segunda-feira, 25 de abril de 2011

Eles


Esse é meu conto para o desafio Plusert desse mês, cujo tema é "Heróis" (só para comentar, a minha nota do mês de Março foi sofrível... Pudera, como estava sem idéias, improvisei tentando transformar em conto a 'saga' do Carlo, aí ficou uma história enorme e enfadonha.)
Acho que não dei sorte com o prêmio... Faço besteira no primeiro mês mandando o conto errado, besteira no segundo mandando um conto ruim... 'Bora ver como me saio um pouquinho melhor nesse mês, embora não tenha gostado desse conto também! XD
Mas uma coisa: só por ter me feito escrever o conto O Anjo para o primeiro mês, já sou muito grata a esse concurso, pois eu adorei ter criado aquele serial killer!

Mas sim, deixa de papo!
Obrigada a minha queria Ana Bourg por ter betado para mim =*

Eles



Eles foram os responsáveis, os culpados, os executores. Os carrascos de uma, duas, tantas vezes... De uma vida.

Talvez porque eles não conhecessem as noites insones embaladas em lamentações, afogadas em lágrimas mais amargas que fel. Provavelmente eles não sabiam - como haveriam de saber, conhecer a sensação de olhar-se no espelho e ser obrigado a odiar o que vê? Como saberiam como é passar a encarar com desejo a mais afiada das facas da cozinha? Não, não... Eles não sabiam, nunca saberiam o que é ter como maior objetivo um simples sono profundo e sem fim.

Mal conheciam o cansaço, o desânimo, a dor; a falta de vontade de viver, falta de uma vida a ser vivida. O isolamento, as ofensas, os risos zombeteiros. As agressões, os tapas, os socos, os chutes e os tropeços. Os intervalos solitários, os trabalhos em dupla sempre feitos individualmente, as boladas na educação física. Eles não conheciam isso, nada disso.

Ele conhecia, sabia melhor do que ninguém. A cada dia, a cada segundo de uma vida infernal.

Pois eles haviam feito isso por anos, e como se não bastasse, ainda ansiavam mais. Queriam que todos soubessem o que eles faziam, o quão fortes e poderosos eles eram. Eles eram melhores do que ele porque ele nunca lutava. A camera do celular a postos, a valentia e a covardia unidos em um ato cruel.

Eles o cercaram, rindo. Provocaram, em seguida.

“Bola de banha, rolha de poço, balofo.”

Aquelas palavras doíam, elas feriam como ferro quente nos ouvidos, marcavam. Mas ainda parecia não ser suficiente... Não para eles. Era preciso mais, era preciso de outro tipo de violência; porque só marcar o espírito não deveria bastar, o corpo haveria de sofrer também. Era preciso sentir nos punhos o gosto da humilhação da vítima.

Os escudeiros cruéis apoiaram seu vil campeão. Os socos e as esquivas, e insultos e aclamações. A latente vontade de dominar a vítima, não apenas física, mas também psicologicamente. Mas aquilo haveria de mudar.

Talvez porque ele já houvesse suportado demais, talvez porque aquele seria o limite.

Talvez porque a dor fizesse os maiores guerreiros.

O direito à defesa, à auto-proteção, ao fim de um sofrimento que parecia ser eterno. O fim da tola crença - a única certeza reconfortante - de que ‘a escola não duraria para sempre’.

Porque lembranças são como fantasmas que acompanham até o último suspiro. Porque lembranças ferem, e lembranças matam. Aquele era o direito de uma criança que fora obrigada cedo demais a amadurecer. Porque ele não era apenas o ‘gordo’ que todos falavam. Ele era o mais gentil dos gigantes, um grande homem, cheio de coragem. Um homem que havia aguentado demais e por isso se encontrava também cheio de fúria e mágoa.

E imerso nesse raiva, nesse sofrimento, nas lembranças da tortura de uma vida toda, o garoto fechou os olhos. Não viu nada, não pensou em nada.

Apenas sentiu.

Fez apenas o que era certo, o que precisava ser feito. Reagiu. Um passo foi dado, enorme. As mãos poderosas encontraram o pequeno e atrevido alvo, o algoz. Os punhos como espada brandida contra a tirania, a alma como firme escudo erguido contra a fraqueza - tanto a dele quando a do próximo.

O chão tremeu ante a força absurda, inumana. A coragem finalmente enfrentando o covarde poder de uma sociedade de rótulos e cobranças, de aparências e perversidades. A força de uma história, a força da humilhação transformada em bravura, filmada, gravada. O golpe perfeito, o derradeiro momento, a glória!

A imagem estática do mal-feitor sendo jogado no poço de sua vergonha e arrogância marcada como orgulho em seu peito. O ‘basta’ foi dado não em voz alta, mas em um silencioso movimento - o qual haveria de ser seguido pelas mais barulhentas reações ao redor do mundo. Admiração, coragem, emoção, altivez! Um exemplo a ser seguido, a prova de que a força pode estar em cada um de nós, e que ela pode ser usada, e que ela deve ser usada!

E no final... a misericórdia, o fim da violência, a certeza de que sua mensagem já havia sido passada. Mais um exemplo advindo de um grande homem, cheio de honra e bondade, que apenas caminhou sem olhar para trás, para suas tristezas e mágoas.

Pois agora lhe restava apenas a altivez e a paz de espírito inerente àqueles que sabem ter feito a coisa certa.

Eles... Ah, eles haviam transformado Casey Heynes em um herói.

Eles haviam criado uma lenda.


quinta-feira, 21 de abril de 2011

Belial



Olá a todos... bem, dessa vez vou postar uma poesia, a primeira que consegui escrever em toda minha vida... *medo* Bem, como eu não entendo nada de métrica e tal, fiz meus versos livres e minhas rimas pobres, mas espero que alguém goste... Eu ao menos gostei de escrevê-la, por se tratar do meu querido Belial...
É isso, por favor comentem!
Beijos!



Reina sôfrego e orgulhoso,
O belo Príncipe do Norte,
Que em deslumbre ambicioso
Do Rei Infernal foi consorte.

Com sedutor jeito cortês,
Esconde a alma obscura.
Mescla à inerente altivez
Alguma eterna brandura.

Esperança um dia caída,
Oculta no falar refinado.
Chora uma alma traída,
Eterno pranto encarnado.

E as alvas asas cortadas,
Silenciosas belas fugazes,
Com impuro amor dotadas
De perversos sonhos vorazes.

E com uma língua ferina,
Feita de mentira bonita
Onde a verdade mofina,
Perdida, por vezes habita.

Mas sedutor logro domina
Cada firme gesto ofídio.
Inebria mais que morfina,
Serve à alma de presídio.

Dotado de toques de prazer,
Em mais lânguido pedido,
Capazes de enlouquecer
Num triste olhar perdido.

Num olhar de gelo gris,
Onde sangue maldito verte,
A lágrima serve de atriz,
Ao atrevido e sofrido flerte

Que a tantos anjos fez cair
Imersos em impura paixão.
Viu servos de Deus servir
Apenas pecado, podridão.

Tal qual Sapho, pele branca
Perfumada, emana luxúria,
Sem dó, o coração arranca,
Da Besta que reina Lemúria.

Impudico e imperativo gemido
Que incendeia todas as flamas
Escuta do casto, ávido pedido,
Convida às imundas camas.

Tendo nos corpos seu poder,
Disfarçado em beleza celestina,
Camufla-se o demônio que,
De diáconos despiu a batina.

Vendo no pecado uma diversão,
A cada filho incita indecência.
Tendo em Sodoma adoração,
Fez da cidade, orgia e demência.

E em sofrimento e maldição
Finos dedos tremem ávidos,
Buscam talvez por rendição,
Quem sabe por dias plácidos.

Iludindo-se a cada união
No mais torpe sentimento,
Há de restar nada, senão,
Ledo e profundo lamento.

terça-feira, 12 de abril de 2011

O Anjo

Oi gente, desculpa pelo 'abando' que o blog sofreu... uma correria daquelas! Mas bem, deixa eu postar aqui um conto chamado 'O Anjo', levemente yaoi, mas muito perverso. *adoro*
Eu escrevi para o concurso Plus Literário (tem o banner aí do lado), cujo tema era Serial Killer... Mas eu fiz uma burrada na hora de mandar o conto, e acabei ficando sem a nota dele até agora... hehehe, mas deixa para lá! Digam o que acharam, por favor!
ps: foi escrito sob a inspiração dos belos e insanos sorrisos do personagem Gunzi, de Togainu no Chi, mas não é fanfic.


O Anjo

Como eu poderia não me apaixonar por aquele anjo? Como, quando ele representava com exatidão tudo que eu desejava, para mim e para o mundo?

Conheci-o no mais adequado cenário possível: periferia, beco sujo, escuro, fedorento e silencioso. Uma perfeita aquarela exposta em moldura decadente do mundo podre que ambos habitávamos. O cheiro de carne e imundice, os insetos voando, as vísceras espalhadas pelo chão como flores rubras plantadas em um campo esplendoroso. Completando isso, seu sorriso insano exibindo a impudica língua que lambia os lábios com vontade.

Uma mão segurando a faca velha e enferrujada, a outra agarrada aos cabelos de uma cabeça decepada que um dia pertencera a um homem.

As roupas comuns manchadas, os cabelos louros e despenteados melados por um vermelho viscoso. E como o fruto de um sonho, ao fundo, um grande par de asas pintadas em rubro na parede.

Apaixonei-me de imediato por aquela visão, por aquela utopia de correção, de vingança contra um mundo infestado e sem jeito. Envolto e encantado eu me encontrava, de tal modo que o medo não ousava sequer se aproximar de mim. Para que ter medo, se o que eu testemunhava naquele momento, diferentemente do que os jornais viriam a noticiar, não era um assassinato, mas sim a prova definitiva de que Deus existia.

Assim como Seus anjos...

Um anjo de andar lento e vacilante – típico daqueles acostumados apenas a voar, que andam por mero capricho ou por importante missão.

Um anjo de olhar azul, encantador e puro.

E perdido.

Caminhava até mim, sorrindo com os olhos repletos de tristeza e dor. Um anjo errado, tolo o suficiente para permitir que seus sagrados pés pisassem sobre a terra corrompida. Louco o suficiente para permitir que o imundo sangue que espirrava dos pecadores maculasse sua pele, tingisse sua alma.

­–Não vai fugir de mim? – Ele perguntou após algum tempo, em um fio de voz, como se repleto de surpresa ou receio. Baixa, grave, profunda; a voz de um perfeito juiz.

Mais passos, tão lentos, fortes e suaves ao mesmo tempo... A lâmina ensanguentada agora contra minha garganta, seus dedos sujos na minha face... Meu corpo tenso enquanto o coração se encontrava acelerado de emoção e certo receio. Minhas mãos tremendo na ânsia herege de senti-lo, mesmo eu sabendo que aquilo era errado, que anjos não deveriam ser tocados por humanos... Mas, como resistir quando se é tomado por uma paixão tão súbita e por uma necessidade tão cruel?

Eu o abracei, ostentado todos meus sentimentos conflitantes e desesperadores. Minha pele foi cortada, mas só de leve, pois logo as mãos dele se abaixaram e a faca caiu em um tilintar torturante. Ele não fez nada, não perguntou nada. Apenas me abençoou com aquele momento de silêncio e comunhão, para então me afastar, e com o ruflar silencioso de suas asas invisíveis, sumir do meu campo de visão.

Passei o resto dos dias buscando-o pelos céus, sem sucesso. Achei-o apenas em tolas manchetes de jornais hereges que insistiam em chamá-lo de ‘O Demônio’. Duas semanas, três atos de justiça divina realizados. O cenário, sempre o mesmo: becos sujos, tripas pelo chão e asas em paredes.

Busquei-o então com mais afinco. Desci meu olhar dos céus para os esgotos. Percorri cada travessa daquela cidade a cada noite e madrugada que se passou. Deparei-me por vezes com nada, por vezes com gatos, quase sempre com mendigos e prostitutas, sucessivamente com lixo, duas vezes com cadáveres jogados em um cenário carmesim.

Uma vez com ele.

Nessa noite de gloria pude então ver com detalhes a sua ação: senti como se fossem em minhas mãos a faca desamolada que com muito custo e repetidos golpes cortava a carne com dificuldade. Senti como se fosse a minha própria pele sendo banhada pelo calor fétido do sangue daquele pecador. Era meu o prazer presente no olhar azul, era a minha vontade movendo as grandes mãos do anjo. Era o meu desejo que fazia com que os dedos se afundassem nas vísceras e trouxessem consigo os intestinos. Ah... Era meu próprio gemido de satisfação sendo externado pelos sensuais lábios que eu tanto desejei contra os meus.

Belo e puro, tal como da primeira vez, ele me olhou com seus olhos de cristal e gelo tão logo terminou o que fazia. As mãos ainda banhadas em sangue, a língua exposta em desejo. Os passos lentos, os cabelos sujos, as roupas manchadas. Seu sorriso e seu riso.

Sua divindade.

Tudo, na minha direção.

Tudo, lentamente.

A faca firmemente segura, o andar cambaleante, o sorriso de anjo louco. A mão vermelha e vacilante na direção do meu pescoço.

E os orbes azuis nublando-se em lágrimas serenas.

E meus braços ao seu redor. Um abraço de amor e adoração, uma blasfêmia de minha parte por querer tocar aquilo que só era de Deus. Nosso amor era errado e impossível, eu sabia e ele também. E por isso suas lágrimas caiam sobre meus ombros quando o único movimento de seu corpo ainda era tremer.

Nosso momento mágico e profano, meu sentimento de revolta e adoração correspondidos. Os dentes dele de leve contra meu pescoço, sua língua resvalando pela marca de nosso primeiro encontro – a marca de que eu pertencia a ele. Meu prazer expresso em um gemido, e então seus olhos que se voltavam a mim com surpresa e confusão. Mais perdidos do que nunca, mais desesperados do que poderia ser possível.

Tão frágeis...

Fechei meus olhos e beijei seus lábios.

Os lábios sujos pelo amargo sangue imundo que lhe escorria pelas mãos, a língua quase imoral que me excitava... Ah, a lasciva língua que se movia de maneira deleitosa, que provava de mim, que me experimentava, assim como já experimentara do sangue de todas as suas vítimas. Ele me beijou e, com seus gestos rudes e fortes, prensou-me contra um dos muros do nosso cenário. Beijou-me e me permitiu novamente ouvir sua voz, tão grave e pesada, tomando a forma de quase grunhidos de satisfação.

Uma voz que aumenta em volume e excitação a cada nova mordida que ele me dava. Sua respiração que se tornava mais ofegante à medida que ele apertava minha garganta, a cada instante que o desmaio ameaçava me tomar. O volume de sua ereção contra a minha, seu corpo abraçando e controlando o meu. Sua boca em meus ombros, em minha orelha. Sua voz grave como um estrondo me atiçando os sentidos, seus dentes desprovidos de compaixão arrepiando minha pele, provocando-me prazer sobre-humano... E sua língua... E suas mãos...

Mãos rudes e rubras que me sujavam, que puxavam meus cabelos, rasgavam minhas roupas. Minha vontade, minha necessidade de senti-lo; de tê-lo como parte de mim, de tê-lo me completando. Minha felicidade em sentir a faca sob minha pele, adentrando minha carne, rasgando meus músculos.

E seus olhos ainda tão puros, tão límpidos e azuis. Tão perdidos em amor e compaixão.

Seus olhos que choravam e seus dentes que rasgavam com gosto tudo em mim.

Meu sangue na parede.

Minha felicidade em finalmente me tornar suas asas.