domingo, 23 de janeiro de 2011

Relatos da Queda - Capítulo I - Orgulho


Esse é um dos três romances que escrevo protagonizados pelo demônio Belial. Os demais são OTrilo do Diabo, e A Lenda de Fausto -esse vai ler lançado como livro em Março agora, ainda sem data.

Digam o que acharam, por favor.


Relatos da Queda - Capítulo I - Orgulho


Aqueles que hoje vêem essa minha imagem, tão bela e obscura; Aqueles que com espanto e maravilha sentem a aura negra e amaldiçoada que circunda o meu espírito; Aqueles que se deixam seduzir por meus gestos e minhas palavras, tão elegantes e repletos de malícia; Enfim, aqueles que se deixam apaixonar por esse coração deturpado e negro, que consegue ser mais frio e cortante que o cinza morto dos meus olhos que ardem apenas em luxúria.

Nenhum desses é capaz de compreender o que eu já fui um dia.

Já fui puro e honrado, digno de ser considerado o ‘primogênito’ de Deus, isso, é claro, se Ele nos considerasse Seus filhos... Mas fato é que, provavelmente Ele se cansou do tédio, e em Sua onipotência, decidiu me criar.

O Primeiro de uma série, um ser que seria mais tarde denominado Serafim, a mais alta classe entre todos os anjos. A mim foi dado um nome, Beliel, que significava “A prosperidade do Senhor”, além de uma posição: Sempre próximo a Deus, adorando-O e entoando a Ele hinos com a bela voz que Ele me concedeu.

E desde a primeira vez que eu senti Sua imensa luz sobre mim, eu o adorei.

O adorei perdidamente, ao ponto de meus olhos não conseguirem se voltar a qualquer outro foco, senão o da Sua presença. Minha voz era inútil, senão para cantar em seu louvor, e meu ser existia apenas para contemplar a existência magnífica daquela luz.Meus pensamentos eram apenas Ele, e meu amor era todo Dele. E eu tinha ciência disso.

E com isso, eu era feliz.

Eu era tão cego, que nem notava o universo que Ele criava a nosso redor, pois para mim, tudo que existia era a luz Dele. Eu sabia que ele havia criado outros iguais a mim, mas isso não me incomodava ou sequer me importava, pois enquanto eu tivesse o privilégio de prestigiá-lo, eu seria completo e único.

E eis que um dia ele me chamou.

Sua voz era algo indescritível, tão severa e tão suave ao mesmo tempo, que fazia meu espírito tremer em medo e emoção. E com aquela voz, ele me disse que queria que eu visse uma coisa, Sua mais nova criação, feita à Sua imagem e semelhança.

E pela primeira vez, eu olhei para algo que não fosse a luz pura de Deus.

Adão era um ser belo. Mesmo não nunca tendo visto uma imagem concreta para servir de parâmetro, eu soube que ele era belo, afinal, ele era a imagem de Deus, não era? Deus seria assim, se Sua luz não me ofuscasse os olhos? Não sei, e jamais saberei. Sei apenas que me cativei por aquela imagem de um ser que se movia de maneira rude, mas ainda assim graciosa. Eu não conhecia cores, textura ou formas, portanto, não tinha como descrevê-lo de outra maneira senão ‘encantador’.

Mas algo em mim me dizia que eu não devia deixar que meu olhar se desviasse. Eu deveria olhar apenas para Deus, pois a Ele eu pertencia.

Mas Ele nunca mais havia olhado para mim ou para meus irmãos, e esse fato me preenchia de tristeza. Ele olhava apenas para o humano e para o mundo que Ele estava criando para Adão.

E em minha solidão e abandono, eu olhei para esse mundo.

Olhei e me surpreendi com todas as belezas com as quais me deparei. O Jardim do Éden era algo extraordinário, tão repleto de cores, cheiros e sensações! Parecia tão completo que me fazia desejar poder morar lá também. Mas eu não deveria, pois eu era um ser espiritual, e como tal, não deveria ir até ao mundo material. Eu deveria ficar no céu, esperando pela presença de Deus, para então agraciá-lo com minha voz.

Mas nada me impedia de observar, de aprender sobre aquele mundo e sobre as criaturas que o habitavam, especialmente, o Homem.

O Homem era um ser extremamente estranho, mas Deus tinha um grande apreço por ele, por isso eu sentia que também deveria ter. Mas algumas coisas relacionadas a ele me deixavam incomodado. Lembro-me que fiquei espantado quando ele teve a audácia de reclamar para Deus que se sentia só, quando tinha a companhia de todos os animais! Sozinho? Ele não sabia o que era solidão, afinal! Solitário era eu, que nunca havia utilizado minha voz para outra coisa senão para cantar! Era apenas eu, eu e a imensidão ao meu redor.

Havia outros anjos, eu sabia pelos distantes pontos de luz, mas eu não deveria me dirigir a eles...

Mas Adão ainda assim se considerava solitário, e então Deus, tal qual um pai que mima o filho, criou para ele a Mulher.

Seduzido.

Foi como me senti assim que via a bela figura de Lady Lilith – Não consigo utilizar outro tratamento para minha eterna rainha. Quem hoje vê nossa relação conturbada e repleta de ódio e ciúmes dificilmente acreditaria se eu dissesse que já adorei essa Mulher.

Lady Lilith conseguira ser mais bela ainda que Adão. O corpo de pele alva e curvas sinuosas era coberto apenas pelo majestoso manto dourado que eram os compridos fios encaracolados.

E ante àquela beleza, eu não consegui desviar meu olhar para nada mais, esquecendo-me até de Deus.

Minha racionalidade havia sido selada pela imagem daquela criatura, mas a loucura só me tomou de fato quando vi o verdadeiro motivo para a criação dela.

Eu os vi copular.

Eu não compreendia. Em toda a sabedoria com a qual Deus havia me dotado, eu ainda era incapaz de entender o motivo daquilo tudo. O corpo dela abaixo do dele; ela o recebendo dentro de si; ela gemendo, parecendo aproveitar aquilo tudo.

E o que mais me angustiava, além de não compreender aquela situação, era não compreender a dolorida euforia que eu sentia dentro de mim cada vez que assistia aquele ato se repetir.

E sem mais suportar minha ignorância, pela primeira vez eu me movi. Eu sai daquele lugar em meio ao nada, onde eu estive desde o início dos tempos.

Eu fui ao Jardim, mesmo sabendo que não devia. Pela primeira vez, senti o calor do sol acalentando-me, senti a brisa acariciar minha pele, senti a textura da terra sobre a qual eu pisava. E senti a luz refletida da figura dela adentrar diretamente nos meus olhos.

Ela se surpreendeu, levantando o rosto tristonho e molhado para me encarar.

-Quem és tu? –Ela me perguntou incerta.

-Sou Beliel. Sou um anjo de Deus.

-E o que é um anjo?

Aquela pergunta me calara. Eu não sabia o que eu era, afinal.

Eu sabia que era um Serafim. Sabia que havia sido o primeiro anjo criado por Deus. Sabia que minha voz era esplendorosa e que eu deveria cantar hinos de exaltação ao criador. Eu fui dotado de grande sabedoria, mas eu não sabia quem eu era.

-O que é um anjo? –Eu repeti a pergunta dela, para mim mesmo.

-Tu não sabes?

-Não... –Confessei. Naquela época, eu não detinha qualquer traço do orgulho que hoje marca a minha existência. –O que tu achas que sou?

-Não sei, mas tu és muito bonito. E tu tens asas, assim como as aves! –Ela me respondeu sorrido. Que lindo era o sorriso dela! Tão sincero e cativante!

-Eu sou bonito?

-Sim! E muito! Vais dizer que nunca notaste?

Na verdade, até então eu nem sabia que eu tinha uma imagem. Eu pensava que eu não passasse de luz, assim como Deus – Que pretensão a minha, diga-se de passagem.

-Vem comigo! –Ela me puxou pelo braço! Eu tinha um braço! Eu era tangível! Ela podia me tocar! Eu fiquei tão feliz com aquilo! –Vem ver como tu és.

Ela me levou até um lago, onde fui apresentado ao meu reflexo.

Eu tinha um rosto. Um rosto bonito, perfeito e simétrico, aparentemente delicado, não semelhante ao dela, mas também não semelhante ao do Homem.

Um rosto único.

Meus cabelos eram mais escuros que as noites sem lua, e eu então vi as pontas dele no chão, enquanto em me agachava para melhor observar meu reflexo na água. Toquei meus fios, sentindo como eles eram sedosos.

Toquei meu rosto, toquei meu corpo, toquei minhas asas. Que belas asas eu tinha! Eram seis! Tão grandes e brancas! Mais brancas que as nuvens do céu!

E meus olhos! Meus olhos tão profundos e brilhantes, da exata cor que se encontrava entre minhas asas e meus cabelos!

Eu era lindo! E pela primeira vez, perdido no êxtase de minha descoberta, eu experimentei daquele que viria a ser o meu primeiro pecado.

12 comentários:

  1. Hahaha, com muito custo estou tentando mantê-lo, mas ânimo é coisa rara, né? XD
    Obrigada por aparecer por aqui =D

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  2. Gostei muito da história, é sempre interessante contar uma história já tão conhecida, mas sobre um ponto de vista novo, a proposta é fascinante, aguardo ansioso pelo 2 capitulo.

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  3. OpA! que bom que gostou! e deixa eu te dizer que a maneira como vou abordar o tema é realmente BEM diferente do que costuma se ver... Espere e verá... hihihih *adora chocar*
    Obrigada por ter aparecido por aqui! e parte dois eu devo postar amanhã!
    =D

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  4. e ai samila talvez nao lembre de mim pascote
    o pensamento ta muito bom.
    e chocante por ser original (talvez so pra mim:)

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  5. Pascote! bom vê-lo por aqui! Que bom que gostou tb =D

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  6. Nossa. Acho que realmente vale a pena ler os seus livros, heim?
    Gostei da narrativa e desenvolvimento. Sem contar que vc escreve muito bem =D
    Adoreeeeei a Lilith, hehehehe. Aliás, eu amo essa mulé XD
    Excelente trabalho!

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  7. Obrigada, Lady! Que bom que gostou =D E eu sou grande fã da Lilith também! Ela é o ideal feminino de liberdade e igualdade!

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  8. Eu sou um chato como crítico, mas deixa eu te contar, isso tá muito interessante. Eu leria com certeza. Você tem talento!

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  9. Muito obrigada, Codi! Seria bom tê-lo mais vezes por aqui

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  10. Estou sem fôlego... Comecei ler seu blogue do início, sem pular uma única linha. Gostei muito do "Ensaio sobre a mente dele", mas Relatos da Queda - Capítulo 1 - Orgulho, me transportou para uma época de incertesas, mas muito inspiradoura de minha existência.
    Você acabou de ganhar mais uma fã, alguém que deveria estar no trabalho, mas está aqui, se embriagando com suas palavras. Obrigada por me resgatar.

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  11. Obs: O relógio do meu computador está louco. Na verdade são 09:45...

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