sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Arthur e João Pedro



Bem, como é fim de ano, gostaria de marcar esse dia com dois contos que acabei de escrever. Eu pessoalmente os achei bem bonitos... espero que gostem.
Beijos e todos os bons desejos,
Samila.


Arthur

“Que lindas mãos ele tem.”

Esse foi meu primeiro pensamento sobre o Arthur.

Eram mãos grandes e bem cuidadas, ornadas por dedos magros e longos, e uma aliança de ouro no dedo anelar esquerdo. Pareciam de alguma maneira ser mãos severas e macias, e se tornava ainda mais belas quando entravam contato com as teclas de marfim branco pertencentes ao piano alemão do restaurante onde eu trabalhava como barman.

Preciosas mãos dotadas de magia, que só se exibiam em todo esplendor quando seu cuidadoso dono encontrava-se sentado ao centro do salão, bem abaixo da antiga luminária de cristal, encantando a todos com sua música.

Eu amei aquelas mãos de imediato.

E logo depois amei-o como um todo.

Amei sua postura austera e impecavelmente reta. O olhar castanho e rígido, parecendo levemente arrogante e audaz para aqueles que não o conheciam. Amei o corpo alto, magro e elegante, aparentemente frágil; os cabelos um tanto grisalhos, impecavelmente penteados e arrumados. As roupas sempre formais e bem passadas, com vincos perfeitos nas calças e notável lustre nos sapatos pretos.

E as mãos e a magia.

E a magia que se estendia à sua fala, que mesmo adaptada ao português do Brasil, ainda possuía notável sotaque britânico. Amei ouvi-lo falar tão calmamente, tão convincentemente. Amei o seu tom e o seu timbre, os quais conseguiam soar contidos e carregados ao mesmo tempo; a maneira esquisita como ele pronunciava o próprio nome ao se apresentar. Achei incrível como ele conseguia falar de maneira tão altiva e doce ao mesmo tempo, sempre tão sábio e agradável.

Amei tanto.

Amei conhecer sua casa, tomar chá amargo e forte com ele; tornar-me seu amigo, descobrir coisas sobre sua vida. Amei saber que fazíamos aniversário no mesmo dia, saber da sua vinda traumática ao Brasil, da sua viuvez prematura, da perda de uma filha de oito anos. Do declíneo de uma carreira promissora e até de uma tentativa de suicídio.

Amei tocar-lhe os largos ombros, abraçar-lhe o magro corpo, enxugar-lhe as tristes lágrimas, beijar-lhe as sinceras cicatrizes, sentir-lhe os secos lábios.

Amei até quando ele me afastou ofegante e exasperado, quando disse que aquilo estava errado, que éramos ambos homens, que eu tinha idade para ser seu filho. Que não, não e ponto final.

Amei rebater seus argumentos, insistir, convencer, implorar por uma chance. Amei pedir perdão e dizer que não mais faria o que meu coração imperava. Amei mentir para ele nesse aspecto e ter meu sono tomado por angustiantes pesadelos e intermináveis momentos de insônia.

Amei receber seu abraço, suas novas lágrimas, seu pedido de desculpas. A explicação por sua insegurança e falta de jeito.

Amei ouvi-lo tocar Bach e Chopin só para mim; amei ouvi-lo rir de uma piada sem graça após beber uns coquetéis que eu inventei. Amei testemunhar a sutileza presente no humor inglês; ouvi-lo recitar em inglês um poema do Lord Byron; ver seus olhos incertos finalmente me encarando de maneira intensa; ver sua face tão serena finalmente corar graças a um toque superficial.

Amei vê-lo desviar o olhar e por fim fechar os olhos para receber um novo beijo meu. Sentir as amadas mãos subindo por meus braços, adentrando minha camisa, tocando-me com calma e fulgor ao mesmo tempo. Amei sentir o carinho emanado a cada sussurro, ouvir suave voz falar baixinho que me amava, que me queria.

Amei desabotoar calmamente sua camisa de linho, observar meus próprios dedos trêmulos descobrindo finalmente seu tronco pálido; tirar as calças e sapatos, apertar as coxas alvas, sentir a pele se arrepiar, sentir o sabor da mesma. Amei tocá-lo e tê-lo por inteiro; entregar-me a ele sem receios ou vergonhas; ouvir novos sussurros e inéditos gemidos. Ter as amadas mãos agarrando meus cabelos, as unhas aparadas roçando a minhas costas.

Amei senti-lo em mim.

Senti-lo me apertar contra seu corpo.

Sentir sua respiração suavizando-se aos poucos enquanto acariciava meu peito.

Amei passar noites e mais noites ao seu lado, costurar os botões que eu mesmo arrancava. Abraçá-lo durante a noite, após reclamar de seu ronco. Roubar-lhe um beijo quando não tinha ninguém olhando. Amei levá-lo a um motel, realizar algumas fantasias que ele jamais teve capacidade de externar; andar de mãos dadas de noite em ruas tranqüilas, poder chamá-lo de ‘amor’.

Amei ver o tempo passar lentamente, assistir ao lado dele os filmes de drama antigos e as ondas se quebrando calmamente contra a praia. Amei comemorar com ele nossos aniversários, ajudá-lo a assumir para a irmã mais velha o nosso relacionamento, vê-lo se apresentar no teatro municipal, aplaudí-lo de pés.Consegui amar até mesmo as lágrimas derramadas no aniversário do falecimento de sua esposa. Amei o bicho de pelúcia que compramos e deixamos no cemitério no dia que fomos visitar sua filha.

Amei compartilhar histórias, momentos, pequenas brigas motivadas por ciúme.

Amei tudo.

Mas amei, sobretudo, a certeza de que vou amá-lo eternamente.





João Pedro

Vinte e seis anos.

Esta é hoje a exata quantidade do tempo dele.

Essa será para sempre a exata diferença de tempo a nos separar.

Mas mesmo assim, eu escolhi acreditar.

Eu confesso que a minha idade nunca foi, a meu ver, um assunto digno de maiores atenções. Sempre fui um conformado por excelência, e o destino, este infeliz, fez questão de marcar ainda mais esta característica na minha personalidade. Estava de bem comigo mesmo e com esse negócio de envelhecer. Medo da morte foi algo que eu perdi ainda jovem, no mesmo momento em que a vida pareceu perder qualquer sentido.

Mas isso mudou depois que o João Pedro passou a fazer parte do meu cotidiano, especialmente depois que ele começou a demonstrar peculiar interesse por mim. Era fácil compreender o motivo de minha consequente inquietude: ele poderia ser meu filho, oras! Aliais, minha filha teria quase a idade dele, se ainda estivesse viva.

Minha mente foi logo invadida por inúmeras indagações, afinal, o que estaria aquele ‘menino’ querendo com um ‘tio’ como eu? O que eu poderia ter de interessante e atrativo a alguém tão jovem? Caso fosse dinheiro, bem, ele havia encontrado o cara errado, afinal eu não passava de um pianista falido que levava a vida tocando em festas de casamento e restaurantes elegantes... Mas disso ele deveria saber, afinal, foi num restaurante desses que nos conhecemos.

Eu, o pianista, ele, o jovem e belo barman que incentivava as mulheres a se levantarem de suas mesas a cada cinco minutos em busca de drinks e visões que lhes clareassem os olhos. Forte, negro, jeito de surfista, andar leve e descontraído. Sempre sorridente, simpático ao extremo, de voz grave a fala alegre.

Meu total oposto.

Sempre fui anti-social, do tipo que prefere a companhia silenciosa de uma xícara de chá e melodiosa de um bom piano alemão. E o quesito estético eu deixei de atender há alguns anos, muito embora na minha juventude fosse considerado um rapaz de grande formosura.

O tempo se mostrou um inimigo ingrato. Ele vem com pressa e requintes de crueldade; deixa a pele já não tão viçosa, os músculos já não tão fortes, as mãos já não tão belas e os olhos já não tão brilhantes. Ele, o maldito tempo que te obriga a ter diária decepção, toda vez que se encara o espelho.

O maldito tempo que criou a invisível e sensata barreira que se coloca entre nós.

O maldito tempo que não me permitia compreender, tampouco aceitar os motivos de João Pedro.

Por que ele seguia me convidando, seguindo-me, olhando-me, tentando-me? Em qual aspecto eu poderia ser desejável? Como alguém como eu poderia ainda ser amado?

Essas perguntas me torturavam a cada a cada anoitecer, a cada intenso olhar negro recebido, a cada convite licencioso, a cada singela declaração.

Mas minha principal angústia, até hoje, é não compreender como eu me permiti acreditar neste amor e por fim embarcar nesse sonho... Logo eu, sempre tão maduro e precavido... Quando foi que a solidão se apossou de tal maneira de minha alma, ao ponto de me obrigar a abandonar todos meus conceitos, tudo aquilo que eu conhecia como moral?

Aquilo não estava errado?

E aquele erro não ia além da nossa simples diferença de idade?

Afinal, onde estavam minhas dúvidas sobre a integridade de um relacionamento entre dois homens? Onde estavam meus ensinamentos de infância recebidos na Igreja Anglicana? E minhas preocupações a respeito da opinião das pessoas, da sociedade, de Deus?

Engraçado, pois hoje os únicos questionamentos que ainda me perseguem são exatamente os primeiros que tive. A sociedade e Deus ficaram como preocupações secundárias. O que permanece é apenas a sombra do tempo. Maldito tempo que serve apenas para me mostrar o quão imaturo e pequeno eu sou de fato, indigno de toda admiração que vejo no brilho dos olhos dele, nas suas carinhosas palavras, nos seus cálidos toques.

Chega a ser patético –especialmente para um homem de minha idade- flagrar-me muitas vezes com lágrimas prestes a rolar, desesperado para conseguir pensar que algo que me torne melhor, algo mais digno dos sorrisos que ele me lança toda vez que nos vemos; da voz forte que volta e meia me presenteia com juras de amor eterno. Da mera presença que me encanta, dos abraços e beijos que me envolvem. Do cheiro másculo que me prende e intoxica, da pele escura que me acalma e acalenta. Da sua beleza que me deixa tão inseguro, tomado pelo insuportável medo de um dia perdê-lo. Por fim, meu maior desejo é fazer jus a tudo que torna mais tangível o medo que ele um dia note que eu não sou nada, que ele merece um homem melhor, que ele não tem porque escutar desta sociedade tola coisas piores do que ele escutaria se estivesse com alguém da sua idade.

Tenho medo que um dia ele note que eu, como afirmam seus amigos, realmente sou velho demais, que ele não tem porque sair ‘catando velho por aí’. Tenho medo que com isso ele vá embora, deixe-me sozinho, despido do calor daqueles carinhos; sem a mão para segurar nas noites frias, nas ruas desertas. Medo de um dia não ter aquela pele contra a minha, não ter aquele corpo forte na minha cama, não ter aqueles olhos olhando os meus... Não ter seu riso me alegrando, e a sua voz me acordando de um dos meus tantos devaneios...

“O que houve, ‘Thur?”

Medo de um dia não poder encarar sua bela face levemente preocupada. Medo de não poder sorrir e responder-lhe:

“Nada, amor...”

Medo de não ver mais a desconfiança que o intriga, como se eu fosse uma criança aprontando algo. Medo de não ter o momento de silêncio que me obriga a falar mais:

“Estava a pensar se não estou velho demais... Ando meio cansado.”

Medo de não poder ouvi-lo suspirar em reprovação, medo de não ver nunca mais seus traços se contorcerem levemente em já conhecido e brando tipo de malícia.

“É? Você não parecia nada cansado ontem de noite...”

Medo de nunca mais poder rir com você, fazer piada, provocar também:

“Hum, mas não é melhor nós testarmos, para termos a certeza que eu não envelheci de ontem para hoje?”

Medo.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O Fim


Aquele era o fim.

E mesmo diante do fim, ele sorria.

Não se importava com o fato de estar lá, tampouco com o estado no qual se encontrava. O braço direito, quebrado, doía demais, mas ele não deixaria de sorrir por causa disso. Também, pouco lhe importava o terno italiano todo rasgado e sujo de sangue. Talvez tivesse uma bala alojada em seu ombro... Lembrava-se vagamente de ter levado um tiro lá, mas isso não importa. Não mesmo. Nada que fosse material poderia importar no derradeiro e último momento.

Afinal, aquilo era uma guerra entre duas forças opostas. E se uma ganhava, a outra invariavelmente perdia.

Ele tinha perdido daquela vez, então tinha que aceitar.

Suspirou quase alegremente, satisfeito com o desfecho de tudo, mesmo que o ato fizesse com que seus pulmões doessem. Respirou fundo, consumindo o ar denso e fedorento do beco sujo e mal iluminado. Cheiro de poluição e esgoto. Cheiro de esterco e lixo humano.

Cheiro daquilo que mais odiava. Daquele rebanho sórdido e daquela cidade corrupta e obscena.

Não mais obscena e sórdida que o seu sorriso.

Fechou então os olhos a fim de poder ouvir melhor. Sua visão estava turva, então melhor seria ouvir os passos que vinham solenemente em sua direção. Fortes, calmos e impiedosos, tais quais os da morte.

Soltou um novo riso, tão cínico e zombeteiro...

Tão seu.

Abriu seus olhos e encarou a grande imponente figura diante de si. As vestes pretas deveriam indicar um mau-presságio, uma razão para desespero. A compleição circunspeta deveria ser capaz de afugentar seu sorriso.

Não era.

Passou a mãos pelos cabeços, deixou-a descer pelo rosto de traços angulosos. Acariciou por um instante as próprias cicatrizes e por fim, mordendo a ponta do dedo médio, tirou a luva da mão esquerda.

Encarou o outro.

Encarou a feição de desgosto e nojo que ele ostentava. Riu. Não resistiu e então perguntou:

-Por que está tão sério, Batman? Não quer mais brincar, é? –Falou de maneira hilariamente perversa, a voz grave e sacana saindo como o sussurro de uma heresia. Não que se importasse. Nem cristão era, mesmo. Não mesmo.

A resposta recebida fora um resmungo que saiu como um rugido baixo e raivoso. E mais dois passos.

E mais um passo.

O Cavaleiro das Trevas deu por fim um mínimo sorriso. Sorriso de canto, quase falso, tão raro.

Tão impossível.

Abaixou-se querendo de ficar na mesma altura do outro, o qual se encontra quase jogado de qualquer jeito no chão, escorado em uma parede. Encarou o sorriso e as cicatrizes. Os olhos escuros e a maquiagem mal feita que escorria por efeito do suor e do sangue. Sentiu um prazer quase sádico naquilo. Gostava de ver seu inimigo naquele estado de decadência. Melhor do que aquilo, só mesmo se estivesse amarrado em uma camisa-de-força, trancafiado na cela acolchoada e branca de um manicômio, recebendo suas três doses diárias de anti-pisicóticos e tranquilizantes. Pensando naquilo, seu imperceptível sorriso se tornou um pouco mais evidente, parecendo estimular também o largo sorriso de Coringa, que agora deixava as mãos trêmulas de dor e ansiedade começarem a desfazer o nó da própria gravata.

Afinal, o herói de Gothan City não era tão bonzinho quanto acreditavam.

E em toda sua serenidade, Batman observou o pescoço inacreditavelmente pálido. Levou a mão direita até aquela fragilidade. Apertou-o, apenas o suficiente para que o ar se tornasse ainda mais escasso ao seu inimigo, apenas o suficiente para sentir a vida dele pulsando dentro das veias e artéria.

Apenas o suficiente para conter sua vontade de quebrá-lo.

Mas não o suficiente para impedir que a voz dele saísse levemente esganiçada, totalmente irritante.

-Oh, o Deus Batman está encostando suas santas mãos em mim...

A pressão contra o pescoço foi aumentada, e o palhaço obrigado a se calar. Mas nada surtiria efeito contra o sorriso dele.

E então o terno foi aberto, a camisa rasgada e o braço quebrado dolorosamente deslocado, afim de que as roupas pudessem ser banidas. O Coringa gritou, finalmente, por causa da dor. Não que ele realmente se importasse, é claro. Afinal, a dor era importante. Ela era a prova da realidade, a prova que não se tratava de uma mera alucinação. A dor era o prazer da certeza de que era Batman lá, diante de si, despindo-o e enfiando as unhas na sua carne. Porque aquele era um jogo sinistro e secreto, no qual o vencedor ganhava tudo. Um jogo perverso e erótico que envolvia apenas destruir e devastar. E morder, e tocar e agarrar.

E por fim, tomar.

Batman era o vencedor naquela noite, e por isso agora tomava seu prêmio. Tirava seu uniforme e as roupas do seu inimigo, restando-lhe apenas sua máscara. Porque a mascara não poderia cair, nunca. Fosse ela a máscara negra que cobria o rosto de Batman ou a mascara do ódio presente em cada toque ríspido. Estava lá, intacta, mesmo enquanto e esfregava a cara de seu inimigo no chão e então o tomava com raiva e violência, querendo provocar-lhe quanta dor fosse possível. Querendo arrancar-lhe os cabelos, cortar-lhe a pele, sentir o aroma e o sabor do sangue dele.

Querendo sobretudo marcá-lo, mostrar a ele que não podia brincar com certas coisas, principalmente com certas pessoas. Principalmente com ele. Não conteve a raiva, a vontade e o desejo. Disse:

-Você é meu, seu desgraçado.

A resposta foi um riso. O mesmo riso insano de sempre, agora envolto pelos gemidos do sexo bruto e sádico. Um riso tão debochado, tão depravado que Batman sentiu qualquer compaixão deixar seu corpo. Utilizou-se de mais força, querendo a todo custo tirar aquele sorriso nojento da cara dele. Querendo loucamente, mesmo sabendo que era em vão, pois a cada estocada funda e forte, o maldito palhaço apenas ria mais, e gemia mais, e gostava mais.

Agarrou-o pelo braço quebrado e mordeu-lhe o ombro baleado. Ouviu com deleite os ecos do grito espalhando-se pelo beco.

O grito do êxtase, e nada mais.

E um sentimento.

Um sentimento escondido em meio às torrentes de raiva e ódio. Um sentimento que ia além da fixação, do delírio de possuir algo que jamais poderia lhes pertencer. A sensação de uma vingança realizada a cada movimento ou gemido.

A cada gota de sêmen derramada.

O herói esperou apenas sua respiração se normalizar e deixou o corpo do palhaço sem falar nada. Vestiu-se, tanto de suas roupas quanto da sua indiferença. Não havia nada a ser dito. Aquele era o fim, simplesmente isso. O fim e nada mais.

Porque aquele era o fim, mas muitos outros fins estavam por vir, ainda.

Era aquela certeza que mantinha o Batman em sua infindável batalha sem rumo ou futuro.

Era aquela certeza que mantinha o Coringa com infindáveis piadas que não divertiam a ninguém senão a si mesmo.

E aquilo bastava para ambos, pelo menos enquanto houvesse a certa que mais finais como aquele viriam. Pois sabiam muito bem que não conseguiriam jamais viver um sem o outro.

Batman ameaçou ir embora, o Coringa o chamou.

-Hey, vem cá... Deixa eu te contar um segredo... –Fez um sinal com a cabeça para que o outro se abaixasse, e assim foi feito. Aproveitou-se da proximidade e beijou nos lábios o seu inimigo.

E logo em seguida recebeu um soco na cara, como um aviso para que nunca mais fizesse aquilo.

Apenas riu, lambendo com gosto o sangue que lhe saia dos lábios estourados, e antes que o herói pudesse ir, o palhaço ainda o disse:

-Até a próxima, docinho... Prepara o rabo que vai ser minha vez.

E nisso a risada histérica se propagou pelo beco.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Lançamento da antologia Sinistro! 2

Hello!
Postzinho rápido para divulgar o lançamento da antologia Sinistro! 2, na qual eu estarei participando com o conto 'A canção do carrasco' - o qual, modéstia a parte, ficou muito legal.

O lançamento será na Bienal, dia 21 de Agosto, às 16:00, lá no stand da Editora Multifoco.

Estarei lá, louca para conhecer os leitores ^^

Olhem a capa do livro:

O Espelho



O espelho

Eu olhava fixamente para o espelho, compenetrado.
Espelhos não costumavam mentir. Pelo menos, não enquanto eu ainda estava vivo.
Mas agora, depois de tanto tempo, eu era capaz de analisar melhor. O que eram os espelhos, senão instrumentos da ilusão? Era cômodo pensar que eles podiam refletir tudo, e com exatidão. Era cômodo demais, tanto que ninguém se aborrecia com o fato de que eles mostravam tudo ao contrário. Era aceitável mexer o braço esquerdo, e ver o braço direito do reflexo movendo-se. Absurdo! Mas compreensível.
Ninguém se importava de ser enganado, não... Qual o problema de ser enganado, afinal? Desde que pudessem continuar a alimentar as vaidades em ilusões belas e bem montadas, não haveria problema algum. Calvin pelo menos parecia adorar espelhos, uma vez que o apartamento estava repleto deles. Talvez o ajudassem a se lembrar da sua humanidade perdida... Ou talvez o ajudassem a ver quando a Fera estava ganhando espaço... Eram inúmeras as possibilidades, e não cabia a mim ficar teorizando.
Mas o fato era que os espelhos não mostravam tudo.
O espelho mostrava a minha face, repleta da formosura da sua juventude. Uma face que não mudaria, que estava fadada a ser eterna... “Pela preservação da beleza...” –Eu ri, ao pensar no que Calvin diria.
Sim... Minha face era bela, mas não era a única.
Havia outra face, oculta. Uma face que me observava, que me falava, que ria de mim. Uma face que me acompanhava aonde quer que eu fosse, por debaixo da minha pele, escondida na minha carne. A face estava aqui, eu sabia. Eu podia ouvi-la, eu podia senti-la.
O espelho era inútil. Ele não mostrava tudo.
Pelo menos, não como ele estava... Tão plano, tão correto... Programado para mostrar uma imagem de perfeição... Uma perfeição distorcida, diga-se de passagem... Mas de uma distorção incapaz de mostrar as outras distorções existentes.
Mas eu queria ver a distorção da minha mente... Queria ver aquela face oculta, queria tocá-la, senti-la em meus dedos... Talvez se eu conseguisse tirá-la daqui, de dentro da minha carne, ela pudesse me explicar o que fazia aqui em primeiro lugar, não?
Talvez.
Talvez eu pudesse encontrar um jeito de fazê-la sair, mostrar-se... Eu queria encará-la, queria perguntar tantas coisas...
Talvez ela pudesse aliviar toda essa angústia que constringia meu coração e essa pressão que ameaçava partir meu crânio.
Talvez.
O baque foi surdo a princípio, mas resultou em uma esplendorosa sinfonia de sons agudos. Os cacos caiam no chão, tilintando belamente para então partirem-se em mais pedacinhos. Centenas deles, brilhando, refletindo com majestade a luz da elegante luminária pendurada no teto. Luz esta que era refratada através das densas gotas de sangue. O sangue que escorria livremente por meu rosto, através das cortes na minha delicada pele, através da minha testa estourada.
Pensei por um instante se Calvin ficaria mais zangado por eu ter quebrado o espelho ou o porcelanato que revestia a parede.
Desisti de pensar nisso ao notar, maravilhado, a cena que se formara abaixo de mim. Um espelho quebrado reflete centenas de imagens diferentes de um mesmo objeto, afinal. Era magnífico, era uma obra de arte. Era quase como um milagre. Um milagre da percepção.
Eu me vi.
Vi minha face.
Vi milhares de outras faces.
Algumas riam, outras choravam. Umas estavam tranquilas, enquanto outras não demonstravam nada além do total desespero. Em comum, todas estavam manchadas de vermelho. E esse vermelho se tornava ainda mais intenso à medida que mais gotas encarnadas despendiam-se do meu queixo.
Gotas que se suicidavam, mesmo sem saber se estavam vivas ou mortas. Derrubavam-se, sem medo, em direção a um abismo de cacos cintilantes repletos de faces.
Faces.
Faces que apenas eu era capaz de ver, tinha certeza.
Faces que não escutavam as batidas na porta até que a mesma foi violentamente derrubada.
-Matheus! O que aconteceu aqui? –Calvin adentrou o banheiro, certamente louco para saber o motivo do cheiro de sangue que se espalhava maravilhosamente pelo apartamento. Olhou para a cena um tanto horrorizado, e eu, em um certo momento de sadismo, gostei de ver seu horror completar-se quando ele se deparou com meu rosto desfigurado. –Por que tu fizeste isso? –Indagou, pegando a toalha ao lado da pia e molhando-a um pouco, a fim de limpar os meus ferimentos.
“Eu queria ver a face”? Não, não era uma boa resposta.
“Eu queria aliviar minha dor de cabeça”? Menos.
-Não é bonito? –Perguntei simplesmente, voltando minha atenção aos cacos no chão. Vendo que Calvin me repreendia com seu silêncio, prossegui. –Desculpa... Eu perdi o controle... De novo... Eu vou limpar tudo, e pagar pelo estrago... –Disse baixo, agachando-me para começar a limpar os cacos, as faces, o sangue, o que fosse.
-Não, deixe que algum serviçal faça isso... Mas francamente, Matheus! Por que tu sempre fazes isso? –Perguntou-me um tanto exasperado. Pude perfeitamente notar sua chateação.
Coloquei-me então a observar atentamente Calvin. Aquele Deva, tão belo e repleto de formosura. Mas tão carregado das suas próprias verdades que não conseguira evitar a morte de sua alma. Uma pena, ele estava irremediavelmente seco.
Ou não.
Podia haver uma cura. Podia haver elucidação, e esta elucidação poderia desmontar todas as verdades pré-concebidas, derrubar todos os medos e todas as amarras sociais. Poderia trazer sensações genuínas a uma criatura que buscava na carne os resquícios do prazer que fora perdido no processo da morte.
Talvez pudesse...
Eu, que até pouco tempo não passava de um falso Ventrue, havia agora sido convertido em salvador. Toquei ternamente a face daquele Deva, mensurando com as pontas dos meus dedos toda aquela perfeição estética, sentindo a textura aveludada da pele fria e morta. Vi os olhos de Calvin se fecharem, apreciando o carinho genuíno que há anos não era recebido. A solidão era a sua maior dor, eu sabia.
A solidão doía tanto que Calvin sequer ousou reclamar quando meus macios lábios partidos e ensanguentados uniram-se aos seus. Rubras lágrimas deixavam seus olhos, enquanto, sem relutar, recebia em sua boca o meu sangue. Ele sabia o que aquilo representava, mas ainda assim, aceitou aquele doce ósculo e aquela doce prisão, enquanto aparentemente sua mente se perdia em algo aconchegante e quente. De um calor que ele já nem lembrava mais existir, eu sabia.
Enquanto isso, eu me limitava a observar com certa compaixão todas as reações daquela pobre criatura à medida que trocávamos aquele beijo profano. Envolvi-o com força entre meus braços assim que senti seu corpo estremecer de leve. Beijei-o com mais intensidade. Estava partilhando com ele mais do que amor e carinho. Partilhava esperança. Partilhava com ele a minha maior benção e maior maldição. Disso, até há pouco tempo atrás, eu não sabia.
O sangue de Malkov.
Após se quebrar um espelho, era mais fácil compreender certas coisas.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Eu estive pensando...

...na possibilidade de criar um blog. Já tentei antes, mas confesso que nunca me atraiu... Achava uma atividade enfadonha, mas, olhando melhor, pode ser bom...
Preciso mesmo de um espaço onde eu possa publicar meus contos, e meus romances, e minhas bobagens, além, é claro, de divulgar minha participações no mundo editorial (estou começando, mas God, estou entusiasmada!)

Enfim, àqueles que não me conhecem, sou Samila Lages, mas por muito tempo fui Ryoko-chan, especialmente pelo mundo das fanfics (Estou lá no Nyah).

Comecei a escrever graças à minha paixão sem fim pelo gênero yaoi, mas às vezes escrevo um conto de terror ou suspense, ou um simples romance.

Fantasia e romantismo são temas que me atraem, então esperem encontrar tais características em todos meus textos. Alguns serão um tanto eróticos, outros um tanto perversos... Ocultismo, heresia, homosexualidade...

essas coisas que às vezes chocam...