sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Fada Madrinha

Luan era um menino.

Vestia-se como menino, falava como menino, andava com os meninos. Jogava bola e video-game e roubava fruta no quintal dos vizinhos, assim como os outros meninos. Olhava Playboy escondido e ficava falando gracinhas para as meninas. Também tinha o desleixo típico dos meninos, a mania de jogar a roupa suja debaixo da cama, de subir em árvores, e de voltar para casa todo sujo e cheio de hematomas.

Mas mesmo assim, havia algo errado com ele. Algo realmente errado, e que só ele conseguia ver. Seus amigos não notavam e embora seus pais tivessem idéia do que fosse negavam a si mesmos dizendo que era só uma fase, que logo ia passar. O psicólogo dissera que nada podia ser feito no momento, só esperar.

O problema tinha a ver com aqueles malditos contos de fadas, que entram na cabeça das crianças e as deixam cheias de sonhos impossíveis. A funesta fantasia que fazia com que meninas sonhassem com príncipes encantados vindo buscá-las em cavalos brancos, e que fazia com que os meninos se imaginassem em pesadas armaduras, brandindo espadas e matando dragões.

Isso foi antes da televisão estragar tudo e acabar com a magia, é claro. Mas mesmo assim, os contos de fadas conseguiram chegar até Luan.

Contos de fadas não são prejudiciais, desde que você não acredite neles. Mas Luan acreditava. Pior, acreditava logo na fada madrinha, que um dia viria do céu e realizaria seu mais precioso desejo.

“Fada madrinha? Mas isso é coisa de mulherzinha, mané!” – Foi o que seu melhor amigo disse quando Luan confessou-lhe seu mais oculto segredo.

O menino concordou, um pouco triste. “Fada madrinha? Bá, que merda, né? Coisa de viadinho! Nem sei de onde tirei isso” –Respondeu fazendo-se de forte.

Mas o fato era que mesmo sendo menino – quase homenzinho, na verdade – Luan não conseguia tirar da cabeça aquelas bobas ilusões infantis. Tinha algo realmente errado com ele, e que o deixava a cada dia mais angustiado e infeliz. Talvez ele não servisse para ser menino, talvez em sua alma, ele não passasse mesmo de uma ‘mulherzinha’. Talvez se apegar na esperança da existência de uma fada madrinha fosse só a prova que ele jamais conseguiria realizar o que tanto desejava.

Era com esses pensamentos que ele encarava a cada dia seu reflexo no espelho, e constatava, desolado, o crescimento dos seus seios, os quais ele tentava a todo custo ocultar. Abria o armário do banheiro e encarava, raivoso, o maldito pacote de absorventes íntimos, os quais ele sabia que algum dia teria que usar. E pelo jeito que sua mãe descrevera, e pelas dores que sentia no ventre, esse dia não demoraria muito.

E era nesse momento que ele abria a janela e procurava no céu pela primeira estrela que surgira na noite, e fazia esperançoso, o mesmo pedido de sempre:

“Fada madrinha... Me faz ser um menino de verdade...”

2 comentários:

  1. Nossa, que conto doido Sami.
    O personagem é uma menina que foi criada como menino, mas sabe que é uma menina? Muita confusão.

    Eu interpretaria como uma garota tomboy se o nome não fosse "Luan".
    Terei que pensar mais a respeito. XD
    mas meio que me identifiquei com o personagem. Nesse ponto de vista da garota tomboy que fica chateada porque tem que crescer e não tem mais como ser "um dos garotos".

    Queria ver o tipo de flame que esse conto poderia dar lá no ONE, porque o tal "p.o.v." é totalmente mindfuck. XD
    Afinal... a questão que paira é "o que é ser um menino?" "e o que é ser uma menina?"

    Parabéns por mais um conto maravilhoso! :D

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  2. Na verdade é uma menina transgênero, emborar muitas pessoas tenham entendido de diferentes maneiras ^^
    e bem... HAUHAUAH Acho que vou postar lá no One isso, ver no que dá XD
    Obrigada por ler, meu bem! que bom que gostou! =D

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