segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Carlo - Parte 1

Que tal um pouco de sarcasmo e cinismo para alegrar o dia? Apresento-lhes Carlo, um de meus mais queridos personagens:


Carlo

A chuva era torrencial, e por isso poucos conseguiam ainda se espantar que quase todas as ruas e avenidas estivessem alagadas, especialmente as do centro comercial. Aquela era a parte mais antiga da cidade, afinal. Fôra lá que tudo começara, errado e sem planejamento.

Vias estreitas, nas quais o sistema de escoamento de água fora um detalhe quase esquecido, mas totalmente ignorado. Ineficaz, segundo a prefeitura. Inexistente, segundo a realidade. Afinal, tubos ficam debaixo da terra, não? Quem consegue ver tubos que se encontram enterrados? Se ninguém vê, está na cara que é um investimento inútil. Melhor mesmo usar o dinheiro desses tais desses canos para bancar a obra super-faturada de uma praça com chafariz, banquinhos de mármore e iluminação multicolorida.

Isso sim que é investimento.

Afinal, a praça estava muito bem localizada, em um terreno bonito e alto, no qual não importava o quanto chovesse, jamais seria invadida pelo lixo e pelos cadáveres de ratos que boiavam em seguida, arrastados pela verdadeira correnteza que se formava quando finalmente se encontravam alagados os becos mais imundos.

As pessoas que moravam nos altos de seus prédios de classe média-alta, é claro, se revoltavam ante tão vergonhosa e nojenta situação. Imagine você, em uma bela manhã de sol, abrindo sua janela e aspirando aquele delicioso aroma de esgoto, enquanto vislumbra sua garagem repleta de lama e lixo.

Logo se ouviam reclamações, e logo vinha a imprensa, e logo vinha o prefeito com suas condolências e com suas promessas.

E logo vinha o verão. Isso é um problema de Fevereiro, todo mundo sabe. Contra a natureza, ninguém pode! Mais importante, viram a nova praça que está sendo construída? Mais bonita ainda que a antiga! Com pista de skate e patinação! Ah, é claro, um chafariz maior que o outro! E todos sorriem e levam as crianças, felizes, sem qualquer lembrança dos ratos.

Todos, excerto Carlo, afinal, mesmo quando não alaga em Atlanta, ainda chove. Aquela maldita e constante garoa que já lhe rendera duas pneumonias. E os ratos ainda lhe assustavam quando passavam correndo por perto dos seus pés, e o cheiro de lixo e esgoto parecia já impregnado em suas narinas.

Isso porque ele não era um daqueles honrados cidadãos que moravam em apartamentos estrategicamente localizados no alto dos grandes prédios. Ele também não freqüentava as praças bonitas, pois quando ia lá, mães e policiais ficavam olhando feio para ele. Ele tinha que ficar mesmo era nas ruas baixas e movimentadas, muitas vezes com as botas imersas na lama, com um sobretudo velho protegendo-o dos pingos d’agua. A noite inteira, até que tivesse a sorte de encontrar alguém disposto a pagar por seu corpo. De preferência que tivesse a vontade de levá-lo a um hotel, onde ele poderia tomar um banho quente e descansar sobre lençóis limpos após realizar seu batente.

Mas geralmente o comiam dentro do carro, mesmo.

Mais importante que o hotel, só mesmo a bondade de dar-lhe uns trocados a mais, para que ele pudesse comprar pelo menos um Big Mac, a fim de combater a magreza excessiva que já estava prestes a prejudicar seu instrumento de trabalho.

Era assim que ele vivia, noite após noite, juntado grana para pagar pratos de comida e estadias em pensões vagabundas. O importante no momento era apenas sobreviver. Comer, dormir, tomar banho, e evitar que algum vagabundo roubasse sua mochila. Também fugir da polícia, às vezes.

Também aguentar a chuva, o frio e a solidão.

Naqueles momentos em que se encontrava sozinho, abraçando seu próprio corpo em busca de calor, sob o abrigo de uma parada de ônibus, um arrepio desagradável percorria sua espinha, e então ele pensava em morrer. Talvez tivesse sorte e um dos tantos relâmpagos que cortavam o céu naquele instante lhe acertasse.

Mas como era um legítimo pisciano, logo esquecia tais pensamentos e começava a sonhar acordado. Em sua mente se fazia sempre presente a utopia de uma casa com sistema de aquecimento, sofá confortável, pote de pipocas, televisão de plasma e um belo e carinhoso homem ao seu lado, que o envolvia e dizia que o amava.

-‘Bora logo, seu puto, não quer cinqüenta pratas?

Ele então acordava de seus devaneios, e mesmo sentindo tanta dor em seu peito, obrigava-se a sorrir. Sorria docemente e entrava no carro. Falava docemente, e tocava lascivamente. Tinha que agradar, tinha que provocar. Tinha que provar para aquele babaca que valia mais do que cinqüenta dólares de merda.

Mas o que mais queria mesmo era provar que poderia ser um humano também. Algo que não poderia ser comprado, nem por todo o dinheiro no mundo.

Mas por hora, cem dólares estava de bom tamanho... Uma pena ser um feito raro.

Em boa parte, isso se devia à sua aparência, que embora fabulosa, não era das mais desejadas num país onde o racismo ainda era silenciosamente pregado e alimentado, especialmente num estado onde os hispânicos eram uma minoria marginalizada. E mesmo que Consita, uma das mais belas mulheres que o México poderia se orgulhar de ter gerado, jurasse de pés juntos que havia engravidado de um americano loiro e de olhos azuis, Carlo podia saber ao olhar no espelho que provavelmente seu pai fora um porto-riquenho.

A latinidade estava evidente em cada um dos seus traços: A pele morena e suave, os cabelos negros e quase lisos, os olhos escuros com nuances esverdeadas, as linhas fortes e as curvas quentes. O instinto sedutor mais do que nato, o sorriso branco e apaixonante, o jeito divertido e um pouco cínico. Tudo nele feito para encantar.

Mas que Deus abençoe a América, terra livre, onde sua pele não pode ser diferente.

As coisas só eram um pouco diferentes na sua terra natal... Nas suas remotas lembranças de infância, do tempo em que vivia em Santa Fé, no Novo México. Tempos em que tivera uma casa, embora não tivesse certeza que poderia realmente chamá-la dessa maneira. Moravam ele e a mãe em cortiço, num apartamento de dois cômodos: um quarto e uma sala. Carlo tinha que dormir na sala, enquanto sua mãe atendia os clientes no quarto. Consita ganhava um bom dinheiro, afinal, mexicanos gostam de mexicanas, especialmente as de quadris e seios grandes. Infelizmente ela gastava quase tudo em vodka, e o resto investia em tequila.

A situação só mudou quando Carlo estava com cerca de 15 anos, e sua mãe conheceu Vlademir.

Vlademir era realmente um homem em um milhão. Por mais que procurassem, dificilmente conseguiriam achar alguém tão bruto, animalesco, ignorante, machista e agressivo quanto aquele ‘espanhol de merda’, como Carlo gostava de chamá-lo. Ainda assim, sabe-se Deus como, Consita apaixonou-se por aquele homem, embora a teoria mais aceita fosse a que ela havia na verdade se apaixonado pelo dinheiro dele.

Independente destes detalhes, todavia, o ‘casamento’ –o qual fora uma simples mudança para a casa dele- mostrou-se muito eficaz no ato de mudar a vida daquela mulher: Consita parou de se prostituir e de beber. Vivia agora sob efeito de cocaína, a qual conseguia facilmente graças ao ‘emprego’ de Vlademir, que era um dos principais traficantes do estado.

Carlo, mesmo sem querer, acabou entrando na parada, afinal, Vlademir, como todo bom pseudo-pai, quer o bem de seu pseudo-filho, e por isso não tardou a iniciá-lo nos ‘negócios da família’, usando-o como transportador, moleque de recados, cobrador, e vendedor de portão de escola. Isso quando não estava ocupado em foder o seu enteado, é claro.

A mãe, já em estado de semi-catatonia, aparentemente não notou que seu filho foi obrigado a abandonar a escola, e em conseqüência, o sonho de ser médico. Não notou também os diversos hematomas no seu rosto e no corpo magro de Carlo. Não ouviu de noite os gritos de dor e desespero, e não viu o terror na face dele toda vez que o padrasto o chamava.

O jovem, pelo menos, não demorou muito a dar um basta na situação, fazer o que tinha que ser feito. Ao completar 17 anos, fugiu de casa. Andou de estado em estado, pegando caronas, se alimentando mal, dormindo mal e vendendo seu corpo.

4 comentários:

  1. Samila, o sonho dele era ser médico, ok? ele chegou perto pois hoje ele brinca de médico. kkk

    Brincadeirinha.

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  2. HUAhaua! que maldade!! tadinho do Carlo... Você não tem coração?? XD
    *parte dois postada ainda hj!*

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