sábado, 29 de janeiro de 2011

Águia - Parte II






Tudo começou com uma admiração ímpar da parte dela, e um desejo doentio da parte dele.

Beatrice era seu nome, mas Voz-das-Fadas era como todos a chamavam. Nasceu na Irlanda, sob a lua-quase-cheia, filha de uma bela descendente Celta, e um magnífico lobo cinzento. Diziam que até o choro do seu nascimento parecia os sinos dos lírios-do-vale sendo balançados pelas delicadas e pequenas mãos das fadas.

Abençoada desde então pelo espírito da canção que se formava pela passagem do vento por entre as folhas das arvores, detentora então de toda a beleza expressa nos floridos leitos dos lagos que se formavam por entre os vales das montanhas.

Primorosa, graciosa.

De rosto delicado, andar elegante, gestos suaves, cabelos perfumados e curvas perfeitas. Sangue real, a majestade do povo mágico que habitava os sonhos. Provavelmente o espírito perdido de uma Sidhe, que por um acaso acabou adentrando o corpo de uma Garou sem saber que seu lugar na verdade era Arcádia.

Com tantas qualidades, que não era de se estranhar que lhe caíssem de amores os homens e as bestas. E como não haveria se cair de amores também o ser que se encontrava na perfeita harmonia da existência entre essas duas criaturas?

Tempestade-de-Raios era um dos maiores guerreiros que se tinha notícias. Sangue-puro, príncipe dos nobres Presas de Prata; nascido sob o esplendor da meia-lua, detinha a sabedoria esperada de um Philodox, aliada à força, coragem e honradez de um digno guerreiro disposto a dar sua vida enquanto lutava por Gaia.

Sendo o alfa da matilha cuja Voz-das-Fadas fazia parte, teve o privilégio de conhecê-la, observá-la e conviver com a doçura de suas ações. E quanto mais ele a olhava e a ouvia, mais ele a queriae mais ele a seduzia.

Para alguém na posição de Tempestade-de-Raios, eram inadmissíveis suas ações. Para alguém que tinha como obrigação perante a Mãe e a Irmã conhecer as tradições e esforçar-se para que os outros as mantivessem; para alguém que sabia recitar de cor a Sagrada Litania Detentora de Todas as Verdades.

Como poderia logo Tempestade-de-Raios quebrar justamente o primeiro mandamento?

E como poderia tê-lo feito com a pobre Voz-das-Fadas?

Beatrice, obviamente, tentou lutar contra aquela paixão. Sabia que além de proibido, era errado. Mas como lutar contra o amor, um sentimento tão denso e indomável? Como fazê-lo, quando tinha contra si os fortes braços de um legítimo príncipe, tão doce e gentil?

Entregou-se, então, mesmo repleta de receios e fantasias em sua mente, sempre povoada por incríveis histórias de amores impossíveis e desgraças sem fim. Quando se deu conta, haviam-se passado três Luas, e nada de seu sangue descer.

O pânico se instalou em seu coração aflito, e a vergonha abalou toda a honra conquistada em dezenas de batalhas regadas a morte. Mas, mesmo assim, ela não conseguiu se sentir culpada. Como seria culpada, se tinha em seu ventre apenas o puro fruto de um genuíno amor? Encheu-se então de coragem, e com sua bela voz e o mais encantador dos sorrisos nos lábios, deu a grande notícia a Tempestade-de-Raios.

Era noite, e a Lua quase cheia observava o casal, um tanto apiedada, um tanto delirante. A resposta ao contentamento e resignação de Beatrice foi simples e objetiva: uma pata repleta de afiadas garras jogada com violência contra o rosto de fada, e em seguida um ameaçador rosnado, para que procurasse a Theurge da matilha e pedisse por alguma erva abortiva. E que ninguém soubesse que ele estava envolvido, é claro.

Afinal, ele estava certo em não querer sua linhagem maculada pelo nascimento de um impuro.

Mas a Lua, louca e furiosa, não haveria de deixar aquele gesto de apatia e deslealdade impunes – e com seus prateados raios permitiu que sua própria revolta se externasse através do corpo de Beatrice, e pela primeira vez em toda a história, a voz da Voz-das-Fadas não soou tão doce quanto costumava.

Em um grunhido bestial, a bela descendente das fadas transformou-se em monstro e se jogou contra seu ex-amante -e com a ira mortal que apenas uma mãe poderia ter, enfiou as poderosas presas no pescoço daquele que renegara a seu amor e a seu filho.

Se não o matou, foi apenas porque os outros membros da matilha, aflitos ao sentirem o forte cheiro do sangue fétido que lhe escapava pela boca, intervieram para salvar o Alfa.

Sabendo que seria considerada a errada, e sabendo que os outros também insistiriam para que ela se livrasse do pecado guardado em seu ventre, olhou para a Lua e ouviu a canção do vento. Fechou os olhos, e como se fosse cega, seguiu o invisível.

E então fugiu, o mais rápido que pode, para o mais longe que pode.

Sozinha, sozinhos...

Voz-das-Fadas e seu filhote amaldiçoado.

3 comentários:

  1. :D
    E sempre a trocar de pseudonimos...xD

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