domingo, 16 de janeiro de 2011

Elas

Estão mortas.

Todas elas.

Não se sabe ao certo como aconteceu, como começou, como de fato se deu. Algumas simplesmente sumiram, outras se afogaram em um mar de esquecimento. Podem ser nomeadas algumas que foram brutalmente assassinadas, mas a maioria provavelmente padeceu ante uma terrível e misteriosa doença. As mais sortudas morreram de maneira rápida, como se uma lâmina cortasse facilmente todo o desespero.

As últimas se suicidaram.

Difícil dizer qual delas foi a culpada, qual foi a mais fraca, qual faz mais falta.

Mais difícil ainda é dizer qual delas sofreu mais antes de encontrar seu fim.

A Beleza foi a primeira vítima notável, morrendo aos poucos, indefesa ante aos poderes da Temporalidade. Levou consigo a Auto-Estima, ambas doentes, coitadas, tão fracas e tristes. A Esperteza, apesar de todo seu tino, também não resistiu, e envolvendo-se com a venenosa Melancolia, perdeu todo seu brilho. A Criatividade foi sepultada ainda viva, e lá, debaixo da terra, sufocou-se na Nostalgia até desfalecer.

A Humildade, que a princípio se fortaleceu para lutar contra a Desgraça, sumiu pouco depois, provavelmente engolida pela Auto-Piedade. A Fé brigou, lutou, resistiu. Mas no final foi morta rapidamente sem poder sequer se despedir de sua grande amiga Misericórdia. A Desesperança havia se mostrado uma inimiga fatal para ambas.

A Mão não tardou a perder a Força, nem conseguiu mais nem achar a Intimidade que a ligava à Caneta. As Idéias, tão engenhosas irmãs, não tardaram a notar o caos que se formava, e por isso trataram de fugir. Talvez um dia tudo melhorasse, voltasse a ser como era antes, e então pudessem novamente brincar com a prima Alegria. Desesperadas e aflitas, todavia, não conseguiram seu intento: quando deram por si, haviam sido capturadas e assassinadas pela Revolta.

A Face então banhou-se em sangue. A Boca chamou a Palidez para junto de si. As Pernas foram invadidas pela Lembrança da Fraqueza. A Cabeça girou. A Paralisia tomou conta de todas as demais, e a Água adentrou as Narinas.

A Amargura, a única que havia conseguido se manter até então, foi enfim embora.

Ela tinha que acompanhar a Morte.

3 comentários:

  1. Você, claramente, tem o dom de escrever pro coração. Acredito que cada leitor possa entender seu texto de um jeito, pois ele alcança a muitos. No entanto, eu consegui vê-lo atraves do inevitavel envelhecimento. Não sei, mas este mês faço 27 anos, etc. De repente, dei-me conta que estou ficando velha. Não tenho mais o mesmo vigor, etc... e é exatamente assim que eu vejo... primeiro se vai a beleza, diante do tempo... etc..

    Mto bom
    Estou realmente ansiosa para ter seus originais nas mãos (gosto d ler no papel)... e poder desfrutar das delicias de uma excelente escritora.

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  2. Muito obrigada, querida! e sim, é isso mesmo que você falou, é a idade que nos afeta... (embora você seja muito nova, mocinha! XD)
    que bom que gostate! e eu também estou ansiosa para comprar Rendição! adoro ter um livro nas mãos!

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  3. Agora que eu fui ver seu perfil novo no Nyah XD
    Por isso só agora eu vi seu blog!!! E tem um bocado de coisa heim ^-^
    Vou ler tudinho com cuidado depois, viu. Ah, eu não tenho blog no blogspot, mas posso te seguir com a conta do google.
    Posso colocar o link do seu blog no meu? É que eu coloco blogs de amigos e relacionados lá, o seu é os dois então acho que devia estar duas vezes não? Tah, agora eu fui nonsense pra dedeu!
    Voltei do trabalho agora, tô sem cerebro, vou parar por aqui antes que fale mais besteira

    kissus ^-^

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