quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Carlo - Parte 2



Foi uma verdadeira epopéia.

Passou por um total de vinte e três cidades, o que foi um grande feito dada a única certeza que tinha: não conseguiria nem sair de Santa Fé só com os setenta e dois dólares que conseguira vendendo um papelote de pó roubado do padrasto.

Como era um garoto sagaz e precavido que não podia se dar ao luxo de gastar aquele dinheiro com coisas supérfluas, teve que esperar por quase duas horas na estação rodoviária pelo momento adequado: quando os guardas e cobradores fizessem a bondade de ficar desatentos ao mesmo tempo. Entrou feliz no confortável ônibus interestadual e se sentou bem no fundo. Iria para Saint Louis, e de lá daria um jeito de ir parar em Nova Iorque, arranjar um emprego, talvez... Longe da fronteira, finalmente se livrar daquele maldito lugar.

A falta de vivência, todavia, mostrou-se uma cruel inimiga que não permitiu que Carlo soubesse que era comum um fiscal checar todos os passageiros e seus respectivos bilhetes durante o percurso. Sem passagem e explicações, o jovem adiantou-se em oferecer o dinheiro que tinha, o qual foi aceito de bom grado pelo simpático funcionário do Sistema de Transportes Americano.

Assim que as notas verdinhas estavam a salvo no bolso do honesto trabalhador e distante dos olhares dos demais passageiros, Carlo viu-se sendo chamado de vagabundo e literalmente jogado do ônibus no primeiro posto de gasolina avistado. Uma grande injustiça, o jovem pensou. Só não reclamou por que o soco que levara no diafragma funcionou muito bem para mantê-lo calado.

Distante uns trinta quilômetros de Amarillo, a cidade mais próxima, Carlo viu-se sem muitas opções e agora sem nenhum dinheiro. Desesperado logo teve a genial idéia de apelar para bondade humana. Avistou um velinho simpático que abastecia seu caminhão e puxou papo. Perguntou para onde ele ia, “Oklahoma”, “Tem como dar carona?”’. A resposta foi um gentil sorriso com a ausência de dois dentes e um “Sobe aí, garoto”.

O jovem hispânico ficou mais do que satisfeito com a certeza de uma viagem tranquila, mas mudou de ideia assim que sentiu a mão enrugada do velho soltar o câmbio e passar por sua coxa enquanto ele falava sobre como é triste e solitária a vida de um caminhoneiro.

O jovem travou de nervosismo, mas logo se obrigou a sorrir. Fez uma cara marota e disse que precisava ir a um banheiro. O velho sorriu também, de maneira bem sem-vergonha, e parou então num daqueles típicos restaurantes caídos que só se encontram na beira das estradas.

O caminhoneiro pediu um café enquanto Carlo ia ao toalete. Lavou o rosto e tentou pensar em alguma coisa. Tomou coragem, encarou o homem que acabava de sair do mictório e sorriu para ele. Barbudo, munhequeira com spikes, cara de mau e jaqueta de couro. Não podia dar errado, estava mais do que acostumado a identificar clientes potenciais.

-Cara, tá sozinho? –Perguntou, recebeu um olhar desconfiado e continuou. –Preciso muito de uma carona, velho.

-Por que você acha que eu te daria uma carona, mané? Na garupa da minha moto só anda loira gostosa, ô imbecil.

Engoliu em seco, um terrível medo de falar algo errado, algo que pudesse entregá-lo como sendo um gay e resultasse em seu espancamento e assassinato bem ali mesmo, naquele banheiro.

Sorriu malandro.

-Eu tenho erva da boa aqui comigo. -Tirou o saquinho do bolso e o deu na mão do motoqueiro. –E eu tenho um cara em Kansas que vai me arranjar pó purinho, muito pó, saca? Se você quiser uma parte, só precisa me levar até lá.

O homem observou com cuidado o conteúdo da embalagem, cheirou e a guardou na parte de dentro da jaqueta.

-Moleque, se você estiver de onda comigo, você tá morto, viu?

-Não te preocupa, cara. Eu tenho muitos contatos lá, não tem erro não.

Passou direto pelo bom velinho que sorria bobamente, colocou o capacete e subiu na garupa, contente com o sentimento de infinita liberdade transmitido pelo ronco do motor da Harley Davidson e pelo vento batendo em seus braços.

Uma pena que o tal sentimento durou tão pouco, pois passadas apenas trezentos e setenta quilômetros um forte bloqueio policial os impediu de seguir viagem. Pelo jeito a guarda estadual do Oklahoma estava há meses investigando uma gangue de motoqueiros que fazia o transporte de drogas ilícitas para o estado. A moto grande e envenenada obviamente chamou a atenção dos policiais, e o aparecimento de dois pacotes de maconha e quatro pacotes de cocaína parecia comprovar que o serviço de inteligência não falhara naquela interceptação.

Com isso o barbudo foi preso enquanto jurava morte ao jovem hispânico, e Carlo, por ser menor de idade, foi conduzido a um seguro abrigo juvenil onde os gentis conselheiros a base de socos e pontapés tentavam lhe arrancar os dados de seus pais para poderem entrar em contato a respeito do filho delinquente.

O carinhoso padrasto não tardou a atravessar o deserto para pessoalmente resgatar seu precioso filho.

Carlo sentiu muita vontade de pedir para ficar lá no abrigo, mas não teve coragem. Nunca, em toda sua vida sentiu tanto medo quando sentia agora ao lado de Vlademir, o qual dirigia nervosamente de volta para Santa Fe enquanto gritava revoltado.

- Moleque maldito! Como si no bastara haber robado mi droga, aún a entregó a los policías, idiota! Y yo tuve que pagar trescientos dólares para soltarte! Trescientos dólares, hijo de una puta! Pero tú me pagadas, Carlo! Ah, si me pagadas! Vas a aprender a respetarme, a dar valor para lo que yo te doy, su desgraciado!

O jovem que apenas se mantinha calado e encolhido começou a tremer quando notou que o padrasto havia tomado um desvio da estrada e agora seguia na direção de uma grande placa de neon onde se lia ‘motel’ em letras vermelhas.

- Pero tú vas a dejarme muy feliz hoy, moleque! Tiene que hacer valer el tiempo que perdí para venir a cogerte y el dinero que pagué, oiste? Estás en débito conmigo, Carlo... Y yo no quiero oír un grito que sea. La perra de tu madre es ancha demás, prefiero mil veces tomar a ti, su puto.

O pânico o tomava a cada rotação dos pneus para então tê-lo por completo com o total cessar do movimento do carro. O padrasto saiu a passos duros em direção à recepção.

- Estás esperando lo que, hijo de una puta? Viene inmediatamente!

A mão sem forças abriu a porta do carro, as pernas bambas saíram lentamente. O coração palpitava enquanto a mente trabalhava a mil para encontrar uma saída, uma maneira de não precisar mais se entregar às mãos imundas e violentas daquele homem.

A mão sem forças abriu a porta do carro, as pernas bambas entraram rapidamente. O coração palpitava enquanto o pé calçado de All Star surrado pisou fundo no pedal da embreagem. A chave foi girada e o motor ouvido. A ré dada e o carro fez um rugido. A fuga executada a grande velocidade, a sensação de liberdade ainda mais intensa do que antes graças ao vento que puxava seus cabelos para trás. 120 Km/h e a certeza de que poderia chegar a Saint Louis até o final do dia seguinte; algo maravilhoso que definitivamente não combinava com a ausência de qualquer nota no seu bolso, um estômago que roncava de fome e um tanque de carro esportivo com apenas um quarto de combustível.

“Merda! Merda! Merda!” Era o que ele pensava a cada sinal que o Lamborghini antigo dava de que estava prestes a parar. “Mais um pouco, mais um pouco...” Ele pedia, implorava para a Virgem de Guadalupe, aparentemente ignorando o fato de sempre ter se manifestado ateu. E como provavelmente a santa queria se vingar pelo fato de Carlo ter feito xixi no altar certa vez quando ainda era pequeno, o milagre não foi concedido e o motor morreu.

De noite, sozinho, meio do deserto, frio e fome. “Ótimo”, pensou enquanto vasculhava o interior do porta-luvas e só achava documentos falsificados. “Espanhol de merda...”. Suspirou e tomou coragem. Desceu do carro agarrando-se a sua jaqueta. Observou o horizonte escuro e longínquo.

Deu o primeiro de muitos outros passos.

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