sábado, 29 de janeiro de 2011

Águia - Parte II






Tudo começou com uma admiração ímpar da parte dela, e um desejo doentio da parte dele.

Beatrice era seu nome, mas Voz-das-Fadas era como todos a chamavam. Nasceu na Irlanda, sob a lua-quase-cheia, filha de uma bela descendente Celta, e um magnífico lobo cinzento. Diziam que até o choro do seu nascimento parecia os sinos dos lírios-do-vale sendo balançados pelas delicadas e pequenas mãos das fadas.

Abençoada desde então pelo espírito da canção que se formava pela passagem do vento por entre as folhas das arvores, detentora então de toda a beleza expressa nos floridos leitos dos lagos que se formavam por entre os vales das montanhas.

Primorosa, graciosa.

De rosto delicado, andar elegante, gestos suaves, cabelos perfumados e curvas perfeitas. Sangue real, a majestade do povo mágico que habitava os sonhos. Provavelmente o espírito perdido de uma Sidhe, que por um acaso acabou adentrando o corpo de uma Garou sem saber que seu lugar na verdade era Arcádia.

Com tantas qualidades, que não era de se estranhar que lhe caíssem de amores os homens e as bestas. E como não haveria se cair de amores também o ser que se encontrava na perfeita harmonia da existência entre essas duas criaturas?

Tempestade-de-Raios era um dos maiores guerreiros que se tinha notícias. Sangue-puro, príncipe dos nobres Presas de Prata; nascido sob o esplendor da meia-lua, detinha a sabedoria esperada de um Philodox, aliada à força, coragem e honradez de um digno guerreiro disposto a dar sua vida enquanto lutava por Gaia.

Sendo o alfa da matilha cuja Voz-das-Fadas fazia parte, teve o privilégio de conhecê-la, observá-la e conviver com a doçura de suas ações. E quanto mais ele a olhava e a ouvia, mais ele a queriae mais ele a seduzia.

Para alguém na posição de Tempestade-de-Raios, eram inadmissíveis suas ações. Para alguém que tinha como obrigação perante a Mãe e a Irmã conhecer as tradições e esforçar-se para que os outros as mantivessem; para alguém que sabia recitar de cor a Sagrada Litania Detentora de Todas as Verdades.

Como poderia logo Tempestade-de-Raios quebrar justamente o primeiro mandamento?

E como poderia tê-lo feito com a pobre Voz-das-Fadas?

Beatrice, obviamente, tentou lutar contra aquela paixão. Sabia que além de proibido, era errado. Mas como lutar contra o amor, um sentimento tão denso e indomável? Como fazê-lo, quando tinha contra si os fortes braços de um legítimo príncipe, tão doce e gentil?

Entregou-se, então, mesmo repleta de receios e fantasias em sua mente, sempre povoada por incríveis histórias de amores impossíveis e desgraças sem fim. Quando se deu conta, haviam-se passado três Luas, e nada de seu sangue descer.

O pânico se instalou em seu coração aflito, e a vergonha abalou toda a honra conquistada em dezenas de batalhas regadas a morte. Mas, mesmo assim, ela não conseguiu se sentir culpada. Como seria culpada, se tinha em seu ventre apenas o puro fruto de um genuíno amor? Encheu-se então de coragem, e com sua bela voz e o mais encantador dos sorrisos nos lábios, deu a grande notícia a Tempestade-de-Raios.

Era noite, e a Lua quase cheia observava o casal, um tanto apiedada, um tanto delirante. A resposta ao contentamento e resignação de Beatrice foi simples e objetiva: uma pata repleta de afiadas garras jogada com violência contra o rosto de fada, e em seguida um ameaçador rosnado, para que procurasse a Theurge da matilha e pedisse por alguma erva abortiva. E que ninguém soubesse que ele estava envolvido, é claro.

Afinal, ele estava certo em não querer sua linhagem maculada pelo nascimento de um impuro.

Mas a Lua, louca e furiosa, não haveria de deixar aquele gesto de apatia e deslealdade impunes – e com seus prateados raios permitiu que sua própria revolta se externasse através do corpo de Beatrice, e pela primeira vez em toda a história, a voz da Voz-das-Fadas não soou tão doce quanto costumava.

Em um grunhido bestial, a bela descendente das fadas transformou-se em monstro e se jogou contra seu ex-amante -e com a ira mortal que apenas uma mãe poderia ter, enfiou as poderosas presas no pescoço daquele que renegara a seu amor e a seu filho.

Se não o matou, foi apenas porque os outros membros da matilha, aflitos ao sentirem o forte cheiro do sangue fétido que lhe escapava pela boca, intervieram para salvar o Alfa.

Sabendo que seria considerada a errada, e sabendo que os outros também insistiriam para que ela se livrasse do pecado guardado em seu ventre, olhou para a Lua e ouviu a canção do vento. Fechou os olhos, e como se fosse cega, seguiu o invisível.

E então fugiu, o mais rápido que pode, para o mais longe que pode.

Sozinha, sozinhos...

Voz-das-Fadas e seu filhote amaldiçoado.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Águia - Parte I




A Lua era apenas um fino feixe de luz naquela madrugada. Era tarde, e por isso ela já ameaçava ir embora, sem se importar com o arfar desesperado da bela Fianna que se encontrava deitada aos pés de uma arvore como corpo desnudo em contato com a terra, a pele envolta apenas pelo gelado ar do relento. Apesar do frio, sua face encontrava-se banhada e suor.

Mordia os lábios com absurda força, tentando conter um grito que por meses quis sair. Nove meses. Tentava continuar a respirar, tentava manter-se viva, enfiando as unhas na terra. O cheiro do sangue que lhe escorria pelas coxas se espalhava pela floresta, tão intenso que dava medo.

-Eu vou morrer... –A mulher falava febrilmente, apertando com o máximo de força a mão daquele que a acompanhava na solidão daquela floresta remota. O mesmo que lhe acompanhou na solidão do período de gestação.

O homem que a ajudava, um velho de cabelos grisalhos e barba comprida, sorriu bondosamente e falou com serenidade, ignorando o cheiro de sangue que estava prestes a sufocá-lo de tão intenso.

-Calma, minha querida, que esse menino já vai nascer... Você sabe, Beatrice, que os maiores guerreiros só nascem na presença de Luna, e esse com certeza vai sair antes que Ela se esconda...

Ela sorriu, apesar da dor, apesar da vontade de contrair suas feições em um grito horrível. Não podia gritar... Não queria chamar atenção, assim como não queria espantar todos os espíritos da floresta que se reuniam para testemunhar aquele nascimento.

-Ele vai ser um Theurge, assim como você, Leonel... –Falou com dificuldade, mostrando certo orgulho. –Quero que seja um grande Theurge, um encantador de espíritos como você...

-Ele será melhor que eu, querida... Agora respire e faça força, que ele já vai nascer.

Ela obedeceu. Fez força, respirou, e fez força novamente. Conteve mais um grito, e fez mais força. E então se entregou:

-Eu não vou conseguir, Leonel... –Ela falou por fim em tom de desespero, deixando que as lágrimas se unissem ao seu suor na missão de molhar as rubras maçãs de sua face bonita. –Cuida do meu menino, Leonel! –A dor era demais, demais. Ela não conseguiria. Não tinha como.

-Deixa de besteira, mulher! Tu vai ter que cuidar desse menino por uns bons anos ainda! –O velho começou a desesperar também. Sentiu medo. Sabia que Beatrice era uma mulher forte, sabia que ela não era de fazer drama. Já se provara muitas vezes superior a muitos homens em batalha. Aguentara aquela maldita gestação toda sozinha, aguentara aquele trabalho de parto sem soltar um grito sequer. Aguentara o desprezo e o abandono.

Se ela dizia agora que não ia aguentar, era realmente algo para se preocupar.

-Cuida dele, Leonel... Não deixa que o pai dele saiba... Não deixa ninguém machucar o meu menino! –Ela implorava em seu choro desesperado, sua voz estava a cada segundo mais fraca, e a sua respiração ainda mais afoita. –Não quero que ele sofra, Leonel!

-Ele vai sofrer, Beatrice. Nós sabemos que ele vai sofrer, de uma maneira ou de outra... –Ele disse tristemente, pegando a mão dela entre as dele. –Mas ele vai ser um grande Garou, assim como a mãe. Isso eu te garanto.

Mais uma vez ela sorriu, e com os olhos ainda mais nublados em lágrimas do que antes, ela se despediu.

-Obrigada, meu amigo.

-Que teu espírito adentre Gaia, minha amiga.

E então ela gritou o grito mais desesperado que aquela floresta já escutara. O cheiro de sangue se fortaleceu, e em ultimo esforço parar tirar seu filho de dentro de si, Beatrice se foi sem conseguir.

E então ele uivou o uivo mais lúgubre que um Garou podia uivar. Um uivo que ecoou longe, levando compaixão até os mais remotos cantos daquela floresta.

Os espíritos tremeram, mas não se afastaram. Eles se apiedaram daquela mulher, aquela mulher que sofreu tanto para poder ter aquela criança impura. Ante tão grandioso sacrifício , eles se apiedaram e choraram. O vento corria em desespero, formando um assovio profundo e triste, e as árvores deixavam as gotas de orvalho caírem de suas folhas como se fossem lagrimas de pesar.

Diante daquilo, Luna pareceu reconhecer valor em seu novo vidente, e por isso recusou-se a desaparecer e dar lugar ao Sol. Gaia, da mesma maneira, viu em seu impuro rebento um valoroso guerreiro, e por isso, unindo-se a Luna, concedeu-lhe um presente.

Da junção da força de Gaia com a luz de Luna, uma sagrada adaga de prata surgiu, e através das silenciosas e poderosas asas de uma Águia, foi entregue ao velho Filho de Gaia que se desesperava sem saber ao certo que fazer para tirar a criança do corpo já morto de Beatrice.

A Grande Águia deu um pio solene, e deixou aquela adaga aos cuidados de Leonel.

Ele pegou a arma com cuidado e respeito, compreendendo através dos olhos serenos daquela ave, o que deveria fazer. Ajoelhou-se diante de Betrice, os joelhos batendo contra a terra, e as mãos erguidas ao céus, deixando que a fraca luz da lua crescente banhasse aquela sagrada adaga. Gritou:

-Oh Gaia! Tu que és mãe, assim como essa Garou, guia minhas mãos para que eu faça o que for certo, e a vida se mostre esplendorosa ante tua fertilidade! E Luna! Tu que és irmã, ilumina meu coração para que eu possa amar a criança que tirou de mim aquela que eu considerava como parte de meu sangue!

E tendo feito seus pedidos, a adaga rompeu a pele e cortou o cordão umbilical, e a enorme criatura abandonou enfim o ventre de sua corajosa mãe. Não chorava, como um bebê faria - afinal, não era um bebê, mas sim um monstro. Uma abominação repleta de pêlos escuros e garras afiadas, e totalmente banhada em sangue. Grunhia como uma besta raivosa, assustando e afastando os outros animais ao redor ao redor.

Leonel pegou com cuidado aquele ser no colo, abraçando-o como Beatrice faria. Olhou-o com atenção, procurando pelo defeito que haveria de marcá-lo pelo resto da vida como o fruto de um pecado.

Logo notou, o Impuro era cego.

-Oh... Tua vida será difícil, minha criança... –Comentou melancolicamente, mas com um sorriso no rosto, enquanto acariciava a horrenda criatura.

Ergueu o pequeno crinos o máximo que pôde, sem se importar com o aterrorizante choro dele. Exibiu-o à Lua, e em seguida o deitou sobre a Terra. Mais uma vez ajoelhado, clamou pelos espíritos e convocou uma assembléia.

-Grandes espíritos da Noite, e grandes espíritos da Luz! Espíritos da Floresta e da Terra, e Lunos que percorrem o céu! Venham todos a mim a observem, você que partilharam de meu sofrimento em perder minha irmã, partilhem agora de minha alegria, pois neste momento eu batizo este Garou como um legítimo Filho de Gaia, sob o nome da grande Águia que lhe concedeu as dádivas da Mãe Terra e da Irmã Lua! Sob a patronagem do Grande Pai Mulo, e todos vocês, peço que olhos cegos dessa criança consigam sempre enxergar além, e que vejam o que nenhum mais é capaz de ver! E que Águia tenha como padrinho o vento para guiá-lo, e como madrinhas as árvores, para protegê-lo. Que ele cresça sempre cercados pelos espíritos bondosos, e que deles seja o eterno guardião. Que seja sempre justo e verdadeiro, que preze pela paz, e que jamais deixe a ira consumir seu coração. Pelo bem de nossa Mãe, e pela alma de Beatice! Que assim seja!

E assim foi, durante algum tempo...

domingo, 23 de janeiro de 2011

Relatos da Queda - Capítulo I - Orgulho


Esse é um dos três romances que escrevo protagonizados pelo demônio Belial. Os demais são OTrilo do Diabo, e A Lenda de Fausto -esse vai ler lançado como livro em Março agora, ainda sem data.

Digam o que acharam, por favor.


Relatos da Queda - Capítulo I - Orgulho


Aqueles que hoje vêem essa minha imagem, tão bela e obscura; Aqueles que com espanto e maravilha sentem a aura negra e amaldiçoada que circunda o meu espírito; Aqueles que se deixam seduzir por meus gestos e minhas palavras, tão elegantes e repletos de malícia; Enfim, aqueles que se deixam apaixonar por esse coração deturpado e negro, que consegue ser mais frio e cortante que o cinza morto dos meus olhos que ardem apenas em luxúria.

Nenhum desses é capaz de compreender o que eu já fui um dia.

Já fui puro e honrado, digno de ser considerado o ‘primogênito’ de Deus, isso, é claro, se Ele nos considerasse Seus filhos... Mas fato é que, provavelmente Ele se cansou do tédio, e em Sua onipotência, decidiu me criar.

O Primeiro de uma série, um ser que seria mais tarde denominado Serafim, a mais alta classe entre todos os anjos. A mim foi dado um nome, Beliel, que significava “A prosperidade do Senhor”, além de uma posição: Sempre próximo a Deus, adorando-O e entoando a Ele hinos com a bela voz que Ele me concedeu.

E desde a primeira vez que eu senti Sua imensa luz sobre mim, eu o adorei.

O adorei perdidamente, ao ponto de meus olhos não conseguirem se voltar a qualquer outro foco, senão o da Sua presença. Minha voz era inútil, senão para cantar em seu louvor, e meu ser existia apenas para contemplar a existência magnífica daquela luz.Meus pensamentos eram apenas Ele, e meu amor era todo Dele. E eu tinha ciência disso.

E com isso, eu era feliz.

Eu era tão cego, que nem notava o universo que Ele criava a nosso redor, pois para mim, tudo que existia era a luz Dele. Eu sabia que ele havia criado outros iguais a mim, mas isso não me incomodava ou sequer me importava, pois enquanto eu tivesse o privilégio de prestigiá-lo, eu seria completo e único.

E eis que um dia ele me chamou.

Sua voz era algo indescritível, tão severa e tão suave ao mesmo tempo, que fazia meu espírito tremer em medo e emoção. E com aquela voz, ele me disse que queria que eu visse uma coisa, Sua mais nova criação, feita à Sua imagem e semelhança.

E pela primeira vez, eu olhei para algo que não fosse a luz pura de Deus.

Adão era um ser belo. Mesmo não nunca tendo visto uma imagem concreta para servir de parâmetro, eu soube que ele era belo, afinal, ele era a imagem de Deus, não era? Deus seria assim, se Sua luz não me ofuscasse os olhos? Não sei, e jamais saberei. Sei apenas que me cativei por aquela imagem de um ser que se movia de maneira rude, mas ainda assim graciosa. Eu não conhecia cores, textura ou formas, portanto, não tinha como descrevê-lo de outra maneira senão ‘encantador’.

Mas algo em mim me dizia que eu não devia deixar que meu olhar se desviasse. Eu deveria olhar apenas para Deus, pois a Ele eu pertencia.

Mas Ele nunca mais havia olhado para mim ou para meus irmãos, e esse fato me preenchia de tristeza. Ele olhava apenas para o humano e para o mundo que Ele estava criando para Adão.

E em minha solidão e abandono, eu olhei para esse mundo.

Olhei e me surpreendi com todas as belezas com as quais me deparei. O Jardim do Éden era algo extraordinário, tão repleto de cores, cheiros e sensações! Parecia tão completo que me fazia desejar poder morar lá também. Mas eu não deveria, pois eu era um ser espiritual, e como tal, não deveria ir até ao mundo material. Eu deveria ficar no céu, esperando pela presença de Deus, para então agraciá-lo com minha voz.

Mas nada me impedia de observar, de aprender sobre aquele mundo e sobre as criaturas que o habitavam, especialmente, o Homem.

O Homem era um ser extremamente estranho, mas Deus tinha um grande apreço por ele, por isso eu sentia que também deveria ter. Mas algumas coisas relacionadas a ele me deixavam incomodado. Lembro-me que fiquei espantado quando ele teve a audácia de reclamar para Deus que se sentia só, quando tinha a companhia de todos os animais! Sozinho? Ele não sabia o que era solidão, afinal! Solitário era eu, que nunca havia utilizado minha voz para outra coisa senão para cantar! Era apenas eu, eu e a imensidão ao meu redor.

Havia outros anjos, eu sabia pelos distantes pontos de luz, mas eu não deveria me dirigir a eles...

Mas Adão ainda assim se considerava solitário, e então Deus, tal qual um pai que mima o filho, criou para ele a Mulher.

Seduzido.

Foi como me senti assim que via a bela figura de Lady Lilith – Não consigo utilizar outro tratamento para minha eterna rainha. Quem hoje vê nossa relação conturbada e repleta de ódio e ciúmes dificilmente acreditaria se eu dissesse que já adorei essa Mulher.

Lady Lilith conseguira ser mais bela ainda que Adão. O corpo de pele alva e curvas sinuosas era coberto apenas pelo majestoso manto dourado que eram os compridos fios encaracolados.

E ante àquela beleza, eu não consegui desviar meu olhar para nada mais, esquecendo-me até de Deus.

Minha racionalidade havia sido selada pela imagem daquela criatura, mas a loucura só me tomou de fato quando vi o verdadeiro motivo para a criação dela.

Eu os vi copular.

Eu não compreendia. Em toda a sabedoria com a qual Deus havia me dotado, eu ainda era incapaz de entender o motivo daquilo tudo. O corpo dela abaixo do dele; ela o recebendo dentro de si; ela gemendo, parecendo aproveitar aquilo tudo.

E o que mais me angustiava, além de não compreender aquela situação, era não compreender a dolorida euforia que eu sentia dentro de mim cada vez que assistia aquele ato se repetir.

E sem mais suportar minha ignorância, pela primeira vez eu me movi. Eu sai daquele lugar em meio ao nada, onde eu estive desde o início dos tempos.

Eu fui ao Jardim, mesmo sabendo que não devia. Pela primeira vez, senti o calor do sol acalentando-me, senti a brisa acariciar minha pele, senti a textura da terra sobre a qual eu pisava. E senti a luz refletida da figura dela adentrar diretamente nos meus olhos.

Ela se surpreendeu, levantando o rosto tristonho e molhado para me encarar.

-Quem és tu? –Ela me perguntou incerta.

-Sou Beliel. Sou um anjo de Deus.

-E o que é um anjo?

Aquela pergunta me calara. Eu não sabia o que eu era, afinal.

Eu sabia que era um Serafim. Sabia que havia sido o primeiro anjo criado por Deus. Sabia que minha voz era esplendorosa e que eu deveria cantar hinos de exaltação ao criador. Eu fui dotado de grande sabedoria, mas eu não sabia quem eu era.

-O que é um anjo? –Eu repeti a pergunta dela, para mim mesmo.

-Tu não sabes?

-Não... –Confessei. Naquela época, eu não detinha qualquer traço do orgulho que hoje marca a minha existência. –O que tu achas que sou?

-Não sei, mas tu és muito bonito. E tu tens asas, assim como as aves! –Ela me respondeu sorrido. Que lindo era o sorriso dela! Tão sincero e cativante!

-Eu sou bonito?

-Sim! E muito! Vais dizer que nunca notaste?

Na verdade, até então eu nem sabia que eu tinha uma imagem. Eu pensava que eu não passasse de luz, assim como Deus – Que pretensão a minha, diga-se de passagem.

-Vem comigo! –Ela me puxou pelo braço! Eu tinha um braço! Eu era tangível! Ela podia me tocar! Eu fiquei tão feliz com aquilo! –Vem ver como tu és.

Ela me levou até um lago, onde fui apresentado ao meu reflexo.

Eu tinha um rosto. Um rosto bonito, perfeito e simétrico, aparentemente delicado, não semelhante ao dela, mas também não semelhante ao do Homem.

Um rosto único.

Meus cabelos eram mais escuros que as noites sem lua, e eu então vi as pontas dele no chão, enquanto em me agachava para melhor observar meu reflexo na água. Toquei meus fios, sentindo como eles eram sedosos.

Toquei meu rosto, toquei meu corpo, toquei minhas asas. Que belas asas eu tinha! Eram seis! Tão grandes e brancas! Mais brancas que as nuvens do céu!

E meus olhos! Meus olhos tão profundos e brilhantes, da exata cor que se encontrava entre minhas asas e meus cabelos!

Eu era lindo! E pela primeira vez, perdido no êxtase de minha descoberta, eu experimentei daquele que viria a ser o meu primeiro pecado.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Elas

Estão mortas.

Todas elas.

Não se sabe ao certo como aconteceu, como começou, como de fato se deu. Algumas simplesmente sumiram, outras se afogaram em um mar de esquecimento. Podem ser nomeadas algumas que foram brutalmente assassinadas, mas a maioria provavelmente padeceu ante uma terrível e misteriosa doença. As mais sortudas morreram de maneira rápida, como se uma lâmina cortasse facilmente todo o desespero.

As últimas se suicidaram.

Difícil dizer qual delas foi a culpada, qual foi a mais fraca, qual faz mais falta.

Mais difícil ainda é dizer qual delas sofreu mais antes de encontrar seu fim.

A Beleza foi a primeira vítima notável, morrendo aos poucos, indefesa ante aos poderes da Temporalidade. Levou consigo a Auto-Estima, ambas doentes, coitadas, tão fracas e tristes. A Esperteza, apesar de todo seu tino, também não resistiu, e envolvendo-se com a venenosa Melancolia, perdeu todo seu brilho. A Criatividade foi sepultada ainda viva, e lá, debaixo da terra, sufocou-se na Nostalgia até desfalecer.

A Humildade, que a princípio se fortaleceu para lutar contra a Desgraça, sumiu pouco depois, provavelmente engolida pela Auto-Piedade. A Fé brigou, lutou, resistiu. Mas no final foi morta rapidamente sem poder sequer se despedir de sua grande amiga Misericórdia. A Desesperança havia se mostrado uma inimiga fatal para ambas.

A Mão não tardou a perder a Força, nem conseguiu mais nem achar a Intimidade que a ligava à Caneta. As Idéias, tão engenhosas irmãs, não tardaram a notar o caos que se formava, e por isso trataram de fugir. Talvez um dia tudo melhorasse, voltasse a ser como era antes, e então pudessem novamente brincar com a prima Alegria. Desesperadas e aflitas, todavia, não conseguiram seu intento: quando deram por si, haviam sido capturadas e assassinadas pela Revolta.

A Face então banhou-se em sangue. A Boca chamou a Palidez para junto de si. As Pernas foram invadidas pela Lembrança da Fraqueza. A Cabeça girou. A Paralisia tomou conta de todas as demais, e a Água adentrou as Narinas.

A Amargura, a única que havia conseguido se manter até então, foi enfim embora.

Ela tinha que acompanhar a Morte.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Carlo - Parte 2



Foi uma verdadeira epopéia.

Passou por um total de vinte e três cidades, o que foi um grande feito dada a única certeza que tinha: não conseguiria nem sair de Santa Fé só com os setenta e dois dólares que conseguira vendendo um papelote de pó roubado do padrasto.

Como era um garoto sagaz e precavido que não podia se dar ao luxo de gastar aquele dinheiro com coisas supérfluas, teve que esperar por quase duas horas na estação rodoviária pelo momento adequado: quando os guardas e cobradores fizessem a bondade de ficar desatentos ao mesmo tempo. Entrou feliz no confortável ônibus interestadual e se sentou bem no fundo. Iria para Saint Louis, e de lá daria um jeito de ir parar em Nova Iorque, arranjar um emprego, talvez... Longe da fronteira, finalmente se livrar daquele maldito lugar.

A falta de vivência, todavia, mostrou-se uma cruel inimiga que não permitiu que Carlo soubesse que era comum um fiscal checar todos os passageiros e seus respectivos bilhetes durante o percurso. Sem passagem e explicações, o jovem adiantou-se em oferecer o dinheiro que tinha, o qual foi aceito de bom grado pelo simpático funcionário do Sistema de Transportes Americano.

Assim que as notas verdinhas estavam a salvo no bolso do honesto trabalhador e distante dos olhares dos demais passageiros, Carlo viu-se sendo chamado de vagabundo e literalmente jogado do ônibus no primeiro posto de gasolina avistado. Uma grande injustiça, o jovem pensou. Só não reclamou por que o soco que levara no diafragma funcionou muito bem para mantê-lo calado.

Distante uns trinta quilômetros de Amarillo, a cidade mais próxima, Carlo viu-se sem muitas opções e agora sem nenhum dinheiro. Desesperado logo teve a genial idéia de apelar para bondade humana. Avistou um velinho simpático que abastecia seu caminhão e puxou papo. Perguntou para onde ele ia, “Oklahoma”, “Tem como dar carona?”’. A resposta foi um gentil sorriso com a ausência de dois dentes e um “Sobe aí, garoto”.

O jovem hispânico ficou mais do que satisfeito com a certeza de uma viagem tranquila, mas mudou de ideia assim que sentiu a mão enrugada do velho soltar o câmbio e passar por sua coxa enquanto ele falava sobre como é triste e solitária a vida de um caminhoneiro.

O jovem travou de nervosismo, mas logo se obrigou a sorrir. Fez uma cara marota e disse que precisava ir a um banheiro. O velho sorriu também, de maneira bem sem-vergonha, e parou então num daqueles típicos restaurantes caídos que só se encontram na beira das estradas.

O caminhoneiro pediu um café enquanto Carlo ia ao toalete. Lavou o rosto e tentou pensar em alguma coisa. Tomou coragem, encarou o homem que acabava de sair do mictório e sorriu para ele. Barbudo, munhequeira com spikes, cara de mau e jaqueta de couro. Não podia dar errado, estava mais do que acostumado a identificar clientes potenciais.

-Cara, tá sozinho? –Perguntou, recebeu um olhar desconfiado e continuou. –Preciso muito de uma carona, velho.

-Por que você acha que eu te daria uma carona, mané? Na garupa da minha moto só anda loira gostosa, ô imbecil.

Engoliu em seco, um terrível medo de falar algo errado, algo que pudesse entregá-lo como sendo um gay e resultasse em seu espancamento e assassinato bem ali mesmo, naquele banheiro.

Sorriu malandro.

-Eu tenho erva da boa aqui comigo. -Tirou o saquinho do bolso e o deu na mão do motoqueiro. –E eu tenho um cara em Kansas que vai me arranjar pó purinho, muito pó, saca? Se você quiser uma parte, só precisa me levar até lá.

O homem observou com cuidado o conteúdo da embalagem, cheirou e a guardou na parte de dentro da jaqueta.

-Moleque, se você estiver de onda comigo, você tá morto, viu?

-Não te preocupa, cara. Eu tenho muitos contatos lá, não tem erro não.

Passou direto pelo bom velinho que sorria bobamente, colocou o capacete e subiu na garupa, contente com o sentimento de infinita liberdade transmitido pelo ronco do motor da Harley Davidson e pelo vento batendo em seus braços.

Uma pena que o tal sentimento durou tão pouco, pois passadas apenas trezentos e setenta quilômetros um forte bloqueio policial os impediu de seguir viagem. Pelo jeito a guarda estadual do Oklahoma estava há meses investigando uma gangue de motoqueiros que fazia o transporte de drogas ilícitas para o estado. A moto grande e envenenada obviamente chamou a atenção dos policiais, e o aparecimento de dois pacotes de maconha e quatro pacotes de cocaína parecia comprovar que o serviço de inteligência não falhara naquela interceptação.

Com isso o barbudo foi preso enquanto jurava morte ao jovem hispânico, e Carlo, por ser menor de idade, foi conduzido a um seguro abrigo juvenil onde os gentis conselheiros a base de socos e pontapés tentavam lhe arrancar os dados de seus pais para poderem entrar em contato a respeito do filho delinquente.

O carinhoso padrasto não tardou a atravessar o deserto para pessoalmente resgatar seu precioso filho.

Carlo sentiu muita vontade de pedir para ficar lá no abrigo, mas não teve coragem. Nunca, em toda sua vida sentiu tanto medo quando sentia agora ao lado de Vlademir, o qual dirigia nervosamente de volta para Santa Fe enquanto gritava revoltado.

- Moleque maldito! Como si no bastara haber robado mi droga, aún a entregó a los policías, idiota! Y yo tuve que pagar trescientos dólares para soltarte! Trescientos dólares, hijo de una puta! Pero tú me pagadas, Carlo! Ah, si me pagadas! Vas a aprender a respetarme, a dar valor para lo que yo te doy, su desgraciado!

O jovem que apenas se mantinha calado e encolhido começou a tremer quando notou que o padrasto havia tomado um desvio da estrada e agora seguia na direção de uma grande placa de neon onde se lia ‘motel’ em letras vermelhas.

- Pero tú vas a dejarme muy feliz hoy, moleque! Tiene que hacer valer el tiempo que perdí para venir a cogerte y el dinero que pagué, oiste? Estás en débito conmigo, Carlo... Y yo no quiero oír un grito que sea. La perra de tu madre es ancha demás, prefiero mil veces tomar a ti, su puto.

O pânico o tomava a cada rotação dos pneus para então tê-lo por completo com o total cessar do movimento do carro. O padrasto saiu a passos duros em direção à recepção.

- Estás esperando lo que, hijo de una puta? Viene inmediatamente!

A mão sem forças abriu a porta do carro, as pernas bambas saíram lentamente. O coração palpitava enquanto a mente trabalhava a mil para encontrar uma saída, uma maneira de não precisar mais se entregar às mãos imundas e violentas daquele homem.

A mão sem forças abriu a porta do carro, as pernas bambas entraram rapidamente. O coração palpitava enquanto o pé calçado de All Star surrado pisou fundo no pedal da embreagem. A chave foi girada e o motor ouvido. A ré dada e o carro fez um rugido. A fuga executada a grande velocidade, a sensação de liberdade ainda mais intensa do que antes graças ao vento que puxava seus cabelos para trás. 120 Km/h e a certeza de que poderia chegar a Saint Louis até o final do dia seguinte; algo maravilhoso que definitivamente não combinava com a ausência de qualquer nota no seu bolso, um estômago que roncava de fome e um tanque de carro esportivo com apenas um quarto de combustível.

“Merda! Merda! Merda!” Era o que ele pensava a cada sinal que o Lamborghini antigo dava de que estava prestes a parar. “Mais um pouco, mais um pouco...” Ele pedia, implorava para a Virgem de Guadalupe, aparentemente ignorando o fato de sempre ter se manifestado ateu. E como provavelmente a santa queria se vingar pelo fato de Carlo ter feito xixi no altar certa vez quando ainda era pequeno, o milagre não foi concedido e o motor morreu.

De noite, sozinho, meio do deserto, frio e fome. “Ótimo”, pensou enquanto vasculhava o interior do porta-luvas e só achava documentos falsificados. “Espanhol de merda...”. Suspirou e tomou coragem. Desceu do carro agarrando-se a sua jaqueta. Observou o horizonte escuro e longínquo.

Deu o primeiro de muitos outros passos.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Carlo - Parte 1

Que tal um pouco de sarcasmo e cinismo para alegrar o dia? Apresento-lhes Carlo, um de meus mais queridos personagens:


Carlo

A chuva era torrencial, e por isso poucos conseguiam ainda se espantar que quase todas as ruas e avenidas estivessem alagadas, especialmente as do centro comercial. Aquela era a parte mais antiga da cidade, afinal. Fôra lá que tudo começara, errado e sem planejamento.

Vias estreitas, nas quais o sistema de escoamento de água fora um detalhe quase esquecido, mas totalmente ignorado. Ineficaz, segundo a prefeitura. Inexistente, segundo a realidade. Afinal, tubos ficam debaixo da terra, não? Quem consegue ver tubos que se encontram enterrados? Se ninguém vê, está na cara que é um investimento inútil. Melhor mesmo usar o dinheiro desses tais desses canos para bancar a obra super-faturada de uma praça com chafariz, banquinhos de mármore e iluminação multicolorida.

Isso sim que é investimento.

Afinal, a praça estava muito bem localizada, em um terreno bonito e alto, no qual não importava o quanto chovesse, jamais seria invadida pelo lixo e pelos cadáveres de ratos que boiavam em seguida, arrastados pela verdadeira correnteza que se formava quando finalmente se encontravam alagados os becos mais imundos.

As pessoas que moravam nos altos de seus prédios de classe média-alta, é claro, se revoltavam ante tão vergonhosa e nojenta situação. Imagine você, em uma bela manhã de sol, abrindo sua janela e aspirando aquele delicioso aroma de esgoto, enquanto vislumbra sua garagem repleta de lama e lixo.

Logo se ouviam reclamações, e logo vinha a imprensa, e logo vinha o prefeito com suas condolências e com suas promessas.

E logo vinha o verão. Isso é um problema de Fevereiro, todo mundo sabe. Contra a natureza, ninguém pode! Mais importante, viram a nova praça que está sendo construída? Mais bonita ainda que a antiga! Com pista de skate e patinação! Ah, é claro, um chafariz maior que o outro! E todos sorriem e levam as crianças, felizes, sem qualquer lembrança dos ratos.

Todos, excerto Carlo, afinal, mesmo quando não alaga em Atlanta, ainda chove. Aquela maldita e constante garoa que já lhe rendera duas pneumonias. E os ratos ainda lhe assustavam quando passavam correndo por perto dos seus pés, e o cheiro de lixo e esgoto parecia já impregnado em suas narinas.

Isso porque ele não era um daqueles honrados cidadãos que moravam em apartamentos estrategicamente localizados no alto dos grandes prédios. Ele também não freqüentava as praças bonitas, pois quando ia lá, mães e policiais ficavam olhando feio para ele. Ele tinha que ficar mesmo era nas ruas baixas e movimentadas, muitas vezes com as botas imersas na lama, com um sobretudo velho protegendo-o dos pingos d’agua. A noite inteira, até que tivesse a sorte de encontrar alguém disposto a pagar por seu corpo. De preferência que tivesse a vontade de levá-lo a um hotel, onde ele poderia tomar um banho quente e descansar sobre lençóis limpos após realizar seu batente.

Mas geralmente o comiam dentro do carro, mesmo.

Mais importante que o hotel, só mesmo a bondade de dar-lhe uns trocados a mais, para que ele pudesse comprar pelo menos um Big Mac, a fim de combater a magreza excessiva que já estava prestes a prejudicar seu instrumento de trabalho.

Era assim que ele vivia, noite após noite, juntado grana para pagar pratos de comida e estadias em pensões vagabundas. O importante no momento era apenas sobreviver. Comer, dormir, tomar banho, e evitar que algum vagabundo roubasse sua mochila. Também fugir da polícia, às vezes.

Também aguentar a chuva, o frio e a solidão.

Naqueles momentos em que se encontrava sozinho, abraçando seu próprio corpo em busca de calor, sob o abrigo de uma parada de ônibus, um arrepio desagradável percorria sua espinha, e então ele pensava em morrer. Talvez tivesse sorte e um dos tantos relâmpagos que cortavam o céu naquele instante lhe acertasse.

Mas como era um legítimo pisciano, logo esquecia tais pensamentos e começava a sonhar acordado. Em sua mente se fazia sempre presente a utopia de uma casa com sistema de aquecimento, sofá confortável, pote de pipocas, televisão de plasma e um belo e carinhoso homem ao seu lado, que o envolvia e dizia que o amava.

-‘Bora logo, seu puto, não quer cinqüenta pratas?

Ele então acordava de seus devaneios, e mesmo sentindo tanta dor em seu peito, obrigava-se a sorrir. Sorria docemente e entrava no carro. Falava docemente, e tocava lascivamente. Tinha que agradar, tinha que provocar. Tinha que provar para aquele babaca que valia mais do que cinqüenta dólares de merda.

Mas o que mais queria mesmo era provar que poderia ser um humano também. Algo que não poderia ser comprado, nem por todo o dinheiro no mundo.

Mas por hora, cem dólares estava de bom tamanho... Uma pena ser um feito raro.

Em boa parte, isso se devia à sua aparência, que embora fabulosa, não era das mais desejadas num país onde o racismo ainda era silenciosamente pregado e alimentado, especialmente num estado onde os hispânicos eram uma minoria marginalizada. E mesmo que Consita, uma das mais belas mulheres que o México poderia se orgulhar de ter gerado, jurasse de pés juntos que havia engravidado de um americano loiro e de olhos azuis, Carlo podia saber ao olhar no espelho que provavelmente seu pai fora um porto-riquenho.

A latinidade estava evidente em cada um dos seus traços: A pele morena e suave, os cabelos negros e quase lisos, os olhos escuros com nuances esverdeadas, as linhas fortes e as curvas quentes. O instinto sedutor mais do que nato, o sorriso branco e apaixonante, o jeito divertido e um pouco cínico. Tudo nele feito para encantar.

Mas que Deus abençoe a América, terra livre, onde sua pele não pode ser diferente.

As coisas só eram um pouco diferentes na sua terra natal... Nas suas remotas lembranças de infância, do tempo em que vivia em Santa Fé, no Novo México. Tempos em que tivera uma casa, embora não tivesse certeza que poderia realmente chamá-la dessa maneira. Moravam ele e a mãe em cortiço, num apartamento de dois cômodos: um quarto e uma sala. Carlo tinha que dormir na sala, enquanto sua mãe atendia os clientes no quarto. Consita ganhava um bom dinheiro, afinal, mexicanos gostam de mexicanas, especialmente as de quadris e seios grandes. Infelizmente ela gastava quase tudo em vodka, e o resto investia em tequila.

A situação só mudou quando Carlo estava com cerca de 15 anos, e sua mãe conheceu Vlademir.

Vlademir era realmente um homem em um milhão. Por mais que procurassem, dificilmente conseguiriam achar alguém tão bruto, animalesco, ignorante, machista e agressivo quanto aquele ‘espanhol de merda’, como Carlo gostava de chamá-lo. Ainda assim, sabe-se Deus como, Consita apaixonou-se por aquele homem, embora a teoria mais aceita fosse a que ela havia na verdade se apaixonado pelo dinheiro dele.

Independente destes detalhes, todavia, o ‘casamento’ –o qual fora uma simples mudança para a casa dele- mostrou-se muito eficaz no ato de mudar a vida daquela mulher: Consita parou de se prostituir e de beber. Vivia agora sob efeito de cocaína, a qual conseguia facilmente graças ao ‘emprego’ de Vlademir, que era um dos principais traficantes do estado.

Carlo, mesmo sem querer, acabou entrando na parada, afinal, Vlademir, como todo bom pseudo-pai, quer o bem de seu pseudo-filho, e por isso não tardou a iniciá-lo nos ‘negócios da família’, usando-o como transportador, moleque de recados, cobrador, e vendedor de portão de escola. Isso quando não estava ocupado em foder o seu enteado, é claro.

A mãe, já em estado de semi-catatonia, aparentemente não notou que seu filho foi obrigado a abandonar a escola, e em conseqüência, o sonho de ser médico. Não notou também os diversos hematomas no seu rosto e no corpo magro de Carlo. Não ouviu de noite os gritos de dor e desespero, e não viu o terror na face dele toda vez que o padrasto o chamava.

O jovem, pelo menos, não demorou muito a dar um basta na situação, fazer o que tinha que ser feito. Ao completar 17 anos, fugiu de casa. Andou de estado em estado, pegando caronas, se alimentando mal, dormindo mal e vendendo seu corpo.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Ensaio sobre a mente dele


Boa noite! Bem, venho aqui com um conto que eu acredito ser um dos melhores que já escrevi...

Espero que gostem....



Ensaio sobre a mente dele
-Você é uma pessoa normal? –Ele perguntou. Sua voz era suave e contida, tal qual eram seus gestos e expressões. Tudo que ele fizesse parecia ser milimetricamente calculado.
Não houve resposta, mas mesmo assim ele continuou calmamente sua fala.
-Se você for uma pessoa normal, provavelmente não irá me compreender. Se bem que... –Ele fez uma pausa e sorriu. –Você não deve ser uma pessoa normal.
-Em toda a minha existência, jamais encontrei alguma pessoa que se encaixasse com perfeição nos parâmetros de normalidade impostos pela sociedade. Pelo menos, não quando não expostos a ela. É quase que uma regra, meu caro. Na frente das pessoas, nós nos portamos quase sempre como bons exemplos, como boas pessoas... Mas quando estamos longe... Ah... Quando estamos sozinhos, nós mostramos que de fato somos. E por isso que eu ouso afirmar, meu caro: Todo mundo tem alguma anormalidadezinha, algum pequeno desvio de caráter, algum probleminha psiquiátrico... Algum demônio interno ou algum esqueleto enterrado no jardim.
Por um breve instante ele olhou pela janela, contemplando o horizonte. Mas logo voltou sua atenção ao outro.
-São fantasmas, meu caro... Fantasmas que recusam-se a ficar exilados no passado. Eles precisam se fazer sempre presentes, sempre vivos. E por isso que eles reencarnam a cada dia. E a cada dia eles assombram, assustam, deprimem.
Fez uma pausa e com tranqüilidade tomou um gole da bebida em seu copo. Uma pequena careta se formou em seu rosto, por ação do gosto forte e amargo do whisky importado e envelhecido em barris de carvalho.
-Esses fantasmas, meu caro, assumem as mais diversas formas e cores. Mas isso é algo que provavelmente apenas um sinestesista com uma maneira muito curiosa de ver o mundo seria capaz de identificar. Mas como eu já estou enrolando demais, não vamos nos ater a isso. Podemos nos referir a esses fantasmas como sentimentos e sensações comuns a todos os seres humanos, que tal?
Não esperou pela resposta. Sabia que ela não viria.
-Dor, inveja, fracasso, loucura, desespero, confusão... Arrependimento. –Fez questão de frisar bem a última palavra. –Algum desses lhe é familiar, meu caro? Não! Não responda! Eu sei que sim... Mas não se culpe, meu caro. A culpa serve apenas de alimentos para os fantasmas, deixando-os mais fortes, você não sabia? Por isso, esqueça a culpa e conforte-se com o fato de que esses fantasmas perseguem a todos os seres pensantes. –Tentou consolar o outro, sorrindo de maneira gentil. –Mas voltando ao que eu dizia anteriormente, você não é normal. Mas apenas isso não vai garantir que você me compreenda, pois diferentes fantasmas geram diferentes formas de ver o mundo... E talvez seja isso o que faz a vida tão fantástica.
Ele gesticulava com calma, realmente querendo se fazer compreender.
-O meu fantasma é colorido e multiforme. Embora lhe predominem os tons gris, muitas vezes ele toma para si cores vibrantes, que brilham e piscam sem parar, como luzes de néon hipnotizando a todos que as admiram. E ele quase sempre dança. Sua dança, diferentemente das mudanças nas nuances de suas cores, não segue um ritmo acelerado – se o fizesse eu possivelmente já teria enlouquecido, seria demais para mim. Sua dança é geralmente calma e graciosa. Algo que, de tão apaixonante, por vezes faz com que eu me esqueça que se trata de um fantasma –uma maldição- e me pegue pensando se não seria na verdade uma bela ninfa tentando me seduzir.
Ele passou os dedos pelos lábios, como se desfrutasse de um cálido beijo.
-Nesses momentos eu me sinto vivo, como em nenhum outro. Eufórico e entorpecido por sua dança tão sensual e cativante. –Soltou um leve suspiro satisfeito. –Eu me sinto incrivelmente bem quando isso acontece. Minha mente, embalada pelos elegantes passos dessa dança, desloca-se com invejável desenvoltura através do tempo e do espaço. As circunstâncias deixam se ser relevantes, e eu me transformo em um incansável viajante dos planos, alguém que transcende toda a matéria física. Eu me sinto iluminado...
Ele olha ao redor, com uma expressão apaixonada, quase que iludida. Mais uma vez suspirou.
-Nesses momentos, junto da minha mente, eu viajo. E comigo, minha mão viaja também... E são nesses momentos que ela cria, eu me aproximando então do meu sonho. –Ele sorriu. –Não sabias, meu caro? Pois é, eu, assim como você, tenho um sonho. E eu lhe garanto que sonhos são mais do que meras ilusões auto-impostas, meu caro! Muito mais! –Ele se exaltou por um instante, mas logo recompôs sua costumeira calma. –Sonhos... Sonhos são o combustível da vida, a motivação que leva a humanidade a prosseguir. E você sabe que isso é verdade porque você também tem um sonho. Se não fosse por esse sonho, você provavelmente teria enfiado com toda força a faca no pulso esquerdo, durante aquela desesperadora noite de Dezembro, não teria?
Ele sorriu. O sadismo era presente na sua fala. Ele parecia se divertir com o espanto do outro.
-Oh, como eu sei? –Riu um pouco, cínico. –Não se espante, meu caro. Eu sei muito sobre você... Muito mais do que você gostaria que qualquer pessoa no mundo soubesse. –Seu tom se fazia ameaçador, perigoso. –Talvez você não tenha notado, mas eu tenho lhe acompanhado há muito tempo... E de perto. Por isso, eu sei tudo sobre você. Tudo que você procura esconder tudo que você precisa esconder. Eu sei de cada podre seu... –Sussurrou a última frase risonho, mas logo votou ao bondoso tom inicial.
-Mas não se preocupe, meu caro. Como eu disse anteriormente, todo mundo tem seus fantasmas, e é natural que procurem escondê-los. Mais importante que isso, eu afirmo, é manter o seu sonho vivo em seu coração. Somente através do seu sonho você será capaz de enfrentar e superar seus fantasmas. Se você não se matou naquela noite, foi por causa do seu sonho, eu sei... E assim mesmo que tem que ser, eu lhe garanto.
Olhou com um pouco mais de atenção para o outro. O desconforto dele era visível.
-Oh, mas me desculpe por tão constantemente tomá-lo como exemplo. Eu não o faço com objetivo de lhe ofender ou lhe intimidar, é bom que saiba. Eu o faço unicamente porque acredito que dessa maneira a compreensão se fará mais fácil da sua parte. E acredite, eu realmente preciso que você me compreenda. –Sorriu amável em seguida.
-Não tem porque se envergonhar, eu garanto. Eu já passei por algo bem semelhante... –Olhou para cima um tanto nostálgico, parecendo lembrar-se de algo doloroso. –Sabe, meu fantasma nem sempre se veste de musa e posa para me inspirar com suas danças e cores... Não... Às vezes ele se transforma em um cruel monstro cinzento, pérfido e assustador. E quando isso acontece... –Ele engoliu em seco. Seus olhos permaneciam distantes.
-Quando isso acontece, minha mente, que outrora viajava contente pelo mundo das idéias, que criava incansavelmente... Essa mesma mente torna-se seca, e perde-se então em vastos campos repletos de nada. O marasmo e a inércia imóvel tomam conta dela, enquanto sua sombria falta de cores me afoga lentamente em um profundo mar de depressão. –Ele passou a mão pelo rosto, visivelmente transtornado. Estava pálido, e isso deixava suas escuras olheiras ainda mais visíveis.
-É triste, meu caro... Muito triste... Triste ao ponto de me fazer querer morrer. Eu afirmo sem exageros que quando isso acontece, sinto-me exatamente como um espírito cujo frágil cordão de prata se rompe, e se vê então desesperado separando-se de seu corpo. O desânimo me abate, e toma conta de mim aquela maldita vontade de deitar e dormir... E dormir indefinidamente, para nunca mais acordar. –Fechou os olhos por um instante. Eles pareciam úmidos.
-Isso, esses momentos, eles me abalam mais do que você pode imaginar. Como alguém, alguém como eu, que ousa afirmar e defender com tanta veemência que os sonhos precisam ser valorizados... Como eu me permito despencar tão rapidamente, a ficar horas e horas pensando apenas no desejo pela morte? Como eu posso fazer isso, se tenho um sonho tão lindo, tão forte e tão importante a realizar? Como posso fazer isso se sei que meu tempo é tão curto?! –Ele elevou o tom de voz, e acabou por dar um forte e furioso murro na parede.
O sangue correndo por seus dedos magros e alvos pareceu acalmar-lhe.
-É nesses momentos, meu caro... Nesses momentos de desespero... Exatamente nesses momentos que nós nos parecemos mais... É nos momentos mais tristes que nós nos aproximamos... –Ele comentou melancolicamente, instintivamente passou a mão direita por cima do pulso esquerdo, pondo-se a acariciar a cicatriz que havia lá.
-Nós somos mais parecidos do que você imagina, meu caro... Nossos fantasmas nos fazem semelhantes, e nossos sonhos também...
Mais uma vez ele sorriu.
-Você já notou isso, não notou? Porque você, assim como eu, é um daqueles que volta e meia tentam fugir de seus fantasmas, se esconder deles, fingir que eles não existem... –Fez uma longa pausa, analisando atentamente o outro, para então começar a andar na direção dele.
-Você é como eu... –Falou baixinho, em um sussurro, como se contasse um segredo. –Você é uma daquelas pessoas que gostam de falar na terceira pessoa, a fim de que, pelo menos por meros instantes, possam se esquecer de quem são.
Ele se aproximou ainda mais do espelho, fitando profundamente os próprios olhos.
-Você e eu somos iguais, meu caro.

Metas Literárias para 2011

Seguindo as dicas do blog do Alexandre Lobão http://dicasdoalexandrelobao.blogspot.com/2011/01/metas-para-escritores-em-2011.html eu resolvi redigir a listinha que ficará exposta no meu quarto para que eu não esqueça em momento algum de minhas obrigações com os meus leitores!
Quem quiser conferir a famigerada... rs

Escrever ao menos meia página – Todo dia

Organizar os meios de divulgação para A Lenda de Fausto – Data limite: 10/03/2011 (Skoob, Facebook, Twitter, Blog, contatos, parcerias virtuais, grupos regionais, etc)

Terminar de escrever Relatos da Queda – Data limite: 08/05/2011

Terminar de escrever Rumores sobre Anjos – Data limite: 22/06/2011

Terminar de escrever The Purest Form of Love – Data limite: 13/07/2011

Terminar de escrever Trilo do Diabo – Data limite: 01/08/2011

Terminar de escrever Pequenas Coisas – Data limite: 30/10/2011

Completar a antologia de 18 contos para o Grupo Summos – Data limite: 12/11/2011

Reescrever e terminar Blind Angel – Data limite 01/12/2011

Participar da Bienal do Rio de Janeiro – __/__/___

Participar da Bienal de São Paulo – __/__/___





É isso! XD
Mais tarde posto um conto bem legal, viram?

Beijos, e encerro com um trechinho de uma música do Samael, On The Rise, que fala sobre como alcançar sonhos:

"On the rise, galvanized
on the way to the top every day that we drop
is a seed that we plant for the life that we want
it'll grow on our backs to keep us on the track
for if we wanna shine, we will need discipline
we're eager to learn and ready for our turn
Above the sky at the top of the world
close than we ever thought we could be
higher and higher heart filled with desire
perfect self-control with a sword as a soul
On the rise! With spirit of conquest
on the rise! On our way to be the best
On the rise, energized
breathing in gradually and rising to the source
breathing out steadily and capturing the force
Unified, electrified
ruling over nature of mankind
by having constancy and real peace of mind"

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A Arte

Bom dia! Postando aqui novamente um conto antigo de vampiros... Foi um dos primeiros contos que escrevi, e gosto muito dele, mesmo sendo curto e simples. É sobre os meus queridos vampiros do clã Toreador, tão ligados à arte a à própria soberba ^^


A arte

“Você chama isso de arte?”

Foi essa frase que, proferida em alto e bom tom, chocou a todos Toreadores presentes no Grande Baile.

Como poderia um neófito como ele ser tão ousado? Será que seu senhor não lhe ensinara boas maneiras?

Embora alguns discordassem, a maioria dos Membros lá presentes admitiam que aquele quadro era magnífico: Suas cores foram tão bem escolhidas e seus detalhes tão bem colocados que parecia ser uma fotografia. O vermelho assemelhava-se com perfeição ao sangue fresco, dando a impressão de que acabara de cair na pintura; o corpo desnudo da dama retratada parecia ainda possuir os últimos momentos de calor antes de sua morte.

Como aquele, que era praticamente uma criança da noite, tivera coragem de falar com tanto desprezo de um quadro daqueles?

O que ele entendia de arte, afinal?

-Meu caro, -Arthur, o autor do quadro, um toreador ancilla que estava ascendendo muito em status ultimamente por suas belas pinturas, resolveu se manifestar. –Posso saber seu nome?

-Claro, chamo-me Jules Roderiquiz. –Ele respondeu sem se intimidar pelo olhar discreto, porém raivoso que aquele Membro lhe lançava. Ele não perderia a pose por nada.

-Então, Jules. Não gostastes do meu quadro? Achas que podes apresentar uma obra melhor?

Todos os outros membros prestavam atenção naquele embate, e apenas alguns cochichos eram ouvidos. Certamente todos os toreadores ali presentes teriam assunto por vários dias para comentar no elísio.

As harpias estavam especialmente animadas, ansiosas para ver qual seria o desfecho, afinal, seria muito chato uma festa sem pelo menos uma grande intriga que pudesse ser utilizada a seu favor.

-Claro que posso. –Respondeu confiante, com um sorriso debochado em sua bela boca.

-Então me mostre! –Desafiou irritado.

-Então me siga. -Disse mansamente, com a voz doce e encantadora, começando a andar.

Arthur o seguiu, assim como os olhares de todos.

Jules parou em frente a um grande espelho, apontou para seu próprio reflexo e disse:

-Isto sim que é uma obra de arte.

O choque d aquele público foi grande. Alguns, mais velhos, comentavam a arrogância daquele tolo neófito.

Mas no fundo, todos tinham que concordar: Jules era de fato era uma obra de arte.

Nunca se vira vampiro tão belo. Seu corpo tinha as formas mais idealizadas do que qualquer escultura feita pelos maiores mestres que já existiram. O rosto perfeitamente simétrico possuía uma bela andrógena e delicada. Os cabelos curtos, lisos e castanhos moldavam seu rosto com elegância. Seus olhos verdes eram como nobres esmeraldas e tinham o brilho típico dos olhos de uma criança da noite, que se encantava ao descobrir todas as maravilhas de sua maldição.

As mão, os dedos, as roupas, os gestos, a maneira de andar e falar –sua voz era mais encantadora e apaixonante que a de uma ninfa. Tudo nele era perfeito, e tinham que admitir:

Aquela sim era uma obra de arte.”

Enquanto Jules ganhava a atenção e admiração de todos, seu senhor apenas sorria em um canto, com um cálice de sangue nas mãos.

Afinal, se Jules era uma obra de arte, ele era o artista.