domingo, 27 de fevereiro de 2011

A Lenda de Fausto - Capítulo II - O Contrato


A Lenda de Fausto - Capítulo II - O Contrato

Fausto fazia um esforço enorme para se levantar. Tinha sede, mas a jarra que mantinha em seu criado-mudo encontrava-se seca. Contemplando tão desesperadora situação, pensou na falta que lhe fazia alguém que pudesse ajudar-lhe agora que se encontrava velho e enfermo.

Para seu alívio, todavia, escutou alguns baques na porta de seu quarto, e não deixou de agradecer a Deus por mandar alguém que pudesse lhe buscar um pouco de água.

– Pode entrar...

O belo rapaz, ao ouvir a permissão que lhe fora dada pela voz fraca e rouca, interrompida por um leve pigarro, adentrou o simples quarto sem fazer muita cerimônia. O homem acamado o acompanhou com os olhos, observando os passos majestosos que mais pareciam o vôo de uma ave de rapina, tão elegantes e fatais. A maneira como ele se vestia também chamara a atenção do velho médico, que não deixou de notar a suntuosidade e elegância do longo casaco negro, confeccionado em linho e peles.

Sua aparência era diferente da das pessoas de seu país: seus cabelos eram muito escuros, de um preto profundo que parecia atrair toda a luz em volta. Sua pele era muito pálida, enfeitando como porcelana a face que só poderia ser descrita como angelical, tamanha perfeição e suavidade nos traços. Lábios finos e bem contornados, de aparência macia e tentadora tornavam o rosto ainda mais belo em conjunto com seus olhos, os quais, todavia, pareciam perigosos por algum motivo. Vorazes e frios. E cinzentos, como Fausto nunca vira.

Em sua magra mão trazia uma jarra de cristal cheia de água.

– doutor Fausto, o senhor está com sede? – Perguntou assim que se aproximou o suficiente do enfermo. Sua voz era melodiosa e muito agradável de ouvir. Parecia doce, mas tinha algo de muito provocante nela, algo que Fausto não pôde deixar de notar, mas também não pôde identificar.

– Obrigado jovem senhor. O fato era que estava morrendo de sede. Não imaginas o quão aliviado estou que tenhas vindo! – Falou um tanto surpreso, não só pela coincidência, mas pela beleza daquele homem e pela estranha sensação que sua presença transmitia.

– Oh, não é nada. – O rapaz sorriu-lhe então com uma doçura que beirava o cinismo, despejou a água dentro do copo que se encontrava junto ao jarro seco. – Fico feliz de ser-lhe útil, doutor. – Completou sua fala enquanto entregava a Fausto o copo.

O médico bebeu avidamente e então olhou para aquele misterioso homem que sorria para ele, um sorriso tão estranho e envolvente. Aquela altivez, aquela riqueza, aquele porte e aquela beleza eram tão impressionantes que o médico imediatamente imaginou se tratar de algum nobre.

– Posso perguntar quem é o jovem senhor?

– Claro. Chamo-me Belial, e eu sou a essência da humanidade, meu caro. Represento a promiscuidade das almas que necessitam de paz. Apresento-me, sou a liberdade de teu corpo, e não cobro com fé. – Falou seriamente, mas de maneira delicada, passando uma forte credibilidade às suas palavras.

A princípio, o médico se assustou, mas logo esboçou um sorriso.

– Ora, que bobagens para se falar com um pobre velho. Sabes bem que não é bom ficar falando essas coisas por aí... As pessoas vivem com medo, e dizer que tens o nome de um demônio poderá trazer-te sérios problemas, meu jovem.

– Oh, mas apenas falo-te a verdade, doutor.

– O que esperas obter fazendo-me acreditar em tal sandice? Queres apenas comprovar que este pobre velho está perdendo o juízo, dizendo por aí que foi visitado por um ser das trevas?

– Tua velhice o incomoda, doutor?

– Incomoda a todos, creio eu. Mas fazer o quê? É parte da vida... Envelhecer e morrer, foi assim que Deus fez, logo é assim que deve ser...

– Mas e se eu dissesse que não precisa ser assim?

– Eu teria certeza de que és louco.

– Mas não sou, e posso provar-te, se me permitires. – Sua confiança impressionava o velho médico. Mesmo achando que aquele rapaz não passava de algum lunático, um dos tantos que estavam aparecendo recentemente, sentia-se tentado a acreditar em suas palavras. Belial, caso fosse este mesmo o seu nome, falava de uma maneira que certamente faria que qualquer pessoa duvidasse das suas mais absolutas certezas.

– Como pretendes provar-me algo assim?

– Posso tornar-te jovem novamente, e para sempre. O que achas disso?

– Ah, se isso fosse verdade... – O médico sonhou alto, sem sequer notar.

– Então, o senhor aceita a juventude que estou oferecendo?

– Rapaz, não sabes o quanto eu gostaria que o que falas fosse verdade.

– Aceitas minha proposta então, estou certo?

– Sim... Haha... – Riu ao ver como estava entrando na conversa daquele estranho, não podendo evitar sentir-se um grande bobo.

– Então... – Belial falou calmamente enquanto se aproximava mais de Fausto. Levou seu próprio pulso à boca e o mordeu com força, rompendo a fina pele e causando um pequeno sangramento. – Então beba. – Ordenou de forma velada, oferecendo seu sangue a Fausto.

– Estás louco!

– Não, não estou. – Belial mirou-lhe os olhos, quase que hipnotizando Fausto com seus orbes cinzentos e frios, e com seu tom de voz calmo e imperativo. – Eu sou aquele que te dará tudo o que desejas. E se queres ser jovem novamente, tudo que precisas é beber uma gota de meu sangue.

– Eu não beberei nada!

– Por quê? Não queres essa dádiva que te ofereço? Pensa em quantos adorariam estar em teu lugar, para usufruir deste belo presente.

– Presente? – Fausto sentia-se fraco perante as palavras de Belial. Elas o seduziam com uma força incrível. A tentação daquela promessa de juventude era muito grande. – Por que eu deveria confiar em um demônio?

– Não precisas confiar em mim, apenas obter o que te ofereço.

– Não estou interessado em nada que venha de alguém maligno como tu! Ah... Urgh... – Fausto começou a se sentir repentinamente muito mal, pondo-se a tossir violentamente.

– Diga, senhor Fausto, por que não queres nada de mim? Eu sou o único a te oferecer ajuda neste momento. Fui eu quem te deu de beber, e não um dos anjos do Senhor. Encara a realidade, doutor: até Deus te abandonou, mesmo tu tendo sempre obedecido a Ele. Passaste a tua vida toda sendo correto, e não aproveitaste nada! E esta é a recompensa que Deus te dá: doença e solidão! Tens certeza de que vais abandonar a chance que estou te dando? – Sussurrava bem perto do ouvido de Fausto, de maneira muito sedutora, como só Belial era capaz de falar. – Pode ser que morras agora, sem nunca ter sabido como era viver de fato. Arrepender-te-ás para sempre, por não ter provado de nenhum dos belos prazeres que te foram ofertados... Tens certeza de que a vaga promessa de uma vida eterna no Céu vale mais de que uma vida eterna na Terra, esta repleta de riquezas e diversão? Posso te dar tudo que quiseres... Enquanto Deus nunca te deu nada.

O médico vacilou. O que Belial falava era verdade. Tudo verdade. Ele sempre foi tão bom, e aquela havia sido sua recompensa. Afinal, o que ele estaria perdendo de fato em aceitar aquela sandice? Sem falar que aquilo provavelmente era apenas loucura daquele homem, ou alucinação da sua mente.

Fausto pegou o braço de Belial com suas mãos trêmulas e em desespero bebeu o sangue do demônio. Belial sorriu triunfante ao ver a aparência do médico mudar repentinamente, pondo-se a contemplar o quão belo ele era. Os cabelos deixaram de ser brancos e voltaram a ostentar belo dourado que lembrava a aurora. Os olhos azuis, antes sem brilho, agora pareciam duas vivas safiras iluminadas. O corpo que se encontrava tão débil, voltara a ter o vigor. Fausto mostrou-se um formoso e esbelto rapaz de vinte anos.

Com a diferença apenas que agora a alva pele de seu pulso esquerdo havia sigo maculada pelo negro desenho de um selo, dentro do qual se encontrava o nome “Belial”. Marcado como gado, aquela era a prova de que ele o demônio agora tinham o mais profundo dos contratos.

– Oh doutor... Não sabia que eras tão belo... Agora só preciso saber o quanto vale tua alma. Vamos! Pede conhecimento, dinheiro ou prazer. Tudo eu te darei, pois nada mais entre nós depende de Deus.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A Lenda de Fausto - Capítulo I - O Demônio

Gente, segue o primeiro capítulo de Lenda de Fausto, para quem não conhece ter um gostinho de como é A Lenda de Fausto...

E olhem que lindo o convite!



Capítulo I - O Demônio


Doutor Fausto sempre foi um homem íntegro, daqueles que dedicam sua vida na ajuda ao próximo. Estudou, pesquisou, perdeu noites de sono e curou dezenas de pessoas. Salvou muitas vidas, sem jamais pedir qualquer coisa em troca.

O destino, todavia, sempre se mostrara ingrato a ele, jamais repetindo as gentilezas que destinava aos seus semelhantes. E quando se encontrava então velho e enfermo, preso a uma cama, viu-se sozinho e abandonado, sem ninguém para se dignar a acudi-lo.

E considerando sua triste realidade, o coração de Fausto fraquejou, enquanto serenas lágrimas escorriam-lhe pela face idosa.

Abaixo da Terra e abaixo de tudo, no majestoso Reino onde as chamas inflamavam de maneira eterna e intensa, já nem sendo mais sentidas pelos imortais que lá habitavam, a mais bela estrela já criada, que outrora ofuscava os olhos por sua luz sem fim, agora cegava e encantava por sua malévola e atraente aura de escuridão. Lúcifer, a Estrela da Manhã que um dia foi servo no paraíso, agora reinava sobre o Inferno e sobre a corja de almas infiéis que a ele descia.

E como o dedicado soberano que era, não poderia deixar escapar por entre seus belos dedos nenhuma chance de vingar-se, sobretudo de estender seu poder. Há tempos observava Fausto, e por isso sabia muito bem que aquele homem era um dos favoritos do Criador, um verdadeiro santo. Alguém que sempre viveu corretamente, amando ao próximo com a mesma intensidade que conseguia amar a si mesmo. Mais do que isso, amou a sua esposa mais do que a qualquer outra mulher. Manteve-lhe tamanha fidelidade que, mesmo depois da morte de sua amada, mostrou-se incapaz de se apaixonar novamente, e por isso jurou manter o luto até o fim de sua vida, dedicando-se sempre a Deus e à Sua obra.

Um homem correto, sempre.

Mas que se encontrava então com a fé abalada, e Lúcifer não poderia deixar de ver aquela como uma grande oportunidade de fazer um santo cair das graças de Deus e encontrar o caminho ao pecado e ao submundo.

O mais poderoso dentre todos os Caídos pôs-se a analisar um pouco a situação. Sabia muito bem que, apesar do enfraquecimento do coração de Fausto, não seria tão simples tarefa conseguir a alma dele.

– Chame Belial. – Ordenou para um de seus servos, deixando que sua linda voz interrompesse momentaneamente os cânticos profanos que eram entoados por demônios inferiores em homenagem a sua figura.

O belo demônio, Príncipe do Inferno, não tardou em adentrar o recinto onde se encontrava o trono do Grande Caído, e, ajoelhando-se perante Lúcifer, deixou que sua voz charmosa e naturalmente cínica perguntasse o que seu Rei desejava.

Lúcifer majestosamente levantou-se de seu trono e caminhou até Belial, exibindo assim suas imponentes asas de negras penas. Sua face tendia para o masculino, mas os traços finos e de perfeita simetria explicavam o motivo dele ser considerado o mais belo dos andróginos. Os cabelos compridos e escuros, que chegavam até suas coxas, refletiam com grande brilho as chamas que iluminavam o local.

Parou na frente de Belial e segurou seu queixo, fazendo o demônio se levantar para em seguida puxá-lo de encontro a um voluptuoso beijo. O servo de imediato cedeu ao desejo de seu rei, mesmo diante dos olhos de vários demônios inferiores.

Separou-se dele como se nada tivesse acontecido e começou então a falar.

– Belial, meu caro, quero a alma de um homem.

– Eu a conseguirei para o senhor.

– Aviso-te que este homem é um santo.

– Antes de ser um santo, é um homem. Sendo homem, não há de resistir a mim. – O Demônio do Orgulho, que sempre foi capaz de corromper qualquer coração, falou de maneira petulante, como lhe era de costume.

– Adoro sua confiança... Pudera, és um sedutor nato, meu querido Grande Satã, feito de soberba e luxúria... – Falou maliciosamente, passando a mão pelo corpo de Belial.

– Eu apenas utilizo bem meus préstimos, meu estimado Rei. – Belial respondeu então com descarada falsa modéstia.

– Muito bem mesmo... – Disse mansamente, andando até seu trono, e sentando-se em seguida. Olhou um tanto desejoso para Belial, e fez um sinal para que o demônio sentasse em seu colo. O demônio obedeceu prontamente. – Belial querido, conto contigo para fazer Fausto cair em tentação. Use o que for necessário, dê-lhe a juventude, o conhecimento, o dinheiro. Faça-o blasfemar e aproveitar de todos os prazeres possíveis. Quero que a queda daquele santo seja memorável.

– Certamente conseguirei, senhor, afinal, nunca tive uma derrota.

– Verdade. Tenho certeza que tu conseguirás corrompê-lo, afinal, foste tu quem seduziu e convenceu a maioria dos anjos do céu a se unirem à nossa causa. És incrível, meu belo Príncipe. Sem tuas capacidades, eu nada seria. – Sussurrou as últimas palavras, passando a língua pelo pescoço de Belial.

– Oh meu Rei, não fales bobagens. Certamente faremos nosso Criador se arrepender por nos fazer cair! Afanaremos todo o seu rebanho, especialmente as mais preciosas ovelhas.

– Conto contigo, meu caro. – Lúcifer deu um beijo em Belial e observou-o sair de seu colo e caminhar para fora daquela sala, sem se importar com os olhares famintos lançados pelos demais demônios ante sua beleza e sensualidade ímpares.

O Rei do Inferno então sorriu, pensando em como Deus ficaria ao perder um de seus santos para ele.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

A Lenda de Fausto


Adicionar imagemPara quem não sabe, o meu primeiro romance, A Lenda de Fausto, será lançado dia 11 de Março pela Editora Multifoco, no restaurante Sesc Centro Amapá, às 20:00h! Ainda não tenho o preço, mas estajam certos que eu estarei mandando para todo o Brasil, e possivelmente para Portugal também! Segue abaixo uma breve resenha! Você que conhece, que já leu A Lenda de Fausto, por favor, dê sua opinião, diga o que achou, divulgue, ajude essa autora estreante...
E para você que não leu ainda, mas quer conhcer... Fique aqui de olho no blog! Estarei postanto capítulos, samples e informações!
Segue uma resenha...


http://twitpic.com/422bfi (Imagem em tamanho maior)

A Lenda de Fausto de Samila Lages é um romance singular, não apenas por seu enfoque polêmico –o qual certamente chocará ao mesmo tempo em que encantará diversos leitores– mas principalmente pela forma como foi colocado. Não se trata apenas de mais uma das tantas versões da famosa lenda alemã sobre o médico que vendeu sua alma a um demônio em troca do conhecimento supremo. É isso e algo mais.

Assim como fizeram grandes escritores com Goethe, Müller, Puchkin, Fernando Pessoa e Thomas Mann, Samila Lages procurou explorar toda a simbologia embutida na personagem de Fausto: um homem capaz de tudo para deter a sabedoria e o progresso. A diferença foi no enfoque escolhido, algo totalmente inovador para uma lenda já contada e recontada tantas vezes: trata-se claramente de uma linda e sensível história de amor proibido, repleta de fantasia e drama.

Através de uma linguagem simples, mas repleta de lirismo e poesia, Samila nos apresenta a um desconhecido Doutor Fausto já no fim de sua vida. Trata-se de um homem que viveu em santidade e dedicou-se exclusivamente à medicina a fim de ajudar as pessoas, mas que agora se encontra sozinho e desamparado diante da velhice e da doença. Certamente, um coração magoado pela ingratidão humana e talvez por isso tão frágil ante as tentações de um demônio.

Belial é o Príncipe infernal do Orgulho, o que logo se nota por suas belas falas sempre repletas de ostentação e soberba. Trata-se de uma personagem simplesmente cativante por sua maldade e sinceridade, e especialmente pela sensualidade que parece emanar a cada gesto. Provavelmente apenas um demônio tão poderoso quanto aquele conseguiria através de sua astúcia e charme tornar escuro o coração de um humano destinado a ser santo.


"Desejo.

Parecia ser este o mais poderoso dom da humanidade. Não foi a toa então que teria sido esta característica da alma dos homens a responsável pela queda de Belial e de tantos outros anjos. Era o desejo que separava os demônios dos anjos, tão puros em sua ignorância. O desejo era a mais intensa demonstração da vida e isso fascinava Belial como nenhuma outra coisa.

Desejo. Era essa a verdadeira fonte de toda a existência de Belial, de seu orgulho e de sua luxúria. Era o desejo que o tornava mais demônio e mais humano ao mesmo tempo.

O desejo era o seu alimento.”


A partir dessa concepção a autora então nos apresenta aos poucos a deterioração que sofre o caráter de Fausto exposto à nefasta influência de Belial, e talvez por isso se torne ainda maior a surpresa quando se revela a verdadeira essência da obra: de maneira extremamente romântica e emocionante, Samila narra como acontece aquilo o que menos poderia se esperar diante de uma relação tão conturbada e semeada por interesses nada benignos:


“Amor.

Se o desejo era seu alimento, o amor era a sua perdição. Fora-lhe dito tantas vezes que ‘nada de bom haveria de surgir do amor de um demônio para com um humano’. Ele sabia muito bem. O passado já lhe provara a verdade dessa afirmativa. O amor era certamente sua perdição.

Mas uma perdição tão suave, tão terna, que parecia abrandar o temor e o desejo, abrandar tudo que existia em Belial.”


Com a convivência forçada o humano começa a se deixar seduzir pelo magnetismo do poderoso demônio. Ao mesmo tempo, o demônio sem notar deixa-se encantar pela pureza que insistia em permanecer no humano cujo dever era corromper. Nisso somos obrigados a encarar novamente aquela antiga batalha travada entre o bem e o mal, o pecado e a virtude, a pureza e o progresso, o desejo e o amor. Mais do que isso, vemo-nos em meio a ela, assistindo as forças opostas se chocarem repetidamente, cada vez de maneira mais dolorosa, sem saber exatamente por qual lado torcer e, sobretudo, sem conseguir decidir quais das lágrimas nós desejamos enxugar.

Por todos esses aspectos A Lenda de Fausto é um livro que promete marcar, chocar, polemizar e especialmente emocionar todos os leitores dispostos a abrir seus corações ao romance e às dores que certamente deixarão cicatrizes em cada uma das cativantes personagens apresentadas ao longo do romance.

“– Agora dorme, meu bem... Dorme, dorme, e sonha em ter uma vida sem a tentação... Sem delírios por sangue, ouro ou poder... Sonha com algo mais belo que a razão... – Belial sussurrava baixinho e cantado. – Pensa que eu serei a tua pele durante o inverno, para que o frio, em ti, não possa entrar. Apesar de minha escuridão, eu quero ser a luz em teu caminho, o sol na tua noite, água doce em teu mar... Os desejos são a escravidão da alma... Que nunca te beije a inveja... E que nunca te abracem e o ódio e o mal... Não te engrandeças com a riqueza, nem te preocupes com a pobreza. Que a nem a derrota, a dor ou a saudade te impeçam de ver que amanhã outro dia será... Dorme, dorme, e sonha em ser, do teu maior tesouro o guardião: o amor que a ti destinei, pois contigo ele sempre estará... Dorme, dorme... Que aqui contigo eu estarei... As nuvens serão teu colchão, e nem o vento ou a brisa deixarão de te acariciar, como se fossem minha mão, pois meu caro, tu és meu Deus...”

Fred



O Fred é o meu melhor amigo, daqueles que você sabe que nunca terá igual.

Antes de conhecê-lo, eu tinha muito medo dele, especialmente de noite. O barulho que ele fazia bem quando eu estava prestes a dormir era algo semelhante a um fungado muito assustador, e o fato dele se esconder sempre que eu usava uma lanterna para olhar debaixo da cama não era algo que normalmente poderia ser descrito como a ação de alguém confiável. Isso para não citar o fato que ele tinha dentes enormes e afiados, braços muito compridos, quatro olhos e ainda fedia a roupa suja.

Meu irmão mais velho dizia que ele gostava de comer crianças pequenas, do meu tamanho. Que tinha sido ele que tinha devorado o Antonio, lá da rua debaixo, e por isso os pais dele haviam se mudado... Eu não acreditava, o Pedro sempre foi um grande mentiroso, afinal... Mas sabe como é, né? Por via das dúvidas...

Passei bom tempo com medo, chegando ao extremo de quase morrer de sede, apenas para não ter que pisar no chão durante a noite, no escuro. Meus pais não acreditavam em mim, diziam que não tinha nada lá debaixo, que era só a minha imaginação, e por isso se recusavam a me deixar dormir com a luz do quarto acesa. Eu era um ‘menino grandinho’, e por isso deveria dormir no escuro, não importava o fato de eu ter sido obrigado a fazer xixi na cama três vezes, impossibilitado de ir ao banheiro.

A coisa só começou a mudar quando eu quebrei a perna. Foi de noite, e eu estava realmente com muita sede, certo de não conseguiria dormir sem ir à cozinha para tomar um copo com água. Determinado, olhei à minha volta e estudei cuidadosamente o meu quarto, tendo enfim a ideia genial! Sai da cama para cima do criado mudo, então pulei na estante de livros e brinquedos. Minha ideia era alcançar a escrivaninha e assim a cadeira, que por ser de rodinhas, poderia com um impulso me levar em segurança até a porta. Meu plano era perfeito, mas deu errado no momento em que a estante simplesmente virou em cima de mim.

A perna engessada justo durante as férias não poderia ser pior, ou poderia, já que eu teria que ficar um bom tempo de cama e o meu quarto ficava no segundo andar, longe do sofá e da televisão...

No segundo dia minhas histórias em quadrinho já tinham acabado e eu já estava morrendo de tédio. Meu irmão deveria estar jogando futebol na rua, meu pai trabalhando e minha mãe limpando a casa. Eu estava sozinho, inválido e abandonado. Ninguém estava disposto a me fazer companhia, excerto... Foi aí que eu finalmente me dispus a prestar um pouco mais de atenção no monstro... Como ainda era de dia, eu não estava com medo... Quer dizer, estava, mas bem pouquinho!

Fazendo um certo malabarismo, eu consegui olhar para debaixo da cama sem mexer muito a perna quebrada, e vi o Fred lá. Com a luz era mais fácil entender como ele era de fato. Aqueles dentes enormes eram feitos de grandes e afiados pedaços de giz de cera perdido, seus braços gigantescos que me faziam ter pesadelos com a possibilidade de algum dia subirem pela cama a me agarrarem, eram na verdade aquele moletom azul que a vovó havia me dado no natal e eu pensava que jamais veria novamente na vida. Seus quatro olhos eram feitos das rodas de um carrinho meu que eu havia desmontado há algum tempo. Seu corpo era todo feito de meias de diferentes cores e bonecos dos Cavaleiros do Zodíaco e dos Power Rangers. Não pude deixar de pensar no quão legal deveria ser ter um corpo como o dele.

Ele parecia estar dormindo agarrado àquele meu tênis que eu sabia que estava debaixo da cama, mas morria de medo de procurar. Ele parecia bem tranqüilo, algo me dizia que no fundo ele estava tão infeliz quanto eu. É tão triste ficar o dia todinho no quarto, sem ninguém para conversar ou brincar com você... Onde será que estava a mãe dele? E o que ele comia? Será que ele tinha um irmão chato igual ao Pedro? Passei o resto do dia pensando naquelas coisas, e assim que a noite veio, eu me apressei em puxar conversa com ele.

Ele era bem tímido, estranhou minha tentativa de aproximação à princípio, mas logo se abriu comigo (especialmente depois que eu lhe ofereci meu copo de leite e as cascas do sanduíche que a mamãe havia trazido para mim). Ele me contou que costumava comer poeira e pedaços de brinquedos quebrados que eu não queria mais, mas que não era nada gostoso. Ah, ele também costumava caçar os duendes que apareciam pelo meu quarto, e me garantiu que embora eu não pudesse vê-los, eram muitos! E isso explicava muita coisa, afinal, eram os duendes que escondiam minhas coisas e me colocavam doido procurando pelos meus óculos ou pela minha lição de casa. E ele também me garantiu que não comia crianças, pois crianças, apesar de pequenas, ainda eram grandes demais para ele mastigar. Ele preferia mil vezes comer biscoitos.

Foi assim que eu e o Fred viramos melhores amigos. Eu podia contar tudo que eu quisesse para ele, que ele sempre me ouvia e me dava bons conselhos. De vez em quando ele sumia sem dar avisos, geralmente quando a mamãe fazia alguma faxina no meu quarto... Mas depois de uns dias ele voltava, um pouco diferente, com braços menores, dentes maiores, seis olhos, uma infinidade de coisas... Mas ele sempre voltava, e sempre prometia que seria meu melhor amigo eternamente.

Hoje eu tenho dezesseis anos e eu e o Fred ainda somos melhores amigos. Ele mudou de lugar, não vive mais debaixo da minha cama, mas sim dentro do meu armário. Não tem mais dentes gigantes e coloridos, nem brinquedos formando seu corpo, e eu não preciso mais dar-lhe coisas gostosas para comer... Ele tá maior, meio velho, mais lerdo, sabe? Não é mais tão bom caçador de duendes, e por isso minhas coisas somem com mais freqüência do que antes... Mas ainda é tão bom amigo e conselheiro quanto antes, embora ultimamente eu o tenha procurado menos... Acho que faz parte dessa coisa se crescer... Pelo menos ainda nos divertimos quando eu o reviro e faço cócegas nele enquanto procuro por alguma roupa específica no armário. O fato é que eu não consigo imaginar minha vida sem o Fred.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Fada Madrinha

Luan era um menino.

Vestia-se como menino, falava como menino, andava com os meninos. Jogava bola e video-game e roubava fruta no quintal dos vizinhos, assim como os outros meninos. Olhava Playboy escondido e ficava falando gracinhas para as meninas. Também tinha o desleixo típico dos meninos, a mania de jogar a roupa suja debaixo da cama, de subir em árvores, e de voltar para casa todo sujo e cheio de hematomas.

Mas mesmo assim, havia algo errado com ele. Algo realmente errado, e que só ele conseguia ver. Seus amigos não notavam e embora seus pais tivessem idéia do que fosse negavam a si mesmos dizendo que era só uma fase, que logo ia passar. O psicólogo dissera que nada podia ser feito no momento, só esperar.

O problema tinha a ver com aqueles malditos contos de fadas, que entram na cabeça das crianças e as deixam cheias de sonhos impossíveis. A funesta fantasia que fazia com que meninas sonhassem com príncipes encantados vindo buscá-las em cavalos brancos, e que fazia com que os meninos se imaginassem em pesadas armaduras, brandindo espadas e matando dragões.

Isso foi antes da televisão estragar tudo e acabar com a magia, é claro. Mas mesmo assim, os contos de fadas conseguiram chegar até Luan.

Contos de fadas não são prejudiciais, desde que você não acredite neles. Mas Luan acreditava. Pior, acreditava logo na fada madrinha, que um dia viria do céu e realizaria seu mais precioso desejo.

“Fada madrinha? Mas isso é coisa de mulherzinha, mané!” – Foi o que seu melhor amigo disse quando Luan confessou-lhe seu mais oculto segredo.

O menino concordou, um pouco triste. “Fada madrinha? Bá, que merda, né? Coisa de viadinho! Nem sei de onde tirei isso” –Respondeu fazendo-se de forte.

Mas o fato era que mesmo sendo menino – quase homenzinho, na verdade – Luan não conseguia tirar da cabeça aquelas bobas ilusões infantis. Tinha algo realmente errado com ele, e que o deixava a cada dia mais angustiado e infeliz. Talvez ele não servisse para ser menino, talvez em sua alma, ele não passasse mesmo de uma ‘mulherzinha’. Talvez se apegar na esperança da existência de uma fada madrinha fosse só a prova que ele jamais conseguiria realizar o que tanto desejava.

Era com esses pensamentos que ele encarava a cada dia seu reflexo no espelho, e constatava, desolado, o crescimento dos seus seios, os quais ele tentava a todo custo ocultar. Abria o armário do banheiro e encarava, raivoso, o maldito pacote de absorventes íntimos, os quais ele sabia que algum dia teria que usar. E pelo jeito que sua mãe descrevera, e pelas dores que sentia no ventre, esse dia não demoraria muito.

E era nesse momento que ele abria a janela e procurava no céu pela primeira estrela que surgira na noite, e fazia esperançoso, o mesmo pedido de sempre:

“Fada madrinha... Me faz ser um menino de verdade...”

Pequenas Coisas - Lição 1

Lição 1

Por mais que tentasse, eu não conseguiria identificar um começo para essa história. Assim como sou incapaz de achar um motivo para ser como sou.

Podia muito bem dizer que tudo começou graças àquele infeliz natal, quando papai disse que iria ao mercado; depois de alguns minutos, pude escutar o grito de horror vindo do quarto. Era minha mãe, desolada ao notar que as coisas dele não estavam mais lá.

Não... Papai não tem nada haver com isso. Sua presença nunca me fez falta. Sinceramente, acho que foi melhor assim. Ele nunca foi um bom modelo paternal ou masculino mesmo. Sem ele, não haveria ninguém para bater na mamãe. É, posso dizer, sem peso no coração: Obrigado por ter nos abandonado, papai. Foi o melhor que você já fez por nós.

Bem, é claro que a mamãe não encarou isso da mesma maneira que eu, e uma semana depois ela teve que ser internada após tomar duas cartelas de um remédio lá... Foi um período bem conturbado para mim: Filho único, nenhum parente na cidade e uma mãe quase louca. É ruim para qualquer criança, e foi por pouco que ela não perdeu minha guarda.

Mas não pensem que eu culpo minha mãe. Não, jamais cometeria ato tão leviano. Minha mãe errou, mas porque estava desesperada. Contudo, ela sempre me amou e cuidou bem de mim. Ela se recuperou de toda sua dor apenas para fazê-lo. Batalhou muito para me criar sozinha, e nunca teve o apoio de ninguém. Admiro muito essa mulher.

Claro que eu ainda poderia culpá-la por nunca ter notado que havia algo errado comigo. Poderia culpá-la por insistir em me fazer estudar naquela escola particular. Mas eu jamais a culparia, uma vez que eu sempre tentei esconder minha realidade dela. Eu sempre me recusei a pedir ajuda.

Se existe um culpado, esse obviamente seria eu. Mas que culpa eu teria por apenas ser quem sou? Não é culpa minha se o mundo é injusto. Poderia jogar a culpa naqueles que me agrediram, que transformaram minha vida em um inferno, é claro! São eles os culpados! Queimem-nos!

Ah, como se queimá-los adiantasse de alguma forma, não apagará as cicatrizes, nem me fará esquecer as dores...

Bobagem. Tudo uma grande bobagem...

E é esse o primeiro ponto: De nada adianta achar culpados.

Uma coisa que a gente aprende quando se é vítima é o fato de que identificar culpados não ajuda em nada.

Sabe aquele famoso mote evolucionista a respeito de 'só os mais fortes sobrevivem'? Pois é, brutal imaginar algo assim em uma sociedade teoricamente civilizada, pós-moderna, em que se vive numa era na qual o bem mais importante de alguém é o conhecimento. Mas essa é verdade. Especialmente quando não se tem maturidade suficiente para fazer essa análise da nossa atual realidade.

Uma tristeza, mas parece que o bullying é o destino certo de todo aquele que nasce com cérebro avantajado e músculos aparentemente atrofiados. Uma injustiça, mas fazer o quê?

Talvez, diferentemente de achar culpados, achar motivos pudesse ajudar. Bem, eu não sou feio (mas também não sou convencido, que fique claro), mas tenho o perfeito estereótipo de um belo panaca: Branquelo (afinal, minha pele quase nunca era exposta ao sol), pequeno, magricelo e ainda uso os benditos óculos que costumam perseguir a maioria dos nerds, sabe-se Deus por quê.

Era bem chato ouvir a meninas comentando “Ele é tão bonitinho... Pena que seja um otário”, mas eu me acostumei rapidinho. Devo dizer que era bem mais agradável do que levar surra dos meninos...

Ah, também sempre tirei notas ótimas, me tornando o queridinho das professoras. O que nunca me ajudou em nada, afinal, elas nunca me viam apanhando mesmo...

Mas como eu dizia, achar culpados não resolve nada, não muda nada. Achar motivos também não.

E é esse o segundo ponto: Ainda bem, pois cada um desses acontecimentos, cada uma dessas dores, cada uma dessas pequenas coisas... Foi tudo isso que fez o que eu sou hoje.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Águia - Parte III



Leonel, sendo um Theurge, tinha um dom que poucos conseguiam acreditar, e que menos ainda conseguiam compreender. Aquela coisa de ver o que ninguém mais vê, aquela fama de doido por falar sozinho, até enquanto dormia... Pior que isso, só quando ele começava a cantar do nada, uns cânticos doidos em uma língua que era desconhecida a todos, senão a outros Theurges tão pirados quanto ele. Quando eles se reuniam, instalava-se um pandemônio que durava por dois amanheceres.

Os descrentes e tolos atribuíam tais poderes ao consumo extensivo e continuo de entorpecentes ilícitos. Leonel negava, afinal, só consumia aquilo que Gaia lhe ofertava e se Gaia lhe ofertava ervas e cogumelos, não haveria fazer mal. O fato era que, sendo louco ou não, o tal Theurge era um legítimo sábio, e por ser um ancião (em nome da Mãe, tinha quase oitenta anos já!) era muito respeitado entre todos os Garou, especialmente entre os membros de sua Tribo, afinal, aquele velho era a prova viva que aquele papo de pacifismo e ‘diga não à violência’ tinha um fundo de verdade.

Orgulhava-se de suas cicatrizes, como todos os outros Garou, mas se orgulhava ainda mais em pode dizer que elas estavam lá apenas porque foi realmente necessário, e que não matara seu inimigo, mas sim o segurara para então purificá-lo e arrancar do coração dele toda a maldade que o corrompia.

E gozando de tanta fama e respeito, não foi nada difícil para ele convencer aos seus irmãos se seita que aceitassem aquela infeliz Fianna que chegou aos Estados Unidos abalada e abatida, apenas com seus cinco meses de gestação aparentes no corpo desnutrido, roupas em farrapos, e o coração em pedaços.

Como fora parar lá? Nem sabia, e quando indagada, dizia que fora guiada pelo vento.

“Você atravessou o oceano guiada pelo vento?” –Perguntavam incrédulos, e então Leonel interferia, dizendo sempre as mesma sábias palavras:

“A Mãe tem seus caminha misteriosos, e não cabe a nós ficar indagando”.

Então, sem ter que explicar sua origem, e muito menos a origem da pequena vida que carregava, Voz-das-Fadas, que a partir de então era apenas Beatrice, viu que achara um bom lugar para ter seu filho, longe de Tempestade-de-Raios e longe de qualquer um que pudesse querer tirá-lo de si.

A seita constituía-se em uma pequena comunidade auto-sustentável e extrativista localizada em algum lugar por perto da cidade de Augusta. Eram trinta e seis ao todo, sendo quinze Garou e o restante parentes, quase todos da tribo dos Filhos de Gaia.

“Um bom lugar para um impuro...” -Pensava volta e meia Beatrice, com um sorriso bobo e melancólico, o qual nunca passava despercebido por Leonel.

Leonel era, segundo suas próprias palavras, um grande conhecedor do universo feminino. Ao longo de seus setenta e sete anos, fora casado por três vezes.

Sua primeira esposa foi uma mulher chamada Lunara, parente humana de um companheiro de matilha. Bela, charmosa e inteligente - e braba como poucas conseguiriam ser. Mas como o Theurge era chegado num desafio, encarou a fera e como recompensa ganhou uma linda filha Garou nascida sob a Lua Cheia... Ainda mais nervosinha que a mãe. Dezesseis anos se passaram, e a fúria de uma guerreira se aliou à complicação de uma adolescente. E como se não bastasse, ainda perdeu Lunara prematuramente por causa de uma doença. Cuidou sozinho da filha até resolver se casar novamente.

Uma loba cinzenta, e depois da morte desta, uma loba preta. As duas ‘esposas’ garantiram-lhe um total de dezessete mordidas, incontáveis arranhões e quarenta e um filhotes ao longo de cinco ninhadas. Destes, quatro se mostraram Garou... Todas fêmeas, brabas e complicadas.

Diante de tanta experiência, as conclusões eram lógicas e simples:

1-Lobas são complicadas;

2-Mulheres, mais ainda;

3-Garou fêmea então, nem se fala.

Mas a principal constatação fora que para todas elas valia mais o que se via nos olhos do que o que saia pelas bocas – ou focinhos.

E vendo os olhos de Beatrice, ele logo soube.

-Não te preocupa, minha irmã, pois eu te garanto que protegerei a todo custo a tua criança e não permitirei que a mácula da concepção deste Garou o marque mais do que Gaia o marcará. Teu nome foi esquecido, e da mesma maneira será a origem deste Garou que vai nascer. Então seja forte, minha irmã, e tire essa tristeza dos teus olhos. Conte comigo para o que precisares e te junta a nós no banquete que se segue.

Beatrice afundou-se em pranto ante as gentis palavras, derramando sobre a terra a lágrimas de puro alívio e confiança. Abraçou-se ao velho como quem abraça um pai e agradeceu até que lhe restasse apenas a voz suficiente para cantar a mais linda composição que a Nação Garou já teve a honra de escutar.

Uma canção que falava do amor e da sua pureza; da temperança que se colocava acima dos momentos de inquietação; da esperança que vencia o medo; da certeza de um paraíso que se formava a cada sorriso dado por uma alma pura de criança; da devoção merecida pela bondade e da sabedoria possuída pelos espíritos.

Cantou aquela canção durante todas as noites pouco iluminadas de Lua Crescente como clara homenagem ao velho Theurge que sempre lhe sorria e segurava sua mão.

Estava segura.

Ela e seu bebê.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Dança das Bonecas


Um pequeno e tolo conto que dedico de aniversário atrasado uma semana à minha querida Rafaela Brasil, a terrivelmente insana @Porrafiq do Twitter! XD

Na falta de uma img decente, coloco aqui uma foto das minhas bonecas vitorianas favoritas: Emilie Autumn e suas linda Bloody Crumpets

Dança das Bonecas


Era uma vez, em uma antiga e conhecida loja de brinquedos, duas lindas bonecas.

A primeira se chamava Laura, uma boneca muito doce e meiga. Tinha belos e brilhantes olhos de vidro azulado que sempre pareciam sempre admirar um horizonte desconhecido. Seus cabelos eram compridos e lisos, de um louro brilhante e pálido, semelhante aos frios raios de sol das manhãs de inverno. Esses cabelos estavam sempre adornados por ricas tiaras ou chapéus – e lhe caiam com leveza pela lateral do rosto delicado e bem moldado. Trajava gracioso e elegante vestido bege, repleto de rendas e laços, que lhe cobria até os pés pequenos. Nas mãos ternas envoltas por luvas brancas, ela segurava uma bolsa pequena. Tinha pele feita da mais fina e alva porcelana, com bochechas rosadas e maçãs levemente salientes. A boca pequena pintada de carmim nunca se abria, de modo que era claro que aquela boneca era uma verdadeira dama, educada, prendada, membro da alta-sociedade.

Por ser tão rara, delicada e frágil, o dono da loja, compreendendo o tesouro que tinha em suas mãos, mandou que um vidraceiro construísse uma fina redoma de cristal para Laura. Deste modo a boneca poderia ser exposta na vitrine e ainda assim permanecer protegida de qualquer mal que o mundo pudesse lhe oferecer, como a suja poeira e os nefastos insetos.

A outra boneca se chamava Amanda e, apesar se sua origem ser considerada vulgar, era tão bela quanto Laura. Tinha a pele feita de madeira escura e comum, mas brilhante e sedutora, de aparência quente e alegre. Seus cabelos eram fartos cachos negros que esvoaçavam soltos com alegria ante a ação dos frescos ventos da primavera. Suas roupas eram feitas de algodão e chita surrados, mas nelas imperavam as cores vibrantes como os vermelhos e amarelos, os quais só não chamavam mais atenção que os verdes intensos e misteriosos dos olhos pintados com cuidado sobre o rosto levemente anguloso.

O dono da loja de brinquedos havia comprado aquela boneca de um pitoresco bando de ciganos que passara por ali, provavelmente encantado pela peculiar beleza dela e pelo fato de ela já ter conhecido o mundo inteiro por suas andanças. Sem falar que os tais ciganos afirmavam com veemência que a tal boneca era dotada de magia e vivacidade.

Todavia, ele se arrependeu de sua aquisição tão logo notou que Amanda era um tipo diferente de boneca: era uma marionete com defeito. Ela tinha seu corpo todo articulado, assim com qualquer outra marionete, mas nem seus pés, nem suas mão e tampouco sua boca detinham os condões necessários ao seu controle. De que serviria uma marionete que não poderia ser manipulada, afinal?

Furioso ante tão grave defeito, o dono da loja viu-se sem opções senão deixá-la jogada em um canto onde ele jogava todos os seus brinquedos defeituosos, até que o tempo e as traças a consumissem, sem saber que na verdade a magia da qual os ciganos falavam era que Amanda só ia aonde tinha vontade, só dançava quando queria e só falava aquilo que realmente pensava. Prova disso era que, ao final de cada dia, quando ele saía e as luzes se apagavam, Amanda fazia jus à sua falta de cordões e se levantava do seu infeliz canto empoeirado. Colocava-se então a dançar por toda a loja, alegrando e dando vida a todos os brinquedos de lá com suas lindas formas e movimentos.

Com o passar do tempo pelúcias, bonecos e carrinhos de madeira passavam a esperar ansiosos pela noite, apenas para poder assistir Amanda dançando, e quem sabe ter a honra de ser convidado para bailar junto, como foram o Boneco Quebra-Nozes e o Ursinho Teddy. Todos lá amavam a marionete sem cordas, e Laura não poderia ter sentimento diferente.

A boneca vitoriana, tão linda e elegante, que antigamente passava as noites olhando para seu reflexo no vidro da vitrine, não conseguia deixar de então de voltar-se a fim de admirar aquela bela dança repleta de mistério que Amanda executava todas as noites com tanta desenvoltura e leveza. Por crepúsculos e mais alvoreceres, viu-se perdida nos movimentos da boneca defeituosa, na alegria que ela demonstrava e transmitia, na beleza de suas formas.

Laura desejou poder dançar como ela, dançar com ela... Sentir em suas frágeis mãozinhas a firme pele escura feita da madeira perfumada que era o carvalho negro, sentir em seu corpo os vaporosos movimentos da dança noturna. Mas por ser feita de porcelana, Laura era dura, não conseguia se mover com habilidade e destreza... Isso para não falar que seu vestido era tão suntuoso que seria um crime arrastá-lo pelo chão.

Amanda, todavia, com a mente tomada pela simplicidade daqueles que não compreendem o valor da seda chinesa e da fragilidade da porcelana italiana, desejou também dançar com aquela lindíssima boneca que mais parecia um anjo. Por isso que a cada noite sua dança se tornava mais vívida, e seus olhos pintados de verde não se desviavam do brilho dos olhos azuis feitos de vidro. Ao menos em seus corações as duas bonecas dançavam juntas, e era isso que importava para ambas.

Mas como em todos os contos de fada sempre há uma vilã muito malvada, nesse não será diferente. Durante uma das inertes tardes na loja de brinquedos veio uma menina se encantou com a boneca de porcelana e disse que não seria feliz enquanto não a tivesse para si. O pai da menina prometeu que a compraria sem falta no dia seguinte. A menina conformou-se e saiu sorrindo da loja, com a certeza de que logo teria sua queria boneca apenas para si.

Laura reagiu àquela notícia com grande susto, apesar de saber que aquele dia chegaria. Toda boneca espera sua vida inteira apenas pelo dia em que encontrará sua dona e será amada por ela pelo resto de sua existência – ou até a dona achar um brinquedo mais interessante, é claro. Afinal, bonecas são feitas para isso: para serem compradas por pais de meninas e então fazer suas donas felizes.

Mas...

Isso significaria que jamais veria Amanda dançar novamente?

Assim que Laura deu-se por si, já era noite. Suas mãos já se encontravam rente a sua redoma de vidro, enquanto seu peito se comprimia em dor e seus olhos ansiavam pela capacidade de chorar. Não queria, não queria mesmo ser comprada! Queria ficar lá, na loja para sempre, junto da sua amada marionete sem cordas!

Aquela foi a única noite em que a boneca de madeira não dançou, também muito aturdida pela certeza que aquela seria a última vez que veria Laura. Como, como poderia dançar quando seu coração – este feito de cedro, madeira mais suave do que poderia se imaginar – doía tanto ante a certeza da separação?

Mas como poderia Laura partir sem ver Amanda dançar ao menos uma ultima vez?! E como poderia partir sem ter ao menos tocado naquela a qual destinava todo seu amor, no alvo de todos seus olhares?! Não, não poderia! Não aceitaria aquilo! Tomou coragem, e dessa coragem veio a mais insensata de todas as decisões: sairia de sua redoma!

Com as mãos pequenas e frágeis finalmente lutou contra sua proteção! Empurrou a redoma de cristal! Não poderia ficar lá presa, ao menos não em sua última noite. Tinha que conhecer a liberdade, tinha que conhecer,tocar Amanda! Empurrou, tomou mais coragem e empurrou novamente, de lá, do alto da sua magnífica prateleira de destaque, a redoma caiu, e Laura caiu junto.

O mundo era, afinal, um lugar muito perigo, principalmente para uma dama tão sensível quanto a boneca vitoriana. Sua frágil porcelana italiana partiu-se ante a brutalidade da queda e do chão. Um de seus belos olhos de vidro se desprendeu e rolou pelo piso, perdendo-se por debaixo de um armário. Seus cabelos embaraçaram-se e seu vestido se rasgou graças aos tantos cacos da redoma de cristal estilhaçada.

Não era mais a belíssima boneca que costumava ser, mas ainda assim, Amanda acolheu-a em seus braços articulados, e as duas puderam enfim conhecer a pele uma da outra. As duas então dançaram, repletas de amor uma pela outra, a mais magnífica dança que poderia existir. Dançaram e dançaram, pela noite e pela madrugada, sem parar e sem cansar, até que o sol raiasse e o dono da loja descobrisse horrorizado que sua mais preciosa boneca havia se quebrado.

A garotinha que seria a nova dona de Laura obviamente não a quis mais, e o dono da loja não teve opções senão deixar a boneca de porcelana jogada no mesmo canto em que ficavam todos os brinquedos com defeito.

Junto de Amanda, onde poderiam então dançar eternamente.