sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Ensaio sobre a mente dele


Boa noite! Bem, venho aqui com um conto que eu acredito ser um dos melhores que já escrevi...

Espero que gostem....



Ensaio sobre a mente dele
-Você é uma pessoa normal? –Ele perguntou. Sua voz era suave e contida, tal qual eram seus gestos e expressões. Tudo que ele fizesse parecia ser milimetricamente calculado.
Não houve resposta, mas mesmo assim ele continuou calmamente sua fala.
-Se você for uma pessoa normal, provavelmente não irá me compreender. Se bem que... –Ele fez uma pausa e sorriu. –Você não deve ser uma pessoa normal.
-Em toda a minha existência, jamais encontrei alguma pessoa que se encaixasse com perfeição nos parâmetros de normalidade impostos pela sociedade. Pelo menos, não quando não expostos a ela. É quase que uma regra, meu caro. Na frente das pessoas, nós nos portamos quase sempre como bons exemplos, como boas pessoas... Mas quando estamos longe... Ah... Quando estamos sozinhos, nós mostramos que de fato somos. E por isso que eu ouso afirmar, meu caro: Todo mundo tem alguma anormalidadezinha, algum pequeno desvio de caráter, algum probleminha psiquiátrico... Algum demônio interno ou algum esqueleto enterrado no jardim.
Por um breve instante ele olhou pela janela, contemplando o horizonte. Mas logo voltou sua atenção ao outro.
-São fantasmas, meu caro... Fantasmas que recusam-se a ficar exilados no passado. Eles precisam se fazer sempre presentes, sempre vivos. E por isso que eles reencarnam a cada dia. E a cada dia eles assombram, assustam, deprimem.
Fez uma pausa e com tranqüilidade tomou um gole da bebida em seu copo. Uma pequena careta se formou em seu rosto, por ação do gosto forte e amargo do whisky importado e envelhecido em barris de carvalho.
-Esses fantasmas, meu caro, assumem as mais diversas formas e cores. Mas isso é algo que provavelmente apenas um sinestesista com uma maneira muito curiosa de ver o mundo seria capaz de identificar. Mas como eu já estou enrolando demais, não vamos nos ater a isso. Podemos nos referir a esses fantasmas como sentimentos e sensações comuns a todos os seres humanos, que tal?
Não esperou pela resposta. Sabia que ela não viria.
-Dor, inveja, fracasso, loucura, desespero, confusão... Arrependimento. –Fez questão de frisar bem a última palavra. –Algum desses lhe é familiar, meu caro? Não! Não responda! Eu sei que sim... Mas não se culpe, meu caro. A culpa serve apenas de alimentos para os fantasmas, deixando-os mais fortes, você não sabia? Por isso, esqueça a culpa e conforte-se com o fato de que esses fantasmas perseguem a todos os seres pensantes. –Tentou consolar o outro, sorrindo de maneira gentil. –Mas voltando ao que eu dizia anteriormente, você não é normal. Mas apenas isso não vai garantir que você me compreenda, pois diferentes fantasmas geram diferentes formas de ver o mundo... E talvez seja isso o que faz a vida tão fantástica.
Ele gesticulava com calma, realmente querendo se fazer compreender.
-O meu fantasma é colorido e multiforme. Embora lhe predominem os tons gris, muitas vezes ele toma para si cores vibrantes, que brilham e piscam sem parar, como luzes de néon hipnotizando a todos que as admiram. E ele quase sempre dança. Sua dança, diferentemente das mudanças nas nuances de suas cores, não segue um ritmo acelerado – se o fizesse eu possivelmente já teria enlouquecido, seria demais para mim. Sua dança é geralmente calma e graciosa. Algo que, de tão apaixonante, por vezes faz com que eu me esqueça que se trata de um fantasma –uma maldição- e me pegue pensando se não seria na verdade uma bela ninfa tentando me seduzir.
Ele passou os dedos pelos lábios, como se desfrutasse de um cálido beijo.
-Nesses momentos eu me sinto vivo, como em nenhum outro. Eufórico e entorpecido por sua dança tão sensual e cativante. –Soltou um leve suspiro satisfeito. –Eu me sinto incrivelmente bem quando isso acontece. Minha mente, embalada pelos elegantes passos dessa dança, desloca-se com invejável desenvoltura através do tempo e do espaço. As circunstâncias deixam se ser relevantes, e eu me transformo em um incansável viajante dos planos, alguém que transcende toda a matéria física. Eu me sinto iluminado...
Ele olha ao redor, com uma expressão apaixonada, quase que iludida. Mais uma vez suspirou.
-Nesses momentos, junto da minha mente, eu viajo. E comigo, minha mão viaja também... E são nesses momentos que ela cria, eu me aproximando então do meu sonho. –Ele sorriu. –Não sabias, meu caro? Pois é, eu, assim como você, tenho um sonho. E eu lhe garanto que sonhos são mais do que meras ilusões auto-impostas, meu caro! Muito mais! –Ele se exaltou por um instante, mas logo recompôs sua costumeira calma. –Sonhos... Sonhos são o combustível da vida, a motivação que leva a humanidade a prosseguir. E você sabe que isso é verdade porque você também tem um sonho. Se não fosse por esse sonho, você provavelmente teria enfiado com toda força a faca no pulso esquerdo, durante aquela desesperadora noite de Dezembro, não teria?
Ele sorriu. O sadismo era presente na sua fala. Ele parecia se divertir com o espanto do outro.
-Oh, como eu sei? –Riu um pouco, cínico. –Não se espante, meu caro. Eu sei muito sobre você... Muito mais do que você gostaria que qualquer pessoa no mundo soubesse. –Seu tom se fazia ameaçador, perigoso. –Talvez você não tenha notado, mas eu tenho lhe acompanhado há muito tempo... E de perto. Por isso, eu sei tudo sobre você. Tudo que você procura esconder tudo que você precisa esconder. Eu sei de cada podre seu... –Sussurrou a última frase risonho, mas logo votou ao bondoso tom inicial.
-Mas não se preocupe, meu caro. Como eu disse anteriormente, todo mundo tem seus fantasmas, e é natural que procurem escondê-los. Mais importante que isso, eu afirmo, é manter o seu sonho vivo em seu coração. Somente através do seu sonho você será capaz de enfrentar e superar seus fantasmas. Se você não se matou naquela noite, foi por causa do seu sonho, eu sei... E assim mesmo que tem que ser, eu lhe garanto.
Olhou com um pouco mais de atenção para o outro. O desconforto dele era visível.
-Oh, mas me desculpe por tão constantemente tomá-lo como exemplo. Eu não o faço com objetivo de lhe ofender ou lhe intimidar, é bom que saiba. Eu o faço unicamente porque acredito que dessa maneira a compreensão se fará mais fácil da sua parte. E acredite, eu realmente preciso que você me compreenda. –Sorriu amável em seguida.
-Não tem porque se envergonhar, eu garanto. Eu já passei por algo bem semelhante... –Olhou para cima um tanto nostálgico, parecendo lembrar-se de algo doloroso. –Sabe, meu fantasma nem sempre se veste de musa e posa para me inspirar com suas danças e cores... Não... Às vezes ele se transforma em um cruel monstro cinzento, pérfido e assustador. E quando isso acontece... –Ele engoliu em seco. Seus olhos permaneciam distantes.
-Quando isso acontece, minha mente, que outrora viajava contente pelo mundo das idéias, que criava incansavelmente... Essa mesma mente torna-se seca, e perde-se então em vastos campos repletos de nada. O marasmo e a inércia imóvel tomam conta dela, enquanto sua sombria falta de cores me afoga lentamente em um profundo mar de depressão. –Ele passou a mão pelo rosto, visivelmente transtornado. Estava pálido, e isso deixava suas escuras olheiras ainda mais visíveis.
-É triste, meu caro... Muito triste... Triste ao ponto de me fazer querer morrer. Eu afirmo sem exageros que quando isso acontece, sinto-me exatamente como um espírito cujo frágil cordão de prata se rompe, e se vê então desesperado separando-se de seu corpo. O desânimo me abate, e toma conta de mim aquela maldita vontade de deitar e dormir... E dormir indefinidamente, para nunca mais acordar. –Fechou os olhos por um instante. Eles pareciam úmidos.
-Isso, esses momentos, eles me abalam mais do que você pode imaginar. Como alguém, alguém como eu, que ousa afirmar e defender com tanta veemência que os sonhos precisam ser valorizados... Como eu me permito despencar tão rapidamente, a ficar horas e horas pensando apenas no desejo pela morte? Como eu posso fazer isso, se tenho um sonho tão lindo, tão forte e tão importante a realizar? Como posso fazer isso se sei que meu tempo é tão curto?! –Ele elevou o tom de voz, e acabou por dar um forte e furioso murro na parede.
O sangue correndo por seus dedos magros e alvos pareceu acalmar-lhe.
-É nesses momentos, meu caro... Nesses momentos de desespero... Exatamente nesses momentos que nós nos parecemos mais... É nos momentos mais tristes que nós nos aproximamos... –Ele comentou melancolicamente, instintivamente passou a mão direita por cima do pulso esquerdo, pondo-se a acariciar a cicatriz que havia lá.
-Nós somos mais parecidos do que você imagina, meu caro... Nossos fantasmas nos fazem semelhantes, e nossos sonhos também...
Mais uma vez ele sorriu.
-Você já notou isso, não notou? Porque você, assim como eu, é um daqueles que volta e meia tentam fugir de seus fantasmas, se esconder deles, fingir que eles não existem... –Fez uma longa pausa, analisando atentamente o outro, para então começar a andar na direção dele.
-Você é como eu... –Falou baixinho, em um sussurro, como se contasse um segredo. –Você é uma daquelas pessoas que gostam de falar na terceira pessoa, a fim de que, pelo menos por meros instantes, possam se esquecer de quem são.
Ele se aproximou ainda mais do espelho, fitando profundamente os próprios olhos.
-Você e eu somos iguais, meu caro.

4 comentários:

  1. Lindo! Tão profundo e criativo!
    Gostaria de conseguir escrever como você >.<
    Parabéns pelo talento!

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  2. @Nana Nhai, muito obrigada, my dear.

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