eu senti o cheiro dela, experimentei do seu gosto. Acariciei seus fartos cabelos, e sentia a pele quente dela encostando-se à minha. Movidos pela curiosidade e pelas sensações, fomos juntos descobrindo coisas incríveis e maravilhosas, e assim ouvi seus deliciosos gemidos e via todo o esplendor de sua face repleta de prazer.

Passamos um bom tempo juntos, como duas crianças inocentes brincando, que mesmo sabendo que o que faziam era errado, não tinham a menor vontade de parar. Provavelmente poderíamos ter ficado daquele jeito até nossos corpos não agüentarem mais, pois era essa a nossa verdadeira vontade. Se não o fizemos, foi apenas porque ouvimos distante a voz de Adão chamando por sua esposa.

Ela se levantou imediatamente.

-Deves ir! Adão não pode ver-te! –Ela me disse apressada enquanto tentava arrumar os cabelos que eu sem querer havia embaraçado.

Eu sabia que não podia mesmo ser visto, e logo levantei vôo, não sem antes dizer à minha doce Lady:

-Volto amanhã, quando o sol estiver bem alto.

Ela sorriu para mim, verdadeiramente feliz. Daquele momento em diante seríamos dois cúmplices de um pecado sem precedentes.

E eu estava exaltante por isso, pois mesmo quando meu pecado era a luxúria, eu não conseguia deixar de sentir nisso uma ponta de orgulho: eu havia sido o primeiro anjo a descer dos céus; o primeiro anjo a tocar um ser humano; o primeiro anjo a sentir prazer carnal.

O primeiro anjo a fazer algo por vontade própria.

Era como se eu detivesse livre-arbítrio, embora eu soubesse que no fundo não fosse bem assim. E eu descobri o quanto estava errado ao voltar para o meu abandonado lugar em meio ao nada.

Deus estava lá, assim como estava em todo lugar. Eu sabia muito bem que ele vira o que eu havia feito –Ele é onisciente, afinal. Ele sabia que eu tinha conhecimento de que meus atos eram errados, e por isso não vou negar: eu esperava por uma punição, uma bronca, o que fosse. Esperava que ele me ordenasse a nunca mais voltar lá, que nunca mais pusesse meus infelizes olhos sobre Lilith. Que me dissesse para nunca mais desafiá-lo.

Mas não! Ele não fez nada! Ele nem sequer se voltou para mim. Não dirigiu a mim um pensamento que fosse! Era como se eu fosse insignificante! Como se nenhuma de minhas ações importassem. Era como se eu não existisse para Ele.

Como se minha existência fosse simples e desnecessária.

Nessa noite, pela primeira vez, eu chorei minhas lágrimas cristalinas.

Um choro profundo e sincero, motivado pela mais pura tristeza. Eu não me sentia apenas como uma criança que havia sido abandonada pelos pais. Mais do que isso, eu me sentia uma criação descartada, trocada, iludida. Eu havia sido criado apenas para adorá-Lo! Como Ele podia fazer isso comigo? Como Ele podia simplesmente me desprezar?

Foi nesse momento que notei que eu não tinha mesmo livre-arbítrio, afinal, se eu tivesse vontade própria, porque estaria chorando, implorando por um castigo após ter feito algo que tanto me agradou?

Porque para mim, a única opinião que importava realmente era a dele, e meu prazer não seria nada perto do desprezo que Ele me legava.

Ele sabia muito bem que não falar comigo doeria em mim mais do que qualquer bronca ou castigo. Ser ignorado era a minha punição, e aquilo me deixou realmente desesperado! Eu queria Sua presença, eu precisava da Luz Dele! Mais do que tudo, mais do que a mim mesmo... E por isso eu era capaz de qualquer coisa...

Até pecar mais.

Em meio à minha agonia, os mais loucos sentimentos foram surgindo...

Por que ele havia se afastado de mim antes de qualquer coisa? Será que eu havia me tornado obsoleto? Enfadonho? Será que os novos anjos eram melhores que eu, assim como ele considerava os humanos?

Era possível, uma vez que eu havia sido o primeiro... Era de se esperar então que ele realizasse melhorias nos seguintes... Mas eis que me vinha à mente novamente a lembrança de meu reflexo sobre a água e de como eu era perfeito. Seria mesmo possível existir algum ser superior a mim além Dele próprio? Eu achava sinceramente difícil, mas eu tinha que descobrir. Naquele momento minha mente estava repleta de dúvidas, e eu precisava de explicações.

Dirigi-me então a um dos distantes pontos de luz que estavam no céu, e foi então que eu conheci outro como eu: um anjo.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Lembranças


Olá! Desculpem meu sumiço, babies, facul e trabalho me matando ç_ç
Segue aqui um conto muito velho, que talvez alguns aí conheçam, que eu 'desenterrei' para mandar para o desafio Prêmio Literário.
Beijos!



Lembrança

Eu ainda me lembro, claramente, do magnetismo que tua presença exercia sobre mim, do quão incrível era a forma como tu sempre me atraias e o poder que detinhas sobre minha pessoa.

Lembro-me, sem quaisquer falhas, do som da tua voz que adentrava meus ouvidos na forma dos mais apaixonados sussurros. Lembro-me da maneira como tu falavas meu nome, tão repleto de carinho, e como seguravas minha mão, tomado por alguma possessividade… Lembro-me de como me abraçavas e fazias com que eu me sentisse tão especial.

Eu me lembro… Oh sim, como me lembro! Mais do que lembrar, eu sinto! Sinto ainda minha pele esquentando-se ante aos gentis e cálidos toques dos teus dedos, sinto ainda em minha boca o calor e o desejo dos teus lábios! Lembro-me de tudo! Cada ação, cada gesto, cada sabor e cada aroma. Cada palavra e cada momento. Está tudo aqui, gravado em mim. Tão real que por vezes me pergunto se não é apenas a realidade dando voltas e me fazendo reviver tudo.

Eu lembro.

Mas será que tu te lembras, meu amor?

Será que tu és capaz de te lembrar das doces mentiras que me contaste? E das diversas promessas que tu quebraste? Lembra-te do nojento motivo que te levou a me atrair para os teus lençóis? Lembra-te ao menos da minha face, querido?

Ou pelo menos do local onde me abandonaste?

Pois eu te darei uma dica: Procura, meu bem, sem muito cuidado e com bastante desespero, por uma lembrança perdida, um momento de calmaria escondido por anos em uma mente doentia. Uma tarde ensolarada, tão bela e fugaz, na qual eu te perguntei quantos corpos estavam sepultados no fundo daquele lago. Sim, atrás da tua casa, bem em meio àquelas rochas! Eu te disse que havia um cadáver lá, não?

E agora tu sabe de quem é…

Meu… Meu… Meu…

Oh, mas não te encabules, meu amor! Não esperava mesmo que tu te lembrasses… Não, não mesmo! Não quando sei que a tua mente sozinha e perdida se afoga em perfídias e vis pensamentos a cada noite, assim como eu me afoguei naquele lago.

Não penses que continuo a mesma de antes, pois a morte tirou de mim a doce inocência que gerava a tola ilusão de ser amada. Eu cresci, querido, pois não mais acredito no teu amor, e não mais quero teus beijos. Não quero mais nenhum carinho teu, pois agora -apenas agora- eu enfim te conheço. Conheço essa tua carne podre e essa tua alma imunda. Sei de todas as trapaças que tu usaste, os jogos que tu jogaste e as vadias com quem te deitaste. Sei tudo de ti, meu bem… E como isso me enoja!

E não te enganes, sweetie… Não penses que não guardo mágoas…

E em breve tu saberás.

Em breve essas paredes falarão, e o solo sob teus pés começará a rachar e se desfazer, cedendo ante o peso dos teus pecados. E enquanto estiveres caindo através de uma teia de sonhos, tu chamarás pelo meu nome.

E serás prontamente ouvido.

Meus sussurros, hoje ainda inaudíveis, transformar-se-ão em gritos através da tua boca, e culpa preencherá tua carne e teu sangue. Far-me-ei bem mais do que uma mera lembrança perdida e esquecida nas profundezas, nem que para isso eu tenha que perder minha alma…

Eu não te darei a chance de quebrar qualquer outra boneca que possa vir a ser mais bela do que eu… Afinal, tu és meu…

Meu, meu, meu.

E o meu ódio é muito mais profundo que o teu lago, querido.