sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Arthur e João Pedro



Bem, como é fim de ano, gostaria de marcar esse dia com dois contos que acabei de escrever. Eu pessoalmente os achei bem bonitos... espero que gostem.
Beijos e todos os bons desejos,
Samila.


Arthur

“Que lindas mãos ele tem.”

Esse foi meu primeiro pensamento sobre o Arthur.

Eram mãos grandes e bem cuidadas, ornadas por dedos magros e longos, e uma aliança de ouro no dedo anelar esquerdo. Pareciam de alguma maneira ser mãos severas e macias, e se tornava ainda mais belas quando entravam contato com as teclas de marfim branco pertencentes ao piano alemão do restaurante onde eu trabalhava como barman.

Preciosas mãos dotadas de magia, que só se exibiam em todo esplendor quando seu cuidadoso dono encontrava-se sentado ao centro do salão, bem abaixo da antiga luminária de cristal, encantando a todos com sua música.

Eu amei aquelas mãos de imediato.

E logo depois amei-o como um todo.

Amei sua postura austera e impecavelmente reta. O olhar castanho e rígido, parecendo levemente arrogante e audaz para aqueles que não o conheciam. Amei o corpo alto, magro e elegante, aparentemente frágil; os cabelos um tanto grisalhos, impecavelmente penteados e arrumados. As roupas sempre formais e bem passadas, com vincos perfeitos nas calças e notável lustre nos sapatos pretos.

E as mãos e a magia.

E a magia que se estendia à sua fala, que mesmo adaptada ao português do Brasil, ainda possuía notável sotaque britânico. Amei ouvi-lo falar tão calmamente, tão convincentemente. Amei o seu tom e o seu timbre, os quais conseguiam soar contidos e carregados ao mesmo tempo; a maneira esquisita como ele pronunciava o próprio nome ao se apresentar. Achei incrível como ele conseguia falar de maneira tão altiva e doce ao mesmo tempo, sempre tão sábio e agradável.

Amei tanto.

Amei conhecer sua casa, tomar chá amargo e forte com ele; tornar-me seu amigo, descobrir coisas sobre sua vida. Amei saber que fazíamos aniversário no mesmo dia, saber da sua vinda traumática ao Brasil, da sua viuvez prematura, da perda de uma filha de oito anos. Do declíneo de uma carreira promissora e até de uma tentativa de suicídio.

Amei tocar-lhe os largos ombros, abraçar-lhe o magro corpo, enxugar-lhe as tristes lágrimas, beijar-lhe as sinceras cicatrizes, sentir-lhe os secos lábios.

Amei até quando ele me afastou ofegante e exasperado, quando disse que aquilo estava errado, que éramos ambos homens, que eu tinha idade para ser seu filho. Que não, não e ponto final.

Amei rebater seus argumentos, insistir, convencer, implorar por uma chance. Amei pedir perdão e dizer que não mais faria o que meu coração imperava. Amei mentir para ele nesse aspecto e ter meu sono tomado por angustiantes pesadelos e intermináveis momentos de insônia.

Amei receber seu abraço, suas novas lágrimas, seu pedido de desculpas. A explicação por sua insegurança e falta de jeito.

Amei ouvi-lo tocar Bach e Chopin só para mim; amei ouvi-lo rir de uma piada sem graça após beber uns coquetéis que eu inventei. Amei testemunhar a sutileza presente no humor inglês; ouvi-lo recitar em inglês um poema do Lord Byron; ver seus olhos incertos finalmente me encarando de maneira intensa; ver sua face tão serena finalmente corar graças a um toque superficial.

Amei vê-lo desviar o olhar e por fim fechar os olhos para receber um novo beijo meu. Sentir as amadas mãos subindo por meus braços, adentrando minha camisa, tocando-me com calma e fulgor ao mesmo tempo. Amei sentir o carinho emanado a cada sussurro, ouvir suave voz falar baixinho que me amava, que me queria.

Amei desabotoar calmamente sua camisa de linho, observar meus próprios dedos trêmulos descobrindo finalmente seu tronco pálido; tirar as calças e sapatos, apertar as coxas alvas, sentir a pele se arrepiar, sentir o sabor da mesma. Amei tocá-lo e tê-lo por inteiro; entregar-me a ele sem receios ou vergonhas; ouvir novos sussurros e inéditos gemidos. Ter as amadas mãos agarrando meus cabelos, as unhas aparadas roçando a minhas costas.

Amei senti-lo em mim.

Senti-lo me apertar contra seu corpo.

Sentir sua respiração suavizando-se aos poucos enquanto acariciava meu peito.

Amei passar noites e mais noites ao seu lado, costurar os botões que eu mesmo arrancava. Abraçá-lo durante a noite, após reclamar de seu ronco. Roubar-lhe um beijo quando não tinha ninguém olhando. Amei levá-lo a um motel, realizar algumas fantasias que ele jamais teve capacidade de externar; andar de mãos dadas de noite em ruas tranqüilas, poder chamá-lo de ‘amor’.

Amei ver o tempo passar lentamente, assistir ao lado dele os filmes de drama antigos e as ondas se quebrando calmamente contra a praia. Amei comemorar com ele nossos aniversários, ajudá-lo a assumir para a irmã mais velha o nosso relacionamento, vê-lo se apresentar no teatro municipal, aplaudí-lo de pés.Consegui amar até mesmo as lágrimas derramadas no aniversário do falecimento de sua esposa. Amei o bicho de pelúcia que compramos e deixamos no cemitério no dia que fomos visitar sua filha.

Amei compartilhar histórias, momentos, pequenas brigas motivadas por ciúme.

Amei tudo.

Mas amei, sobretudo, a certeza de que vou amá-lo eternamente.





João Pedro

Vinte e seis anos.

Esta é hoje a exata quantidade do tempo dele.

Essa será para sempre a exata diferença de tempo a nos separar.

Mas mesmo assim, eu escolhi acreditar.

Eu confesso que a minha idade nunca foi, a meu ver, um assunto digno de maiores atenções. Sempre fui um conformado por excelência, e o destino, este infeliz, fez questão de marcar ainda mais esta característica na minha personalidade. Estava de bem comigo mesmo e com esse negócio de envelhecer. Medo da morte foi algo que eu perdi ainda jovem, no mesmo momento em que a vida pareceu perder qualquer sentido.

Mas isso mudou depois que o João Pedro passou a fazer parte do meu cotidiano, especialmente depois que ele começou a demonstrar peculiar interesse por mim. Era fácil compreender o motivo de minha consequente inquietude: ele poderia ser meu filho, oras! Aliais, minha filha teria quase a idade dele, se ainda estivesse viva.

Minha mente foi logo invadida por inúmeras indagações, afinal, o que estaria aquele ‘menino’ querendo com um ‘tio’ como eu? O que eu poderia ter de interessante e atrativo a alguém tão jovem? Caso fosse dinheiro, bem, ele havia encontrado o cara errado, afinal eu não passava de um pianista falido que levava a vida tocando em festas de casamento e restaurantes elegantes... Mas disso ele deveria saber, afinal, foi num restaurante desses que nos conhecemos.

Eu, o pianista, ele, o jovem e belo barman que incentivava as mulheres a se levantarem de suas mesas a cada cinco minutos em busca de drinks e visões que lhes clareassem os olhos. Forte, negro, jeito de surfista, andar leve e descontraído. Sempre sorridente, simpático ao extremo, de voz grave a fala alegre.

Meu total oposto.

Sempre fui anti-social, do tipo que prefere a companhia silenciosa de uma xícara de chá e melodiosa de um bom piano alemão. E o quesito estético eu deixei de atender há alguns anos, muito embora na minha juventude fosse considerado um rapaz de grande formosura.

O tempo se mostrou um inimigo ingrato. Ele vem com pressa e requintes de crueldade; deixa a pele já não tão viçosa, os músculos já não tão fortes, as mãos já não tão belas e os olhos já não tão brilhantes. Ele, o maldito tempo que te obriga a ter diária decepção, toda vez que se encara o espelho.

O maldito tempo que criou a invisível e sensata barreira que se coloca entre nós.

O maldito tempo que não me permitia compreender, tampouco aceitar os motivos de João Pedro.

Por que ele seguia me convidando, seguindo-me, olhando-me, tentando-me? Em qual aspecto eu poderia ser desejável? Como alguém como eu poderia ainda ser amado?

Essas perguntas me torturavam a cada a cada anoitecer, a cada intenso olhar negro recebido, a cada convite licencioso, a cada singela declaração.

Mas minha principal angústia, até hoje, é não compreender como eu me permiti acreditar neste amor e por fim embarcar nesse sonho... Logo eu, sempre tão maduro e precavido... Quando foi que a solidão se apossou de tal maneira de minha alma, ao ponto de me obrigar a abandonar todos meus conceitos, tudo aquilo que eu conhecia como moral?

Aquilo não estava errado?

E aquele erro não ia além da nossa simples diferença de idade?

Afinal, onde estavam minhas dúvidas sobre a integridade de um relacionamento entre dois homens? Onde estavam meus ensinamentos de infância recebidos na Igreja Anglicana? E minhas preocupações a respeito da opinião das pessoas, da sociedade, de Deus?

Engraçado, pois hoje os únicos questionamentos que ainda me perseguem são exatamente os primeiros que tive. A sociedade e Deus ficaram como preocupações secundárias. O que permanece é apenas a sombra do tempo. Maldito tempo que serve apenas para me mostrar o quão imaturo e pequeno eu sou de fato, indigno de toda admiração que vejo no brilho dos olhos dele, nas suas carinhosas palavras, nos seus cálidos toques.

Chega a ser patético –especialmente para um homem de minha idade- flagrar-me muitas vezes com lágrimas prestes a rolar, desesperado para conseguir pensar que algo que me torne melhor, algo mais digno dos sorrisos que ele me lança toda vez que nos vemos; da voz forte que volta e meia me presenteia com juras de amor eterno. Da mera presença que me encanta, dos abraços e beijos que me envolvem. Do cheiro másculo que me prende e intoxica, da pele escura que me acalma e acalenta. Da sua beleza que me deixa tão inseguro, tomado pelo insuportável medo de um dia perdê-lo. Por fim, meu maior desejo é fazer jus a tudo que torna mais tangível o medo que ele um dia note que eu não sou nada, que ele merece um homem melhor, que ele não tem porque escutar desta sociedade tola coisas piores do que ele escutaria se estivesse com alguém da sua idade.

Tenho medo que um dia ele note que eu, como afirmam seus amigos, realmente sou velho demais, que ele não tem porque sair ‘catando velho por aí’. Tenho medo que com isso ele vá embora, deixe-me sozinho, despido do calor daqueles carinhos; sem a mão para segurar nas noites frias, nas ruas desertas. Medo de um dia não ter aquela pele contra a minha, não ter aquele corpo forte na minha cama, não ter aqueles olhos olhando os meus... Não ter seu riso me alegrando, e a sua voz me acordando de um dos meus tantos devaneios...

“O que houve, ‘Thur?”

Medo de um dia não poder encarar sua bela face levemente preocupada. Medo de não poder sorrir e responder-lhe:

“Nada, amor...”

Medo de não ver mais a desconfiança que o intriga, como se eu fosse uma criança aprontando algo. Medo de não ter o momento de silêncio que me obriga a falar mais:

“Estava a pensar se não estou velho demais... Ando meio cansado.”

Medo de não poder ouvi-lo suspirar em reprovação, medo de não ver nunca mais seus traços se contorcerem levemente em já conhecido e brando tipo de malícia.

“É? Você não parecia nada cansado ontem de noite...”

Medo de nunca mais poder rir com você, fazer piada, provocar também:

“Hum, mas não é melhor nós testarmos, para termos a certeza que eu não envelheci de ontem para hoje?”

Medo.

4 comentários:

  1. nossa , estou chocada .. não pelo tema , nem nada desse tipo , apenas pela qualidade do texto !
    meus parabéns , ficaram muito bons ..

    acreditaria se eu dissesse que eu só percebi a ligação entre os dois textos depois que terminei o segundo ? essas pessoas distraídas ..

    enfim , estou sem palavras , muito bom mesmo ! se bem que eu gostei mais do primeiro texto do que do segundo ! o jeito com que o personagem conta as situações que ele viveu é mais .. cativante , assim digamos .. quero dizer , o primeiro texto me prendeu mais a atenção e me deu mais aquela vontade de chegar ao final do que o segundo , talvez por ser mais doce , mais sutil , cheio da ingenuidade juvenil , enquanto o segundo me pareceu dramático demais para meu gosto , não só dramático , mas sombrio também .. são os dois lados da moeda , né ? mas gostei dos dois , parabéns !



    já que estamos falando de contos , te convido a participar do Prêmio Literário 2011 [http://ppliterario.blogspot.com] , se você assim o quiser !

    beijão , e novamente parabéns pelos contos !

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  2. Muito obrigada, Luu! que bom que gostaste dos textos! eu também gosto mais do primeiro, mais doce e feliz ^^
    e nossa, fiquei muito contente com o convite! comparecerei, pode deixar!
    Beijos, e novamente obrigada!

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  3. Samila, parabéns pela publicação destes dois textos. Gostei da dramaticidade insegura e triste, quase desesperada, que deixaste no personagem mais maduro.
    Um estilo que te caiu muito bem! Beijo.

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  4. Adorei esse. Tão real, tão quente, tão bonito!

    Foi tudo tão bem desenvolvido, tão bem feito que me deixou de queixo caido. Adoro o estilo de como escreve, e fiquei particularmente emocionado com a segunda história.

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