sábado, 31 de dezembro de 2011

Relatos da Queda - Capítulo III - Inveja


Relatos da Queda - Capítulo III - Inveja


Motivado por minha recém-descoberta vontade, e minha recém-adquirida sede por conhecimentos que me haviam sido tolhidos, eu fui atrás de outros como eu: os pontos de luz que por tanto tempo eu apenas observei. Talvez, assim como Lilith, aquelas luzes envoltas pela inércia tivessem coisas novas e incríveis a me ensinar. E principalmente, talvez pudessem me explicar porque eu estava repentinamente me sentindo tão só e angustiado.


Com minhas asas majestosas das quais eu há pouco sequer tinha conhecimento, voei.


Voei como jamais voara antes, solto e sem rumo pelos céus acima do Paraíso. Diferente de como era andar pela Terra, voar pelo Céu era infinitamente mais agradável. Senti espalhando-se por mim uma sensação de liberdade sem tamanho, algo bem distinto da negatividade emanada pelos humanos, a qual alguns físicos modernos acabaram por apelidar de Gravidade vários anos após...


No Céu não há nada disso. Não há ar para impedir o movimento das tuas asas, não há forças para te puxarem para baixo. Não há nada senão luz e um delicado calor. Enfim, o céu é um lugar verdadeiramente indescritível, nada parecido com qualquer coisa que qualquer humano possa ver ou imaginar em vida. Simplesmente impossível para a compreensão daqueles que dizem ser os mais semelhantes a Deus. Só sendo um anjo para entender completamente o que é sentir a luz do Criador a cada instante sobre si, impulsionando seu vôo.


Mas mesmo sendo maravilhoso, eu sentia medo. Medo de que minhas peripécias não dessem em nada, medo de errar tanto ao ponto de que o Pai jamais olhasse para mim novamente. Medo de...


Não sei... Apenas medo, medo e mais nada.


Mas como naquela época eu não conhecia o medo e suas propriedades, muito menos seus motivos, eu segui em frente, voado e passando por muitos domínios, vendo muitos pontos de luz.


Eram meus ‘irmãos’.


Não sabia com qual deles falar primeiro, nunca havia ouvido Deus comentar qualquer coisas sobre nenhum dos outros Anjos antes... Como seriam? Será que eram como eu? Eu não tinha ideia, e por isso minhas mãos tremiam em ansiedade.


Vi então ao longe então uma Luz absurda, mais potente que o Sol quando olhado diretamente da Terra, e que se tornava mais intensa ainda com a minha aproximação.


Era imenso o seu poder, eu podia sentir em minha pele, na maneira como a mesma se arrepiava só de imaginar como seria aquele que emitia tanta luz e amor a Deus... E me aproximando mais e mais, finalmente meus olhos testemunharam a mais absoluta beleza, a mais perfeita criação do Senhor. Testemunhei a luz daquele que conseguia brilhar quase tanto quando seu Criador, e que com seu brilho, ofuscou de maneira quase que permanente os meus olhos.


Ah, Lúcifer…


Lúcifer era perfeito, e por isso, antes de detestá-lo motivado pela inveja que eu viria a sentir, eu o admirei com o mesmo ardor que admirava a Deus. E não temi a heresia que sabia estar presente em meu ato. Não podia temer, não podia fazer nada, senão adorar aquela criatura e tudo do que ela era composta...


Tinha apenas duas asas, mas as mesmas eram maiores que as minhas seis unidas. E eram de um branco tão intenso que eu julgaria não existir, se não estivesse vendo com meus olhos. Sua pele era pálida e reluzente, mais do que a mais pura pérola já encontrada no oceano - mais do que a minha. Seus cabelos eram compridos, lisos e negros. Mais do que os meus. Seus traços, que tendiam ao masculino, eram harmoniosos e simétricos. Mais do que os meus.


Enfim, tudo nele era de uma beleza divina, e portanto perfeita. De uma perfeição muito superior à minha... Algo que me deixou não apenas enlaçado, hipnotizado e mesmerizado... Mas que me fez finalmente perceber que talvez eu não fosse tão grande e maravilhoso quanto julgava ser...


Aproximei-me dele, bem lentamente... Receoso e temeroso, não apenas por saber estar fazendo algo errado –eu já havia cometido pecado maior antes, afinal- mas sobretudo por nunca estado tão perto de algo tão belo, forte, intenso, e aparentemente delicado.


Aproximei-me mais, destinado e aparentemente destemido. Fiz-me notar e vi a exuberante surpresa nos olhos dele. Aquele simples reflexo de pavor e admiração que eu vi misturados nas mais belas orbes criadas por Deus... Ah, certamente aquilo pareceu fazer valer a pena cada um dos meus erros, pecados e ousadias.


–Quem és tu? –Ele me perguntou na língua que era comum apenas aos da nossa raça. Sua voz profunda e severa me lembrava de algum modo a voz do Criador, e me fez pensar de que maneira um humano, um simples humano, haveria de ser mais semelhante a Deus do que aquele maravilhoso ser à minha frente. De maneira alguma eu poderia aceitar um absurdo daqueles, não enquanto morasse em minha mente a lembrança daquela voz que me fez tremer de medo perante sua candura, e que fez eu me sentir flutuar de maneira mais leve e genuína do que me sentira durante o vôo que eu havia há pouco realizado.


–Sou Beliel, Serafim do Primeiro Coro da Primeira Ordem. E tu, quem és? –Perguntei também, gaguejando a princípio. Será que todos os outros eram tão belos e esplendorosos quanto ele? Será que haveriam outros ainda mais belos?


Não, impossível, eu pensei. E pela primeira vez eu estava certo.


Ele me encarou por um tempo, seus olhos eram sérios e brilhantes. Quentes e gentis, mas verdadeiramente cortantes. Eu temi aqueles olhos, quis fugir deles, e se não o fiz, foi apenas porque Lúcifer me agraciou com o mais belo e cálido sorriso que já vi.


–Beliel... O primeiro de nós... –Ele sussurrou de maneira tão melodiosa que eu pensei que eu não era qualificado para cantar os hinos de adoração ao Senhor. Não perante ele... –Eu sou Samael, o Quarto Arcanjo.


–Samael... –Repeti, absorto e maravilhado, como se através de seu nome eu o invocasse para mim.


Até seu nome era perfeito, dava para saber pela maneira suave como ele saía de meus lábios... Samael... Eu não parava de repetir em meu pensamento, ponderando sobre o motivo do nome do meu futuro Rei...


Antes da queda de todos nós, éramos anjos do Senhor, e por isso nossos nomes seriam feitos apenas para exaltá-Lo, é claro. E era esse o nome da Estrela da Manhã antes de mergulhar-se nas trevas e tornar-se o pródigo Filho da Luz. Samael significa ‘Veneno de Deus’, e embora no momento eu ao conseguisse entender o motivo de alguém tão fabuloso deter tão maldoso nome, depois de tudo que veio a se suceder, eu sinceramente não conseguia pensar em nada mais adequado para nomear o maravilhoso anjo que encheu com o doce veneno da inveja o meu coração.


–Diga, Beliel... Para que o Pai te mandou até mim? –Lúcifer perguntou com sua majestosa voz, finalmente tirando-me de meus devaneios acerca de seu nome. E bem, aquela pergunta havia me deixado sem resposta.


–O Pai não me mandou... –Falei bem baixo, como se estivesse com medo de que Ele escutasse... Mas que tolice a minha, pensei mais tarde, afinal, Ele é onisciente... –Vim por minha vontade.


Lúcifer, que até então se mantinha calmo, pareceu finalmente alterar-se um pouco, como se não acreditasse no que eu lhe dizia. E era fácil compreender o motivo de sua surpresa, afinal, éramos ambos anjos, seres cuja única vontade deveria ser a vontade de nosso Criador.


Naquele momento eu era a maior das aberrações.


Não perdeu a compostura, todavia, e por isso foi bem sucinto:


–Se não tens nenhuma palavra do Senhor para falar a mim, por favor, retira-te de meus domínios.


Simples daquele jeito.


Tentei ainda convencer-lhe a conversar, perguntei-lhe algumas coisas a respeito dele, mas ele foi enfático: Sua existência não haveria de interessar a ninguém senão ao Pai, e da mesma maneira, minha existência não servia de nada senão para exaltar ao nosso Senhor, e que por isso eu deveria voltar aos meus domínios, às minhas canções e hinos. Eu só servia para aquilo, minha existência se resumia àquilo, e eu não deveria jamais questionar, afinal, se Ele assim fizera, aquela era a maneira correta.


Ao ter todas aquelas verdades esfregadas contra minha face, não apenas me senti humilhado por finalmente notar o quão patética era a minha condição... Não... Mais do que isso eu senti raiva e inveja. Ambos sentimentos por ter encontrado alguém tão mais belos, mais brilhante, mais sábio... Enfim, mais próximo a Deus, não apenas por sua condição, mas por sua sinceridade, por sua determinação em servir apenas àquele que deveria de fato servir, despindo-se de desejos e vontades que não eram de maneira alguma inerentes a alguém da nossa raça.


Enfim, sendo exatamente aquilo que um anjo deveria ser.


Sendo tudo aquilo que eu não conseguiria mais ser.


Desprezado e humilhado, eu deixei o domínio de Samael, amaldiçoando seu nome per ter me tratado mal e praticamente me expulsado de lá. Mas no fundo -e acredito que ele também tenha notado este fato- invejando-o e admirando-o, desejando mais do que tudo algum dia ser que nem ele.


Lilith pode ter sido a origem de meus primeiros pecados, mas Lúcifer foi o verdadeiro e derradeiro motivo para minha queda, e quando penso nisso, não deixo de me perguntar por que as mãos de Deus, que tantos chamam de Destino, empurraram-me justo naquele momento, justo para aquele domínio...


Mas digam o que quiserem, neguem, se desejarem... Mas de uma coisa eu tinha certeza: Assim como eu, Samael começou a cair naquele dia, envolto pelo orgulho de descobrir-se superior a mim, o primeiro do Anjos.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Poesia: Losna


Gente! desculpa a demora para postar coisas novas aqui no blog! eu estava passando por um período muito ruim, algo que incluía algo chamado TCC....
Mas aos poucos estou voltando a escrever, então espero que sejam pacientes comigo! talvez eu poste um yaoi em brevo...

Por hora, gostaria apenas de compartilhar convosco minha tristeza, pois ontem, enquanto arrumava meu caos (quarto) minhas mãe quebrou minha garrafa de absinto importada, artesanal, feita na Argentina, proibida devido seu teor alcoólico de 75%.
É uma dor muito grande perder essa garrafa, símbolo da boemia dos escritores franceses que eu tanto admiro! Ah, minha fada verde, fonte de inspiração e orgulho! estava mais do que metade cheia! ainda não acredito nisso!
Em homenagem a minha falecida garrafa, e aos escritores que me apresentaram a bela Fada Verde, segue uma humilde poesia:



Losna


Já sentiste tu, nos lábios um forte amargor
Foste tentado então na maldita noite escura
Ouviste a voz do demônio em toda a loucura
Pois se a vontade impera doce torna o sabor

Mas não queres tu descobrir os segredos
Que se escondem nos arbustos de prata esverdeada?

Dos arbustos que nascem sobre a sepultura
Torpe moralidade onde morreu o bem viver
Que faz das asas da fada cativa tortura
E apresentou pecado a todo tipo de prazer

A hora é esperada, pois não sabias tu
Que da galante boemia surge a mais apreciada podridão?

Pois não só nos sonhos se faz a mágica
Mas cada pesadelo com láudano se batiza
Branca doçura no amor se torna trágica
Vem junto à musa que o poeta idealiza

Pois o tolo gera realista ideal de amor
Enquanto no verde entorpece e embriaga
Os alucinados beijos culminam no clamor
No jorrar que faz a dor se tornar vaga

Pois o sentimento de volúpia é como praga
Que se alastra regada na querida perversão
Da cortesã a quem se ama mas logo se larga
Perdida cor pálida de encanto e alucinação

Assim segue com veneno derramado na língua
Sentindo no ardor típico de ferida aberta
Sangrarem os versos lidos à lua que míngua
Vís palavras declamadas em sincera oferta

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Resultado do Concurso "Uma Proposta Tentadora"

“Um demônio de corpo delgado caminhava desnudo por entre os escuros corredores de pedra do 4º círculo infernal. A elegância com a qual andava fazia virarem os pescoços dos demônios inferiores que guardavam o local, estes impressionados pela visão tão graciosa que Asmodai lhes proporcionava. O rebolado da criatura era insinuante, quase feminino, e a cada passo seus longos cabelos lisos e rubros acariciavam as belas costas de absolutamente pele alva, escondendo apenas uma pequena cicatriz do local onde costumavam ficar suas asas. Um sorriso de pura lascívia tomou seus lábios carnudos e vermelhos tão logo suas mãos delicadas tocaram a maçaneta da pesada porta dos aposentos de Belial. Encontrou o Príncipe do Orgulho sentado em sua cama, em seus lábios finos e pálidos, um sorriso pouco semelhante ao de Asmodai – algo tendendo para a melancolia.

Em seu colo, todavia, repousava a cabeça de um jovem demônio de aparência adolescente. Que não se deixassem enganar pela complacência de sua expressão levemente irritada, que permanecia assim mesmo enquanto Belial fazia leves carinhos sobre pele um tanto morena, pelos chifres curvos de tonalidade dourada, ou pelos curtos cabelos de um castanho profundo. Aquele era Mammon, Rei da Ganância.

Tão logo adentrou, Asmodai, o Príncipe Infernal da Luxúria jogou-se sobre a cama, abraçando Belial por trás e tentando enroscar uma de suas pernas delgadas em meio às fortes pernas do demônio mais jovem. Com voz manhosa perguntou:

-O que o Mammon tem dessa vez, hum..?

-Advinhas? –Belial desafiou, deixando um pouco de sarcasmo escorrer por sua boca.

-Ah, sim, a desvalorização do Grande Bezerro Dourado… Quem diria, logo em um aeon que tanto se fala de poder, dinheiro, Capitalismo… Nosso Rei de Ganância deve estar se sentindo abandonado com tão poucas almas se ofertando pelo ouro… –Asmodai falava com o tom um tanto risonho. –Posso consolá-lo se quiseres, Mammon… –Riu baixinho, envolvendo ainda mais as pernas do demônio da Ganância entre as suas. –Mas terás de esperar… Muitos dos clamores direcionados a Belial caíram diretamente em meus ouvidos… Ah, quantos pedidos repletos de desejo e luxúria, meu senhor… –Comentou, erguendo um pouco o tronco a fim de lamber o pescoço de Belial, fazendo o mesmo sorrir um pouco.

-Parecem que querem que eu reerga Sodoma e Gomorra… Esses pedidos por orgias e prazeres, sodomias sem fim… Isso de fato me traz boas memórias… –Belial disse de maneira nostálgica, olhando para o teto de seu aposento e relembrando de alguns fatos do passado e perguntando-se se o alhinhamento se sua estrela era propício para tal. –Ah, até prevejo minhas belas damas a meu redor, amando-se e amando as visões de seus homens amados amando a mim e a outros homens!

-Acredito que nem em Sodoma a perversão era tão… Estranha… –Mammon comentou ainda de mau-humor. –O que essas tais donzelas gostam tanto de ver em sessões de sodomia das quais nem pretendem participar?

-Ah… Nem em toda a sabedoria que o Criador nos fez enquanto anjos, jamais fomos ou seremos capazes de entender as singularidades da bela e delicada alma feminina, meu Rei… Utilizemos Lilith como exemplo! Quem compreende vossa mãe, Mammon? –Asmodai adiantou-se, ainda beijando com volúpia o pescoço de Belial. –Mas como sabes, Belial, tens todo meu apoio para realizar os desejos dessas moças e rapazes… –O demônio ruivo seguia em suas carícias ousadas sobre o corpo o demônio de cabelos negros, mas este pouco parecia se animar, mantendo a compleição preocupada.

Mammon então se levantou ainda mais irritado do colo de Belial, olhando com raiva para os dois demônios.

-Não penses que sabe tudo que se passa pela cabeça de Belial, Asmodai!

-Acaso o senhor sabe, meu Rei? –O tom respeitoso de Asmodai era composto na verdade de sarcasmo.

-Não, mas sei quem sabe, tu sabes quem sabe, e se isso não te incomoda, é porque não amas Belial de fato!

-Ah… –Asmodai suspirou, como se estivesse cansado, e deixando de lado o pescoço de Belial, jogou-se de costas na maciez na cama. –E cá estamos a falar da Besta!

-Caso não tenhas notado, Belial está apático assim desde que uma humana desejou o poder de Leviathan… –Disse o Rei da Ganância, fazendo o Príncipe do Orgulho erguer uma das sobrancelhas.

-Se não notaste, estou presente, Mammon. –Belial respondeu em tom monótomo. –E estou lúcido.

-Presente e lúcido o suficiente para confirmar minhas suspeitas… Afinal, tu mesmo desejas o que a humana pediu… Por que não vais até Leviathan, heim? Pelo que entendi, adoras o fundo do Mar… -A fala do Rei encontrava-se embargada em ciúmes. -Entrega-te a ele, entrega teu espírito imortal à Besta e pergunta sobre teu futuro! Perguntas o porquê de tuas desgraças! –Mammon quase gritou, cada palavra saindo se sua boca em tom de acusação. –Pergunta a ele porque os humanos, por que apenas os humanos, e jamais um de nós!

Asmodai nada disse, apenas se encolheu um pouco na cama, sentindo-se constrito, da mesma maneira que Mammon logo se sentiu, por uma espécie de presença que fazia lembrar de forma aterrorizante a brisa do mar. A imensa figura surgiu imponente naquele quarto, fazendo tremer o Príncipe rubro e o Rei ali presentes.

Seu corpo era grande e forte, de formas meramente humanoides, mas demasiadamente belas. A pele tinha cor de pérola, e os cabelos eram fios de prata jogados como um rico manto por suas costas e ombros, escorrendo até seus pés. O belo corpo de músculos definidos encantava, mesmo que coberto por uma leve túnica branca. Mas mais encantadores eram seus olhos, cegos e vazios, repletos de infinito.

Belial amara aqueles olhos, e a verdade neles contida, certa vez.

Mammon deu um passo para trás, como se temesse a besta marinha, enquanto Asmodai apenas fechou os olhos e encolheu-se mais na cama. Belial, por sua vez, sorriu quando Leviathan seguiu até ele, e com as mãos pesadas e de grandes garras, tocou sua face com carinho. Logo em seguida o Príncipe da Inveja começou a falar, sua voz preenchendo o aposento como o mais terrível e poderoso dos trovões em uma noite de tempestade no mar.

-A Onisciência… Belial já me pediu por este poder, mas eu jamais o daria para ele, Mammon…

-Por quê? –O Rei precisou reunir pouco de coragem para encarar a grande criatura e retrucar, ainda mal-humorado.

-Porque amo Belial e não desejo a ele as desgraças que a mim foram reservadas. Tampouco concederia minha maldição à humana que ofereceu a alma por ela…

-Por que a ti não interessam as almas humanas? –Asmodai finalmente teve audácia de perguntar.

-Porque talvez isso atraísse a atenção de Belial para tal alma humana, e isso eu não permitiria… –Leviathan respondeu, fazendo o Príncipe da Luxúria tremer pelo simples fato de ter aquela voz direcionada a si. –Já me dói o suficiente ver Belial sempre atraído por humanos com suas desgraças humanas… Para que criaria para ele um humano com desgraças demoníacas?

-Falas como se eu gostasse de sofrer, Leviathan… –Belial finalmente se manifestou.

-Não gostas de sofrer, mas fostes feito para tal… E por isso, nesta noite vais ao mundo dos humanos, adentrarás um quarto e marcarás o pulso daquela cujo desejo mais íntimo ecoa por tua mente e clama por teu espírito.

-E quem é este, Leviathan?

-É aquele que já conheces, que observas há algum tempo… Aquele que detém o tipo de alma que te atrai: a alma dos santos e dos artistas, a alma dos puros que sofrem. Assim como tu sofrerás… Uma alma de um poeta que se desnuda, que se faz de leito, de altar, de solo fértil para as rosas azuis… Uma alma que ilude e que ama, e que fará amar desnudar-se o teu espírito… A alma que mais uma vez que fará sangrar, meu belo caído… –Leviathan falava com pesar e compaixão, ainda acariciando a delicada face de Belial.

-Se saber que ele vai sofrer, por que deixas que aconteça? Eu não permitiria! –Mammon praticamente gritou, profundamente irritado com as palavras do monstro marinho.

-Porque como sempre, no final, serei eu a curar as feridas dele e enxugar suas lágrimas. Essa é minha sina, e é tudo que me resta. Não deixarei demônio ou humano algum tirar isso de mim. –Leviathan falou antes de se desmaterializar, deixando apenas os três demônios no quarto. E uma certeza na mente de Belial.

Naquela noite nasceria o seu mais novo amor, uma pena que jamais eterno: Black Dorian Gray. “

Olá Gente! esse foi o resultado do concurso em parceria com o Blyme Yaoi! Obrigada a todo que participaram! Os detalhes da votação estão disponíveis no site do Blyme!


beijinhos a todos!

ps: acho que em breve voltarei a escrever e postar meus originais e minhas fanfics!

domingo, 11 de dezembro de 2011

Promoção! O Quanto Vale sua alma??



Olá gente! primeiramente gostaria de pedir desculpas por meu sumiço aqui no blog, o qual teve um motivo pouquíssimo nobre: uma maldição chamada TCC....

Então, para pedir desculpas, e também estrar no 'clima natalino', cof, cof, gostaria de informar que em parceria com o Blyme (maio portal brasileiro sobre conteúdo yaoi)!

A promoção é na verdade um concurso cultural, muito simples, tudo que você precisa fazer é [b]vender sua alma[/b] para um demônio pra lá de sexy! Simples, não? huaahuaha

Agora sério, é só entrar no link

http://blyme-yaoi.com/main/2011/12/06/uma-proposta-tentadora-voce-pode-ganhar-um-exemplar-de-a-lenda-de-fausto/


e responder:

Como seria o seu pacto com Belial?

A resposta mais criativa vai ganhar um exemplar autografado do livro, na sua casinha, antes do natal!

Não percam tempo! A a promoção vai só até o dia 16/12!

Que vença a alma mais cara (ou talvez a mais dada!)! XD

sábado, 24 de setembro de 2011

Escritos de Jack Sampaio: Resenha: A lenda de Fausto


Gente, mais uma vez a lindíssima Jack Sampaio me deu um presentão: Uma resenha de A Lenda de Fausto!
Leiam!

Escritos de Jack Sampaio: Resenha: A lenda de Fausto:

É com muita honra que faço algo similar a uma resenha do livro A lenda de Fausto, escrita por uma das mais célebres escritoras do Amapá: Samila Lages. Eu comprei o livro com um lindo autógrafo e, mesmo tendo lido tantas vezes, eu o mantenho dentro da minha bolsa e volta e meia eu o leio novamente. Por que eu faço isso? É simples: por que eu sou completamente apaixonada pela história! A lenda de Fausto é uma das obras mais completas que eu já li com romance, drama, comédia, etc. E não é só o fato do livro nos levar a um jorro de emoções que o torna especial, a escrita é bem caprichada e isso é um bálsamo para quem gosta de uma linguagem simples, mas com um "quê" a mais.

O livro reconta a lenda alemã de Fausto, um médico que teria vendido sua alma para o diabo a fim de adquirir conhecimento. No melhor estilo yaoi (casais são de homens), Samila envolve o médico Fausto em uma trama criada por Lúcifer e Belial (o demônio do orgulho) a fim de fazê-lo cair e não mais ser o predileto de Deus. Belial, príncipe do inferno e o mais belo anjo caído, é incumbido de manchar a alma do humano... Pelo menos era isso o que ele pretendia inicialmente. Pois o convívio com a ovelha predileta do senhor há de afetar o demônio de maneira, quem sabe, irremediável. O que antes era apenas uma união imposta por um contrato de sangue, torna-se a mais bela história de amor que já testemunhei ser criada.

(...)

Continuem lendo no Blog da Jack
Mais uma vez, obrigada por todo seu carinho, linda!

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Resenha de A Lenda de Fausto - Por Josiane Veiga

Gente, olha que legal! A Josiane Veiga, escritora que publicou o que eu acredito ter sido o primeiro livro yaoi no Brasil, escreveu uma linda resenha sobre A Lenda de Fausto! Confiram por favor!
Brigadão Josy!

Resenha:

Aos poucos, o mundo Yaoi vai conseguindo expandir suas asas no Brasil. Sei da Blanxe (Monica Malheiros – Distúrbia), da Rafaela Rocha (Escapismo), eu com minha trilogia Jishu e, por fim, a incrívelSamila Lages, com seu “A Lenda de Fausto”.

E é sobre este último livro que quero falar na resenha de hoje.

Esperei muito para lê-lo. A cada resenha que lia, a cada comentário de leitor apaixonado, meu desespero ia tomando proporções épicas. Eu amo Yaoi. E um Yaoi bem feito, então...

O pano de fundo é a famosa história lenda alemã tantas vezes contada e recontada por aí. Todavia, a Samila tem uma forma muito singular de relatar tal conto.

O demônio de sua história, Belial, tem a arrogância sempre por nós imaginada pelos seres das trevas, mas que também nutre uma desesperada (e mascarada!) necessidade pelo puro e pela doçura. A forma relatada por Samila a respeito da mágoa de tal ser por Deus é tocante e ao mesmo tempo angustiante. Podemos sentir os motivos de suas dores... e vemos em nós mesmos, por várias vezes, alguns daqueles fortes sentimentos nutridos pelo demônio.

Aí é que entra o grande diferencial. Quem nunca brigou com Deus é porque nunca teve um relacionamento com Ele!

A necessitada paixão que nutre e busca pelo puro e inocente, o faz cair nas garras de Fausto, um médico bom, que havia praticado o bem durante toda a sua vida.

(...)Continue lendo no Blog Fic-Lovers

Sobre a Josy, ela é uma simpatia que eu conheci no Twitter, e fiz questão de ler o primeiro livro yaoi, Rendição, uma história belíssima que se passa em meio ao mercado musical japonês! Muito recomendado para fãs de J-rock e J-pop! E já saiu continuação, o Redenção, que eu ainda não tive a oportunidade de ler, mas mal posso esperar =D

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Novo e-mail

Babies! desculpem a demora! Eu estava viajando, e no meio dessa viagem meu e-mail @yaoi.com.br deu pau, então, eu gostaria de pedir a vocês que qualquer contato que queiram fazer comigo, o façam pelo samila.lages@gmail.com
Obrigada, desculpem pelo incômodo todos que tentaram contato comigo e não conseguiram, e em breve devo postar algo que preste por aqui - espero.
Beijinhos!

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Marcas - Parte I - No.6


Boa tarde! Segue aqui mais uma fanfic do anime No.6 (minha paixão, se você ainda não assistiu, não espere mais e baixe logo!), dessa vez um pouco mais intensa que a anterior.

E bem, como hoje é aniversário da maravilhosa Jack Sampaio, gostaria de dedicar a ela, também ficwriter do Fandon de No.6, esta humilde fanfic!

Feliz aniversário, Jack! Que tenhas muitos outros anos de vida, repletos de inspiração, e que você nos dê de presente muitos contos, romances e poemas! Tudo de bom para você, linda!

E novamente preciso agradecer a lindíssima e dulcíssima Mel Keigo por mais uma ver ter me ajudado e betado uma fanfic de No.6, apesar das adversidades provenientes de o fato de eu ser terrivelmente desatenta XD

*-* E ainda por cima ela se comprometeu em betar a continuação! Olha que eu vou ficar mal acostumada, viu? XD

Então, é isso, espero que gostem!




Marcas

Os olhos cinzentos brilhavam repletos de ira, numa demonstração tão forte e clara de emoções que Shion se perguntou se aquele era o mesmo Nezumi de sempre – e a resposta para sua própria indagação o assustou quando ouviu a voz naturalmente grave do maior sair quase como um rosnado baixo por entre os dentes, que ameaçavam trincar, tamanha a força exercida para não gritar.

-Você tem certeza disso, Shion? Tem certeza de que quer ser meu inimigo?

O menor engoliu em seco enquanto tentava conter o nervosismo – algo praticamente impossível devido à presença da mão raivosa de Nezumi em seu pescoço, pronta para apertá-lo caso se confirmasse aquilo que não queria ouvir.

O que Shion menos queria era magoar o moreno, e menos ainda gostaria de se separar dele. Já havia compreendido em seu coração a forte atração que os unia, mas mesmo assim não via outra saída, ao menos não enquanto mantivesse suas parvas e infantis convicções sobre igualdade e humanidade – as quais não passavam de tolices segundo Nezumi, que já lhe advertira tantas vezes – mas que mesmo assim não conseguia deixar de lado.

Apenas desviou os olhos e baixou a cabeça, como se afundasse em vergonha e auto-piedade por sua decisão de abraçar o papel de mártir.

E aquilo era algo que o outro não perdoaria.

-RESPONDE, SHION! –Nezumi gritou enfim, já não aguentando todo o ódio que ameaçava fazer seu peito estourar. Seus braços fortes erguiam o corpo do menor pelo colarinho da camisa. –VOCÊ VAI MESMO FICAR DO LADO DA NO.6? MESMO DEPOIS DE TEREM TE JOGADO FORA COMO LIXO? MESMO DEPOIS DE TEREM TENTADO TE MATAR? –Prensou ainda mais o corpo frágil contra a grande estante de livros, derrubando alguns deles.

O maior estava ciente da dor que causava em Shion, mas mais ciente ainda estava da própria dor. E daquela forma os dois permaneceram em um silêncio sofrido por alguns longos e insuportáveis instantes: Nezumi com chamas descontroladas em seus orbes cinzentos; Shion com uma vergonha que não permitia sequer que seus olhos vermelhos se erguessem.

-Você é um idiota mesmo... Você não aprendeu nada durante todo esse tempo. –O maior praticamente cuspiu suas palavras com desprezo, soltando-o enfim. A voz estava novamente baixa e controlada, mas tão cheia de mágoa que Shion jurou que poderia morrer de tristeza apenas em ouvi-la. -Tomara que te matem lá na No.6, senão eu que te matarei. –Falou dando as costas, indo em direção à porta. –Quando eu voltar, espero que você não esteja mais aqui.

O passo dado por Nezumi foi pesado e sofrido, como se em seus pés estivessem localizados todos os sentimentos que o atavam ao jovem de cabelos brancos. Por mais de quatro anos fora a lembrança do calor e da gentileza daquele garoto que o mantivera vivo, por isso ir embora parecia ser tão difícil. Não estava disposto a deixar para trás tantos momentos e milagres, mas dessa vez a escolha não era sua. Tudo que poderia fazer era sair antes para não ter que ver o outro partindo.

E talvez por isso seu coração tivesse ameaçado parar de bater quando sentiu um leve toque da mão de Shion em sua jaqueta, bem no seu braço. Mesmo que não o puxasse, que não o segurasse, aquele toque o conteve da mesma maneira que conteve por um instante o ódio que se agarrava e ameaçava romper seu coração.

Virou-se, talvez permitindo que um pouco de esperança brilhasse enfim nos olhos, que pareciam só conhecer a amargura. Viu Shion erguendo sua face, exibindo os orbes rubros trêmulos e envoltos em lágrimas enquanto abria a boca. Sua voz quase sempre suave saiu fraca e vacilante, repleta de dor e receio:

-“...um anseio desmedido por uma hipotética manhã em que os nossos olhos acordem para um mundo renovado nas trevas para nosso prazer, um mundo em que as coisas tomem novas formas e novas cores, e que tenha mudado, ou tenha outros segredo”.

Os olhos de Nezumi, até então esperançosos e adornados por alguma luz, pareceram desta vez perder qualquer brilho, até mesmo a da fúria que há pouco os dominava.

-O Retrato de Dorian Grey, hum? Quer dizer que isso foi tudo o que você aprendeu nesse tempo todo? –Riu em seguida, seu riso baixo e mentiroso, pois não achava graça nenhuma.

Riu de raiva e mágoa e, mergulhado nesses dois sentimentos, sem dó golpeou com seu punho a delicada face do menor, o qual não gritou nem se surpreendeu. Como se esperasse por aquele soco, Shion apenas aguentou e passou a mão pela marca avermelhada no rosto. O fato era que queria aquele soco em sua face, sentia que precisava dele, que o merecia.

Mas infelizmente aquele soco não servira como punição, e nem se fosse espancado conseguiria se perdoar pelo que estava fazendo. Mas ainda assim permitiu que suas lágrimas enfim rolassem enquanto encarava novamente a face zangada do amigo juntamente à sua mão erguida, prestes a socar-lhe novamente.

Não fechou os olhos, apenas continuou olhando para Nezumi, triste e sincero, enquanto o punho erguido que tremia abaixava-se na direção de sua face, tão suave e lentamente. Fechou seus olhos apenas quando sentiu o doce carinho dos dedos frios do moreno em sua bochecha.

-Você ainda não sabe nada sobre lutas, livros ou sexo... –Disse seriamente, mais uma vez dando as costas, reunindo suas forças para ir embora enquanto sua mão escorregava da bochecha ao queixo, prestes a se despedir da pele amada.

Mas novamente Shion o deteve:

-Então me ensine. –Pediu seriamente, seu tom de voz tão firme quanto o maior jamais havia escutado antes.

O superficial carinho se desfez e a mão do moreno foi ao chão recolher um dos tantos livros derrubados, pondo-se a folheá-lo em seguida. O menor prestou atenção na capa de couro do livro antigo onde marcava em letras douradas o título “Flores do Mal”. Esperou em silêncio até que o maior começasse a recitar em voz baixa o trecho um poema:

-“Crime que não moveu no firmamento o sol, o meu profundo amor, o de olhar de arrebol. Com eles a se rir de minha mágoa funda, dando-lhes o prazer de uma carícia imunda.– O livro foi fechado e novamente jogado ao chão com descaso enquanto Nezumi voltava a encarar o menor. Deu um passo adiante, aproximando seu corpo ao dele. Seus olhos voltavam a deter alguma espécie misteriosa, ainda que falha, de brilho. -É sobre isso que queres aprender, Shion? –Perguntou de uma maneira tão séria que assustou o outro, mas não o suficiente.

-É. Ensine-me, por favor. -A voz de Shion continuava firme, o que contrastava grandemente com o forte rubor que agora tomava conta de seu rosto, e o leve tremor que enfraquecia suas pernas.

-Certo... Vou te dar mais essa lição. –Nezumi falou bem baixo, a voz propositalmente rouca contra a orelha do menor provocou-lhe um forte arrepio na nuca. A proximidade de seu corpo se fez ainda maior, quase ameaçadora, tão logo mais um passo foi dado. –Considere como um presente de despedida. –Disse com uma nota de mágoa em sua voz e um sorriso triste em seus lábios, e em seguida beijou Shion, doce e lentamente.

“Despedida.”

Aquela palavra ecoou fortemente pela cabeça do menor enquanto sentia em seus lábios o calor do outro, quase não se dando conta do que realmente estava acontecendo. Instintivamente abraçou Nezumi, agarrou-se a ele na verdade, tamanha força que utilizou. Não queria que se separassem, não queria se afastar daquele que lhe ensinara a viver de fato. Mais lágrimas escorreram por suas bochechas coradas e o nome do seu amado escapou como súplica por entre o beijo.

-Nezumi...

O maior sentiu vontade de chorar junto, mas decidiu que não o faria. Sentiu vontade de consolar o outro também, mas a dor em seu peito não permitiu – era Shion que o estava abandonando, não o contrário. Era ele quem estava sendo deixado para trás, era ele quem deveria receber consolo, mas no fundo ele sabia: a culpa era toda sua por ter permitido que aquele garoto se aproximasse tanto ao ponto de tocar seu coração.

E sentindo raiva de si mesmo; e sentindo raiva daquele que o fizera se apaixonar, e agora o abandonava; e sentindo raiva da No.6 por mais uma vez lhe tomar o que tinha de mais precioso; sentindo raiva de tantas coisas, Nezumi agarrou também Shion e aprofundou o beijo que trocavam, fazendo com que algo doce e superficial se tornasse intenso e violento, ao ponto de fazer os lábios de Shion sangrarem por conta de uma mordida mais forte.

O menor tentou se afastar de primeira, tomado pelo susto e pela falta de ar que lhe provocara a magnitude daquele ato. A forma como Nezumi lhe mantinha preso em seu abraço, a língua dele invadindo sua boca sem sequer pedir licença – aquilo lhe transmitia algum medo, mas jamais seria o suficiente para desejar a distância de fato, e por isso, mesmo temendo, ele logo tentou corresponder ao ritmo do beijo que lhe era imposto. Isso, de alguma maneira, conseguiu aumentar ainda mais a raiva que Nezumi sentia, afinal, se Shion correspondia de fato aos seus sentimentos, por que não ficava?

“Por que você não...?”

Com os olhos arregalados em surpresa por ter finalmente compreendido o óbvio, o maior rompeu o beijo bruscamente e empurrou outro pra longe de si, fazendo com que novamente batesse com as costas na estante de livros. Os olhos de Shion o encararam espantados, sem entender o motivo daquela reação.

Nezumi, assumindo rapidamente a frieza que apenas um bom ator poderia emular, retirou as próprias roupas apressadamente. Seus olhos cinzentos olhavam para os vermelhos com tanta raiva que o menor, pela primeira vez, sentiu medo de verdade pelo que Nezumi poderia fazer consigo.

Suas pernas, que já tremiam sem forças, finalmente cederam e ele foi lentamente ao chão, escorregando suas costas pela estante enquanto a imponente figura do maior, agora desnudo, vinha em sua direção e agarrava suas roupas como se as quisesse rasgar. Os botões de seu casaco foram arrancados com violência e o mesmo aconteceu com os de sua camisa.

-Ne...Nezumi? –Sua voz falhou tamanho seu espanto enquanto o outro abria suas calças e as puxava rapidamente, juntamente com sua roupa de baixo. –O que...? –O moreno não deixou o outro sequer terminar suas indagações, ajoelhando-se na frente dele e calando-o ao apertar fortemente seu maxilar.

-Eu vou te ensinar sobre sexo, esqueceu? Primeira lição: é feito sem roupas. –Disse seriamente e empurrou a face dele antes de soltá-la, agarrando em seguida as pernas dele e as abrindo com rispidez.

Shion conteve um pequeno grito e tentou recuar, virando-se e tentando engatinhar pelo chão, mas Nezumi segurou fortemente seus quadris e o puxou em sua direção, deixando-o ainda mais assustado ao pressionar seu membro já ereto contra suas nádegas.

-O que foi? Não era isso o que você queria? –Perguntou com um sussurro cruel contra a orelha de Shion, sua voz embargada em algum sentimento que o menor não conseguia e nem queria identificar.

Shion soluçou baixo, sentindo o choro novamente prestes a voltar a seus olhos, mas conteve-se e se virou para o maior, pondo-se a encará-lo seriamente. Restava apenas alguma tristeza e decepção aparentes em seus orbes avermelhados, das quais Nezumi fugiu quando o fez se deitar no chão, fechou os olhos e voltou a beijar o menor com volúpia e ferocidade, tentando esconder a todo custo seus verdadeiros sentimentos.

Shion estava assustado. Não fora assim que imaginava que seria sua primeira vez, a qual havia idealizado tantas vezes, sempre com Nezumi. Em nenhum de seus sonhos Nezumi o beijava com tanta fúria, ao ponto de machucar seus lábios. Em nenhum de seus sonhos Nezumi o prensava contra o chão gelado enquanto apertava seus pulsos, impedido qualquer defesa ou reação. Mas, ainda assim, era Nezumi ali, acima de si. E apenas porque podia sentir o calor da pele dele contra a sua, desejou do fundo do coração aquele contato. Respondeu mais uma vez àquele beijo violento e gemeu quando a boca do maior se dirigiu ao seu pescoço, pondo-se a mordê-lo e chupá-lo com a certeza de que marcaria ainda mais a sua pele enquanto se permitia inebriar-se com o cheiro adocicado que de fato lembrava o de uma flor.

Vendo que Shion não lutava para livrar-se de seu julgo –pelo contrário, correspondia a cada carícia sua- o moreno soltou os pulsos do garoto, permitindo que suas mãos passeassem enfim pelo corpo magro e marcado. Parou seus violentos ataques ao pescoço dele e ergueu seu tronco a fim de admirar o caminho que suas mãos percorriam, seguindo as marcas vermelhas cravadas na pele alva e tenra, da face corada ao pescoço repleto de mordidas, ao tronco, à parte interna da coxa esquerda.

-Essa cobra enrolada no seu corpo realmente é muito sexy... –Disse febrilmente enquanto admirava-o com atenção e o tocava com quase adoração. Queria gravar com exatidão em sua mente não apenas aquela visão, mas também cada sensação: a suavidade e o sabor daquela pele, o tremor e os arrepios que provocava na mesma, o aroma embriagante que ela emanava, os olhos que vacilavam, mas o desejavam apesar do medo. O forte corar em sua face e o envergonhado som do seu suspiro de prazer quando a mão que agarrava sua coxa passou a acaricia-lo de maneira mais íntima. Nezumi se sentia hipnotizado pela visão de sua própria mão massageando os testículos e passando seus dedos pelo membro de Shion, apertando a glande por onde já gotejava um pouco de prazer.

-Nezumi... Hum...

Um arrepio percorreu sua espinha quando o menor, de olhos fechados, gemeu seu nome. Queria-o para si, e queria-o para sempre. Sabia que não seria possível, mas ainda assim desejava tão intensamente, e com esse desejo começou a masturbar o menor com força e velocidade.

-Ah! –Shion suspirou novamente assustado, sentindo um pouco de dor pela intensidade dos bruscos movimentos da mão no moreno. –Assim não..! –Seu tronco se ergueu e ele tentou segurar o braço de Nezumi que o tocava. –Mais devagar, Nezumi... –Pediu novamente com a voz falha, sua respiração já prestes a se transformar em um pesado arfar, o qual se interrompeu quando sentiu a mão esquerda do moreno apertando novamente sua garganta com força suficiente para fazer faltar-lhe o ar.

-Vai ser do jeito que eu quiser! –O maior quase rosnou, olhando intensamente para as mais uma vez chocadas orbes de Shion.

O menor sentiu seu corpo se paralisar em terror ante aquelas palavras, e sua mão soltou imediatamente o braço do outro, deixando claro que não faria nada para contrariar Nezumi. O moreno sorriu de canto –embora seu sorriso não transmitisse nada de positivo- e novamente empurrou o tronco de Shion, obrigando-o a deitar-se no chão.

-Bom menino... Agora fica quietinho e curte... –Falou friamente enquanto se debruçava entre as pernas de Shion, alcançando o membro dele com sua boca, fazendo-o quase gritar tão logo sua língua percorreu com força toda a extensão de seu membro, terminando por envolver sua glande e colocar-se a chupá-la com força.

O menor arqueou as costas violentamente, sentindo a dureza do chão machucá-las. Gemeu tão alto que a vergonha o obrigou a tapar a boca com uma das mãos – a qual tão logo notada por Nezumi foi agarrada e impedida de cumprir seu papel.

-Eu quero ouvir seus gritos. –Ordenou, e foi obedecido assim que sua boca voltou ao que fazia.

-Para, Nezumi! –Pediu em desespero, porém o maior fingiu não escutar. –Por favor, para! Eu vou... Ah... –Suas palavras foram interrompidas por um longo gemido de satisfação e vergonha, sendo esta última ainda maior quando abriu os olhos e encarou o moreno olhando-o intensamente com um sorriso de deboche enquanto limpava com a mão o gozo que lhe escorria por um dos cantos da boca.

-Não aguentou nem dois minutos?

Se fosse possível corar mais do que já estava, Shion o teria feito naquele instante. Mas tudo que fez foi desviar o olhar e permitir com que mais lágrimas brotassem em seus olhos, o que preencheu Nezumi com uma culpa mais do que indesejada.

Fingindo que não se importava –mas por Deus, aquela visão conseguira fazer doer ainda mais o seu peito- o moreno, não querendo mais ver seu querido Shion chorar, pôs-se a beijar e mordiscar os mamilos do menor enquanto sua mão direita, totalmente molhada pela semente de Shion, tentava alcançar seu recanto mais secreto.

Como reflexo, o menor automaticamente tentou fechar as pernas, mas Nezumi o impediu colocando seu próprio tronco entre elas.

-Pensou que já tinha acabado? –Perguntou baixo ao ouvido dele. –Eu ainda nem comecei. –Ao dizer aquilo, fez questão de mais uma vez encostar seu membro ereto na entrada de Shion, forçando-a um pouco, deixando o jovem de cabelos brancos ainda mais assustado. –O que foi? Está com medo? Quer que eu pare? –Perguntou, sua voz soando o mais sarcástica possível.

Shion não respondeu nada, apenas relaxou suas pernas, abrindo-as como sinal de consentimento enquanto permanecia com o rosto virado para o lado. As lágrimas que segurara bravamente escaparam silêncios e seu corpo se contraiu involuntariamente quando sentiu um dos dedos de Nezumi entrando em si. O incômodo se tornou ainda mais intenso à medida que o maior insistia, lutava contra a resistência de seus músculos querendo logo inserir um segundo dedo.

-Respira fundo e relaxa. –O maior novamente ordenou com a voz carregada e grave, e Shion tentou obedecer, por mais difícil que lhe parecesse.

O menor suspirou e soluçou, gemeu em seguida sentindo uma dor fina enquanto o outro movia dois dedos em seu interior. Seu membro, todavia, reagia apesar do grande desconforto que sentia, e alguma espécie estranha de prazer percorreu seu corpo quando Nezumi pressionou alguma parte que desconhecia em seu interior, fazendo-o novamente gemer de maneira libidinosa, de novo e de novo, quantas vezes os dedos de Nezumi o quisessem fazer gemer. E talvez, por essas reações, o maior tivesse achado que Shion estava pronto, pois tão logo tirou seus dedos do interior do menor, sem maiores avisos, ergueu os quadris magros começou a penetrá-lo.

-Ahh! –Shion gritou em dor, sentindo como se seu corpo se partisse ante a repentina invasão.

Como reflexo, tentou mais uma vez se afastar, fugir do outro, mas as mãos de Nezumi apertavam firmemente seus quadris, as pontas dos dedos dele marcando suas nádegas em alguma espécie de desejo que o próprio moreno considerava doentio. Shion se debateu um pouco, ainda querendo se livrar, mas aquilo só fez com que Nezumi o segurasse com ainda mais força, provocando-lhe mais dor e não permitindo que se distanciasse um centímetro que fosse.

E, como se quisesse ver mais daquela dor, o moreno se forçou ainda mais a abrir o corpo do menor para si, fazendo-o gritar, marcando-o, tendo certeza de que ele jamais conseguiria esquecer de si.

Não queria que fosse daquela forma, mas, ainda assim, queria que Shion se lembrasse.

“Para sempre...”

E olhando profundamente nos olhos de Shion, Nezumi moveu-se para trás e para frente em seguida, ganhando ainda mais espaço dentro daquele corpo tão apertado e amado.

-Por favor, Nezumi! Está me machucando! –Shion exclamou em desespero e lágrimas enquanto olhava com receio para as íris sérias ainda sem brilho que o moreno ostentava. –Por favor, para... –Pediu enfim, de maneira fraca e triste.

Fraca porque sabia que não aguentaria mais aquilo. Talvez fosse apenas um molequinho medroso e ingênuo mesmo, como Nezumi sempre lhe dizia.

Triste porque, no fundo, não queria que Nezumi parasse. Por mais insuportável que fosse a dor, ele a desejava, pois era Nezumi quem a provocava. Por mais que sentisse seu corpo se rasgar graças a cada pequeno movimento, desejava aquele ato, pois aquela lhe parecia ser a única forma de os dois se tornarem um de fato.

Desejava a unidade, desejava ser de Nezumi.

Desejava.

-O que foi? Está com medo? –O maior perguntou logo após uma nova estocada, a voz tomada por uma ponta de crueldade e outra de prazer em se deixar envolver pelo calor e maciez do corpo menor, ambas características que não conseguiam sequer disfarçar seu sentimento de tristeza.

E, por não conseguir disfarçar, ele o deixava claro em mais um movimento brusco, enterrando-se completamente no delicioso e frágil corpo do menor, fazendo-o gritar novamente de pura dor.

-Não quer mais fazer sexo com o seu inimigo? –Nezumi provocou novamente, a raiva escorrendo por cada sílaba proferida, a cada movimento executado.

-Não... –Shion respondeu logo em seguida, baixo e com dificuldade, quase em meio a um novo soluço. -Eu quero me deitar com aquele que eu amo... –E tendo confessado, permitiu que seus braços enfim enlaçassem o corpo no maior, abraçando-o com força e necessidade quase inumanas enquanto se permitia chorar contra o peito dele. –Eu te amo, Nezumi...

Ao ouvir aquilo o moreno parou imediatamente de se mover.

Seus olhos arregalados externavam algo entre a surpresa e ódio que sentia de si próprio, como se só então se desse conta do crime que cometia – contra Shion e contra seus próprios sentimentos.

Saiu lentamente de dentro do menor e o abraçou de volta, puxando-o para si e levantando-o em seu colo em seguida. Encarou o chão de pedras sobre o qual deflorara quase forçadamente aquele que tanto amava, e vendo nele um vago resquício de sangue. Pela primeira vez em toda sua vida, sentiu sincera vontade de morrer.

Nezumi colocou com cuidado o corpo de Shion sobre sua cama e deu um leve beijo nos lábios dele. Ergueu-se em seguida e ficou realmente transtornado ao observar nas coxas dele discreta mancha avermelhada. Com o coração novamente ameaçando parar de bater, desejou fugir de seu crime e nunca mais encarar os olhos de Shion. Não queria acreditar que havia feito algo tão terrível com alguém que amava tanto.

Deu as costas para para o jovem de cabelos brancos e vasculhou o chão em busca de suas roupas.

Mas antes que pudesse dar qualquer passo, a mão do menor segurou seu pulso.

-Você não vai se deitar comigo? –Perguntou incerto, sua voz ainda trêmula por ação do choro, mas seu coração já um pouco mais calmo pelo singelo ato de gentileza que fora ser abraçado e carregado para a cama.

E aquele beijo, tão leve, mas tão repleto de sentimentos e significados.

“Como um pedido de desculpas...”

-Não, eu vou sair. –Nezumi respondeu. A voz grave ameaçando despencar a qualquer instante, tamanha dor que sentia em seu peito. –Acho que você aprendeu o suficiente, pode ir embora agora.

-Mas... –Shion apertou um pouco mais o pulso do outro. –Mas e você, Nezumi? –O jovem perguntou, aceitando qualquer desculpa para estender um pouco que fosse aquele último instante que teriam juntos. –Você ainda não... –Calou-se em vergonha, não conseguindo achar uma palavra para comentar o fato do moreno não ter gozado ainda.

-Eu não preciso. –O moreno disse seriamente enquanto puxava seu pulso, librando-se do toque de Shion e começando a recolher as próprias roupas.

Não se permitiu olhar para o menor uma vez que fosse.

-Mas...

-EU JÁ DISSE QUE NÃO! –Gritou aborrecido enquanto estourava o próprio punho dando um soco na parede.

-Nezumi, sua mão! –O menor levantou-se da cama rapidamente a fim de acudir o outro, mas tão logo suas mãos ameaçaram alcançar a pele de Nezumi, foram repelidas com um tapa.

-SE VOCÊ NÃO PERCEBE, EU TE MACHUQUEI, SEU IMBECIL! Eu... Eu nem mereço estar do seu lado, por que você continua insistindo nessas merdas? Por quê...? –A voz ainda irada saiu levemente trêmula, como se o choro se aproximasse perigosamente. –SE VOCÊ VAI EMBORA, POR QUE NÃO VAI DE UMA VEZ E PARA DE ME ENCHER O SACO?

O mais novo abaixou a cabeça e pensou seriamente em de fato ir embora de vez. Seria o correto a fazer dadas as circunstâncias, dado o quanto sua presença parecia perturbar o coração do outro.

Ainda assim, queria tentar.

-Me desculpa, mas eu quero, Nezumi... Eu realmente amo você, então... Por favor... –Shion pediu baixinho e enquanto abraçava por trás o moreno, permitindo que seu corpo desnudo mais uma vez se aquecer com a proximidade do moreno.

-Você está machucado.

-Eu não sou frágil, eu já aguentei dores maiores e sobrevivi... Porque você estava do meu lado...

-VOCÊ NÃO ENTENDEU AINDA!? –Perguntou repentinamente naquilo que pareceu a Shion um novo ataque de fúria, mas que na verdade só refletia o ódio que o moreno sentia de si próprio naquele instante. -Eu não quero te machucar... –Nezumi comentou baixinho em seguida, seu soluço engasgado saindo como um sussurro. -Eu nunca quis... te marcar assim... –Virou-se para encarar o menor e continuou sussurrando, seus dedos passando com leveza pelas marcas arroxeadas que havia deixando na face e no pescoço dele.

-Então... Pelo menos fique comigo, Nezumi... –O menor pediu de todo coração, e o moreno consentiu com um culpado meneio de cabeça. Os dois andaram juntos até a estreita cama com passos lentos e incertos.

Shion deitou-se primeiro, e com um olhar pediu para que Nezumi se deitasse também. O maior o fez e puxou para cima de ambos os pesados cobertores.

E em seguida, o abraçou.

Abraçou Shion com todo carinho possível, com todo cuidado, com todo arrependimento e com toda a genuína vontade de protegê-lo – do mundo e de si próprio. Beijou a testa dele e com a mão direita começou a acariciar os cabelos prateados.

E cantou.

Começou a cantar baixinho, a voz falha e repleta de dor, mas ainda assim doce e agradável de se ouvir. Tratava-se de um romântico canto de uma ópera antiga em uma língua que o menor desconhecia, mas que ainda assim conseguiu transmitir a ele todo o sentimento com o qual era entoada. Como se fosse a sua cantiga de amor um réquiem, Nezumi seguiu cantando de maneira lúngubre e afagando os brancos e macios cabelos do menor até que ambos caíssem no sono, e que secasse em sua face as discretas lágrimas das quais Shion jamais haveria de saber.

Na manhã seguinte, Shion despertou sozinho na cama, encontrando apenas um bilhete ao seu lado. Tratou de lê-lo e, sendo segurado por suas mãos trêmulas, o papel logo teve a tinta da caneta manchada pelas salgadas lágrimas do garoto.

-

“Chegando o amanhecer sombrio,
Verás o meu lugar vazio,
Que será sempre frio e quedo.
Como os outros pela suavidade,
Eu sobre a tua mocidade,
Quero reinar mais pelo medo”

Por favor, não esteja aqui quando eu voltar.

Desejo que nossos caminhos nunca mais se cruzem.

Com amor,

Nezumi