domingo, 20 de fevereiro de 2011

Fred



O Fred é o meu melhor amigo, daqueles que você sabe que nunca terá igual.

Antes de conhecê-lo, eu tinha muito medo dele, especialmente de noite. O barulho que ele fazia bem quando eu estava prestes a dormir era algo semelhante a um fungado muito assustador, e o fato dele se esconder sempre que eu usava uma lanterna para olhar debaixo da cama não era algo que normalmente poderia ser descrito como a ação de alguém confiável. Isso para não citar o fato que ele tinha dentes enormes e afiados, braços muito compridos, quatro olhos e ainda fedia a roupa suja.

Meu irmão mais velho dizia que ele gostava de comer crianças pequenas, do meu tamanho. Que tinha sido ele que tinha devorado o Antonio, lá da rua debaixo, e por isso os pais dele haviam se mudado... Eu não acreditava, o Pedro sempre foi um grande mentiroso, afinal... Mas sabe como é, né? Por via das dúvidas...

Passei bom tempo com medo, chegando ao extremo de quase morrer de sede, apenas para não ter que pisar no chão durante a noite, no escuro. Meus pais não acreditavam em mim, diziam que não tinha nada lá debaixo, que era só a minha imaginação, e por isso se recusavam a me deixar dormir com a luz do quarto acesa. Eu era um ‘menino grandinho’, e por isso deveria dormir no escuro, não importava o fato de eu ter sido obrigado a fazer xixi na cama três vezes, impossibilitado de ir ao banheiro.

A coisa só começou a mudar quando eu quebrei a perna. Foi de noite, e eu estava realmente com muita sede, certo de não conseguiria dormir sem ir à cozinha para tomar um copo com água. Determinado, olhei à minha volta e estudei cuidadosamente o meu quarto, tendo enfim a ideia genial! Sai da cama para cima do criado mudo, então pulei na estante de livros e brinquedos. Minha ideia era alcançar a escrivaninha e assim a cadeira, que por ser de rodinhas, poderia com um impulso me levar em segurança até a porta. Meu plano era perfeito, mas deu errado no momento em que a estante simplesmente virou em cima de mim.

A perna engessada justo durante as férias não poderia ser pior, ou poderia, já que eu teria que ficar um bom tempo de cama e o meu quarto ficava no segundo andar, longe do sofá e da televisão...

No segundo dia minhas histórias em quadrinho já tinham acabado e eu já estava morrendo de tédio. Meu irmão deveria estar jogando futebol na rua, meu pai trabalhando e minha mãe limpando a casa. Eu estava sozinho, inválido e abandonado. Ninguém estava disposto a me fazer companhia, excerto... Foi aí que eu finalmente me dispus a prestar um pouco mais de atenção no monstro... Como ainda era de dia, eu não estava com medo... Quer dizer, estava, mas bem pouquinho!

Fazendo um certo malabarismo, eu consegui olhar para debaixo da cama sem mexer muito a perna quebrada, e vi o Fred lá. Com a luz era mais fácil entender como ele era de fato. Aqueles dentes enormes eram feitos de grandes e afiados pedaços de giz de cera perdido, seus braços gigantescos que me faziam ter pesadelos com a possibilidade de algum dia subirem pela cama a me agarrarem, eram na verdade aquele moletom azul que a vovó havia me dado no natal e eu pensava que jamais veria novamente na vida. Seus quatro olhos eram feitos das rodas de um carrinho meu que eu havia desmontado há algum tempo. Seu corpo era todo feito de meias de diferentes cores e bonecos dos Cavaleiros do Zodíaco e dos Power Rangers. Não pude deixar de pensar no quão legal deveria ser ter um corpo como o dele.

Ele parecia estar dormindo agarrado àquele meu tênis que eu sabia que estava debaixo da cama, mas morria de medo de procurar. Ele parecia bem tranqüilo, algo me dizia que no fundo ele estava tão infeliz quanto eu. É tão triste ficar o dia todinho no quarto, sem ninguém para conversar ou brincar com você... Onde será que estava a mãe dele? E o que ele comia? Será que ele tinha um irmão chato igual ao Pedro? Passei o resto do dia pensando naquelas coisas, e assim que a noite veio, eu me apressei em puxar conversa com ele.

Ele era bem tímido, estranhou minha tentativa de aproximação à princípio, mas logo se abriu comigo (especialmente depois que eu lhe ofereci meu copo de leite e as cascas do sanduíche que a mamãe havia trazido para mim). Ele me contou que costumava comer poeira e pedaços de brinquedos quebrados que eu não queria mais, mas que não era nada gostoso. Ah, ele também costumava caçar os duendes que apareciam pelo meu quarto, e me garantiu que embora eu não pudesse vê-los, eram muitos! E isso explicava muita coisa, afinal, eram os duendes que escondiam minhas coisas e me colocavam doido procurando pelos meus óculos ou pela minha lição de casa. E ele também me garantiu que não comia crianças, pois crianças, apesar de pequenas, ainda eram grandes demais para ele mastigar. Ele preferia mil vezes comer biscoitos.

Foi assim que eu e o Fred viramos melhores amigos. Eu podia contar tudo que eu quisesse para ele, que ele sempre me ouvia e me dava bons conselhos. De vez em quando ele sumia sem dar avisos, geralmente quando a mamãe fazia alguma faxina no meu quarto... Mas depois de uns dias ele voltava, um pouco diferente, com braços menores, dentes maiores, seis olhos, uma infinidade de coisas... Mas ele sempre voltava, e sempre prometia que seria meu melhor amigo eternamente.

Hoje eu tenho dezesseis anos e eu e o Fred ainda somos melhores amigos. Ele mudou de lugar, não vive mais debaixo da minha cama, mas sim dentro do meu armário. Não tem mais dentes gigantes e coloridos, nem brinquedos formando seu corpo, e eu não preciso mais dar-lhe coisas gostosas para comer... Ele tá maior, meio velho, mais lerdo, sabe? Não é mais tão bom caçador de duendes, e por isso minhas coisas somem com mais freqüência do que antes... Mas ainda é tão bom amigo e conselheiro quanto antes, embora ultimamente eu o tenha procurado menos... Acho que faz parte dessa coisa se crescer... Pelo menos ainda nos divertimos quando eu o reviro e faço cócegas nele enquanto procuro por alguma roupa específica no armário. O fato é que eu não consigo imaginar minha vida sem o Fred.

15 comentários:

  1. Vou logo fazer uma DENÚNCIA aki de q esse seu conto infantil foi escrito a base de TEQUILA e ABSINTO!!!!!!

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  2. Bem afetuoso, simples e verdadeiro.

    Gostei muito.

    *-*

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  3. UoU. Botou pra fuuu, sami. Muito bem o formado o ponto de vista do pirralho. quase concordei com o plano dele.

    :P

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  4. Malditos duendes, também me atormentam de vez em quando... Aliás, de momento andam com um dos meus diplomas, preciso de um plano para o recuperar...
    O que mais gostei do conto, é que relembrou os meus medos de infância. Eu sempre tive uma imaginação muito fértil,e acabei por criar muitos monstros... Felizmente, cheguei à conclusão de que o que funcionava num sentido, também funcionava noutro, então acabei com uma alcateia de lobos no quarto para me proteger dos fantasmas (culpa do Sexto Sentido, que fui ver com dez anos -.-'), e recordo em particular um homem horroso (agora que penso nisso, era fisicamente parecido com o Filch... omg, os tipos que fizeram os filmes de HP plagiaram-me!) que aparecia nos reflexos dos vidros quando era noite ou estava escura. Um dia tentei sorrir e ele retribuiu, com aceno e tudo! Ficou muito menos assustador.
    Bom, actualmente diriam que estava sob influência de alguma coisa, mas fazer o quê, se eu sabia (sei) imaginar?
    Ademais, o conto tem também a lição de moral, típica (e pelo menos a meu ver, necessária) das histórias de crianças: a superação de medos.

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  5. Ficou muito bom Sam... Após ler o conto decidi... Te darei uma garrafa de vodka russa original... Ficou realmente muito bom... Você me deixa sempre surpreso... Transita entre estilos de forma magistral... Parabéns... Pena que o Natan tenha razão... :p

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  6. @Renan, que bom que serviu tb para te inspirar a escrever aquelas loucuras XD

    @Big Id! XD E bem, diz se não era um plano ótimo? XD

    @Elyon HUAHaua! bom saber que não é só a mim que eles atormentam! XD Quando acontece comigo, eu costumo barganhar com biscoitos XD
    E bem, eu nunca tive amigos imaginários e monstros na infância... mas sim depois dela! ahahah
    Mas sem dúvida sua solução para lidar com os monstro foi perfeita! e eu sugiro que você estre com um processo contra Harry Potter, pq plagiar imaginação alheia é crime! u_u
    E bem, fico feliz que tenhas gostado desse continho ^^
    beijinhos, Rainha Malvada! XD

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  7. @Thiiii! Como assim o Natan tem razão, heim?? XD Mas a ideia da Vodka é boa... hahahahaha Que bom que gostou, amor! beijinhos

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  8. Quando eu era criança, tinha certeza que era o saci (que não deixa de ser um duende) que escondia minhas coisas. XD Eu lembro que insisti eternamente para a minha mãe que fora isso que tinha acontecido com umas massinhas de modelar (provavelmente deviam ter ficado velhas e alguém jogou fora, mas ainda gosto de achar que foi o saci).

    Achei uma coisa fofa esse conto. :3 O protagonista é muito apertável.

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  9. Ah, esqueci de falar: esse conto tinha que virar um livrinho ilustrado. ia ficar uma graça.

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  10. AHUAHu, nossa, malditas criaturas mitológicas que escondem nossas coisas!
    Os duendes do meu quarto são de matar, te garanto! bagunceiros como ninguém!
    E nhai, seria mesmo fofo um livrinho desses, não? XD
    beijos!

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  11. qnt tempo vc demora pra escrever um conto como esse samila?

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  12. Olá Rodolfo! Esse conto específico foi escrito em uma tarde de domingo, mas dependendo do tema, posso demorar até semanas para escrever um conto. =/

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  13. Nossa! Se eu tivesse lido isso quando era criança com certeza não teria tanto medo de descer da cama ou de procurar coisas em baixo da cama, queria ter meu Fred também...
    Pena que eles se afastaram um pouco por terem crescido cada qual do seu jeito... Mas o importante é o que esse conto ensina... deveria ser publicado em algum livro de contos...
    Beijos e parabéns.

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  14. @NINA nJUHAuhu
    Freds são maravilhosos amigos para as crianças! #fato Nhai, obrigada *-*

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