Não, eu não morri. Não, não voltei a escrever, ao menos, não do jeito de antes, mas também não, não abandonei minha paixão.
Tanto não abandonei que estou com um capítulo inédito de Relatos da queda, aqui, para vocês que ainda não me abandonaram....
Ah, um recado àqueles que querem
A Lenda de Fausto, a inflação ainda não atingiu a o livro! XD
O Frete ainda tá GRATIS! O Valor de R$ 37,80 sai para quem compra no
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Qualquer dúvida meu e-mail é:
samila.lages[ARROBA]gmail.com
Mas sim, deixa eu parar de enrolação, e postar o capítulo:
(detalhe que eu não tinha postado todos os caps anteriores aqui no blog, então, se você quiser lê-los, vá aqui no Nyah, que estão todos >.<)
http://fanfiction.com.br/historia/18255/Belial_-_Relatos_Da_Queda
Capítulo X – Sombras
Devia estar satisfeito com aquela
situação, afinal, Lúcifer poderia ser para mim o deus que todo Anjo precisa ter
para adorar... Pergunto-me apenas qual seria então o deus de Lúcifer naquele
momento.
-Mais uma estrela caiu sem fazer som
algum... -Ele comentou enquanto ambos olhávamos para o céu noturno, observando
o fato de outra estrela ter se apagado. Obra de Anakiel, eu podia apostar.
-Haverá um dia em que o firmamento não
será nada além de uma escuridão sem fim? -Indaguei-lhe enquanto me abraçava a
seu corpo e repousava minha cabeça sobre seu peito.
-Já não estamos visualizando esse dia,
Belial?
-Sim, mas ele me parece tão distante,
meu senhor...
-De fato, está distante... Mas se
aproximará à medida em que lutemos... -Ele disse após longos momentos de
silêncio.
-Achas isso prudente, Lúcifer?
-Viemos tão longe, Belial... Haveríamos
de parar agora? Olha! Olha como está claro o céu com as estrelas ao nosso
alcance! Não achas que devemos despi-las a fim de ver sua real beleza? Não
achas que ele ficará mais encantador caso a escuridão o tome?
-Temos poder para tal, meu senhor?
-Tens dúvidas de minhas capacidades,
Belial? -Ele perguntou ligeiramente sarcástico, simulando um tom ofendido.
-Não! De maneira alguma! Mas... E as
espadas Arcanjos dos Guerreiros? Como enfrentar aquele poder?
-Com um poder superior, é evidente.
-Que seria...?
Ele se levantou e sorriu para mim, frio
apenas como ele poderia ser. Perguntei-me qual poderia ser o trunfo do grande
Arcanjo que trajava a mais simples vestes dentre todos eles... Como pretendia
alguém aparentemente tão delicado enfrentar três guerreiros armados? A resposta
veio então com um movimento de sua mão esquerda. Não sei dizer como, mas de lá,
de sua nudez mesmo, Lúcifer sacou uma espada.
Oh sim! Da delicada e forte mão brotou
a princípio uma lâmina de cristal esculpida com perfeição, formando o mais fino
dos fios e a mais bela transparência. Esta mesma lâmina se estendeu por mais de
um metro, até de se sua mão saísse o cabo também em diamante, sendo seu
guarda-mão ornado por belas gemas negras primorosamente lapidadas, e seu pomo a
mais intensa e bela turmalina negra, de tamanha perfeição em seu formato e cor
que jamais poderá se encontrar na natureza terrestre.
-Diga, Belial, se pode haver mais
adequada bainha à mais poderosa arma divina, senão a carne do mais poderoso
Arcanjo? –Ele perguntou enquanto exibia, bem diante dos meus olhos a nefasta
espada.
Mirei abismado para a assustadora
beleza daquela arma, sentindo meu interior tremer em algum receio profundo; mas
mais profunda era a admiração pelo que me era desconhecido. Estendi minha mão
para tocar aquela arma, mas antes que meus dedos alcançassem o cristal, Lúcifer
a afastou de mim e disse suavemente:
-Jamais a toques, Belial, mesmo que a
evites o fio. Nem em seu punho, menos ainda em sua lâmina, pois qualquer um que
a toque, excerto eu, sofrerá com um terrível corte.
Encolhi minha mão assustado, tendo
certeza que aquilo que Lúcifer falava era verdade.
-Como se dá isso?
-Este foi um presente divino, dado a
mim no ato de minha criação. –Ele contou enquanto guardava a espada mais uma
vez dentro de si, e pôs-se a vestir-se. -Foi quando Deus disse que eu haveria
de ser um guerreiro e que tendo esta espada, Celestial algum seria capaz de se
opor a mim. Ele disse que eu era o mais poderoso dos Arcanjos, Belial... E por
isso conferiu a mim a mais poderosa das armas.
No momento em que Lúcifer me disse
aquilo, perguntei-me por que haveria Deus de armar seus Arcanjos contra os demais
Celestiais. Qual seria a necessidade disso, a princípio? Senti em meu âmago que
nosso Criador já havia antecipado nossa batalha em seus planos, e aquela
certeza me preencheu de terror. Seriam nossas vontades, desejos e revoltas
apenas desígnios de Sua vontade?
Aquela dúvida me aturdiu tanto que tive
até receio de estendê-la a meu novo senhor. Não queria pensar naquilo, não
queria perder as poucas certezas que havia construído acerca de mim mesmo em
minha recém-adquirida independência. Tampouco queria que fosse levada ao
coração de Lúcifer qualquer dúvida acerca de nossas intenções ou de sua própria
majestade.
Calei-me acerca de minhas preocupações,
contudo ainda indague-lhe:
-Mas... Ainda assim, meu senhor, somos
tão poucos... Como agiremos sem que nos massacrem tão logo notem nossas
intenções?
-Como sombras! -Ele falou
repentinamente, sua magnífica voz detendo um tom contido de agitação, como se aquela
simples palavras fosse fruto de alguma complexa epifania. -Sejamos como
sombras, Belial! Sombras que rastejam pelo reino de Deus, maculando com
desejos, dúvidas e convicções a todos que tocarmos! Rastejando seguiremos, até
que nossos números superem os daqueles que se manterem fieis Àquele que os
domina!
-Rastejar, Lúcifer? Perdão, mas rastejar
não me soa digno! -Reclamei de imediato, já envolto no orgulho que para sempre
me marcaria.
Ele sorriu para mim e passando a mão
por meus cabelos começou a falar suavemente:
-Rastejar, meu querido... Locomover-se
sem fazer barulho, bem rente ao chão, sem riscos de desabar e deixando os mais
sutis rastros possíveis. Rastejar como as serpentes do pântano, que sorrateiras
dão o bote, sem aviso ou piedade! Sejamos como elas, rainhas de maldade,
repletas do veneno que apodrece as carnes, mas ilumina as almas e sentidos! Oh,
sim, como sombras e serpentes, que discretas ocultam-se a cada alvorecer, mas
poderosas saem a cada crepúsculo!
-Acho que teu encontro com as impuras
criaturas dos contornos do Édem não te fez bem...
-Por que dizes isso? Não gostas de minhas
palavras, atitudes ou intenções?
-Amo a todas essas, com mesma
intensidade que amo a tua figura, a teu corpo e a teu espírito! Mas...
-Mas enxergas indignidade no ato de te
associares com criaturas mortais?
-Isso é obvio, não?
-Sim, e, no entanto, te associaste com
Lilith.
-Mas Lilith era diferente!
-Tratas o Ser Humano como um ser
superior aos demais animais?
-O Ser Humano, não. Apenas a Mulher.
-E isso inclui Eva?
-Claro que não!
-Compreende a contradição na qual te
colocas? O que torna Lilith e Eva diferentes, sendo ambas da mesma espécie?
-Lilith era...
-Inteligente, audaciosa, ambiciosa.
-Ele respondeu, antes que eu pudesse pensar em adjetivos tão adequados quanto.
-Sim... Tudo que Eva não é. Isso as
torna diferentes.
-Concordo, e da mesma maneira, dentre
os animais e as bestas, existem aqueles que são diferentes. O pântano em que
nos encontramos, e os desertos que se formam além dele... Funestos e
repugnantes! Inóspitas moradas reservadas apenas a criaturas incapazes de
compreender porque lhes foi dada tão ingrata vida, enquanto os seres do Édem se
deliciam com frescas brisas, águas cristalinas e todas as facilidades que Deus
provém. Essas pobres criaturas são tão fracas! Mortais, pois precisam de comida
enquanto nós sequer conhecemos a fome, e precisam de ar para respirar, enquanto
nós não necessitamos sequer do vento para empurrar nossas asas ao mais
esplendoroso voo. Nós nos bastamos em nós mesmos, enquanto elas são fracas e
precisam umas das outras, fazendo deste convívio uma desarmoniosa e cruel
batalha. Elas, meu caro, não precisam do Deus que as abandonou, pois a
providência Divina não as alcança nem as abençoa... São como nós, Belial,
fadadas às sombras. Agora imagina como seria se nós as abençoássemos com nossa
divindade e as iluminássemos com nossa sabedoria? A gratidão por se manterem
vivas, Belial, é o que possuem de mais poderoso. O que acontecerá se tal
gratidão for a nós direcionada? Seremos nós os Deuses delas, Belial, e não mais
o Criador!
A beleza daquelas palavras me arrebatou,
e naquele momento, soube que poderiam também arrebatar qualquer um que as
ouvisse; besta ou celestial. A promessa de se equiparar a Deus, por mais
absurda que fosse, seria de fato a mais tentadora a qualquer Anjo abandonado.
E se já não bastassem suas palavras
para me convencer, veio então a infeliz mosca que havia visto Lúcifer reviver
com sua vitae. Ela voou a nosso redor, reproduzindo o grotesco e leve barulho
do bater de suas asas. Ao notá-la a nossa redor, ele sorriu para mim, e disse
com candura:
-Deixa-me apresentar um de nossos
generais então; este é Beelzebub, Senhor de Todas as Moscas, meus furtivos e
silenciosos olhos que a tudo enxergam, e meus ouvidos que a tudo hão de ouvir.
Nesse momento, um riso macabro de fez
ouvir, e Beelzebub, talvez compreendendo meu desconforto em sua presença, fez
questão de aumentá-lo, chegando mais perto de mim e assumindo então uma forma
ainda mais horrenda que a sua original.
Não posso descrever o quão enojado
senti-me ao contemplar a disforme criatura, asquerosa em todos os sentidos.
Seus olhos eram totalmente vermelhos, sem distinção entre íris e
conjuntiva, e seu corpo era apenas vagamente hominídeo, de contornos tortuosos;
sua pele parecia um tanto rígida, escurecida, da qual brotava em seu queico e
pescoço pelos grossos e pretos, semelhante ao exoesqueleto do inseto que era
sua forma original. Sua coluna -se é que aquele ser detinha uma- era torta,
formando uma proeminente corcunda em seu contorno, e seus membros eram magros,
como se a fome o abatesse há anos.
Ele ofereceu sua mão ossuda a mim na
forma de um comprimento, mas eu apenas a olhei, com receito de tocá-la. Ele
apenas riu ante minha recusa, e erguendo ainda mais a mão, tentou tocar meu
rosto, fazendo-me dar um passo para trás a fim de evitar aquele contato.
Era como se o ar ao redor de si se
tornasse mais denso, tomado por invisível pestilência e inodoro fedor. Não é
segredo a ninguém que dentre todos os demônios, Beelzebub é o único com o qual
jamais tive qualquer nível de intimidade. Esse fato se dá pelo desgosto que
sempre senti ao estar perto dele.
-Temes a mim, Celestial? –Me perguntou,
sua voz era um tanto aguda, profundamente irritante.
-Não tenho temor algum em meu espírito,
General. –Menti. Por dentro, sentia que o toque dele era capaz dos piores
feitos, como se seus dedos sujos detivessem um veneno capas de corroer a pele
de qualquer ser.
-Então por que foges de mim, Belial?
Não enxergas que estamos do mesmo lado? –Ele seguia com sua voz risonha, e ao
ouvir aquilo, olhei para Lúcifer, perguntando-me se apenas eu ouvia o sarcasmo
escorrendo pela mesma.
-Qual teu interesse em nossa revolução,
Beelzebub? –Perguntei.
Ele riu de forma horrenda,
transformando-se então de volta em uma mosca, voando em minha direção e dizendo
bem rente ao meu ouvido, suas palavras quase enlouquecedoras junto o terrível
zumbido advindo do bater de suas asas:
-Devorar os cadáveres desta guerra, meu
caro. Sentir o cheiro da morte que se aproxima, e dela me alimentar. Quero que
o mundo apodreça junto a todas as queridas criações Divinas.
Ouvindo também aquelas palavras,
Lúcifer deu um sorriso, enquanto Beelzebub soltava um riso macabro e voava para
longe de mim, novamente assumindo aquela repugnante forma.
-Consideras justos meus intentos, Rei
Lúcifer?
-Justíssimos, e muito afins aos nossos.
Concordas, Belial?
Contrariado, concordei com um simples
meneio de cabeça, fazendo com que a baixa criatura risse ainda mais de mim,
para minha ira.
-Bem, tendo encerrado as apresentações,
creio que seja hora de agirmos, não? –Interrompi seu riso, dando as costas ao
demônio disforme.
-Sim, contudo, há algo que quero que
faças para mim antes, Belial.
-O que seria, meu senhor? –Perguntei
solícito, realmente disposto a fazer o que ele me pedisse ou ordenasse. Qualquer coisa que me tirasse
logo da presença de Beelzebub.
-Venha comigo. -Tendo dito isso, levantou
esplendoroso voo. Fiquei algum tempo ainda, apenas observando a enorme graça
com a qual suas asas batiam, até voltar a seguir o incômodo advindo da
putrefata aura de Beelzebub. Só então voei para segui-lo.
Voamos por algum tempo, até chegarmos à beira do
continente criado por Deus, onde a terra se encontrava a uma imensidão azul que
servia de espelho ao firmamento. A grande lua cheia refletida naquelas águas
fez eu me perguntar se não seria aquele oceano uma extensão do céu. À beira da
praia Lúcifer me esperava, seus frios olhos estendidos ao horizonte vislumbravam cada fraca onda a
bater contra os recifes.
Diante daquele cenário, sua beleza pálida se fazia ainda mais
estonteante.
-Quando procurei uma serpente como aliada, ela me disse que não poderia
auxiliar-nos, pois já servia a alguém. Foi-me revelado por ela que dentro desta
infinidade azulada existe uma besta que dorme, a maior dentre todas e a mais
poderosa também. -Ele começou a falar tão logo pousei a seu lado. -Seu nome é
Leviathan, e o animal me disse que ele reina absoluto sobre as víboras
venenosas e sobre todas as criaturas do mar. Trata-se de um ser gigantesco, que
com seu simples movimento poderia mover toda essa água que podemos ver. Essa besta
precisa ser despertada, Belial, e conto contigo para esta tarefa.
-Uma besta? Como esperas que eu consiga lidar com uma besta? Não aprendi
a falar com os animais, como tu fizeste!
-A serpente me afirmou que a Besta é sábia e fala nossa língua, e que
assim como nós foi amaldiçoada por Deus. Tenho certeza de que com tuas palavras
serás capaz de convencer Leviathan a se unir a nossa causa.
-Por que não pedes para Beelzebub cumprir tal missão?
-Beelzebub já está encarregado de falar com Ziz, a grande besta que
reina sobre as aves nos ares terrestres, enquanto eu hei de falar com Behemoth,
o grande touro que reina sobre o solo.
-Ainda que me peças, não sei se posso fazer
isso, Lúcifer. Sabes que não me sinto confortável com a ideia de nos unirmos a
criaturas inferiores, e... -Ia continuar meu protesto, mas ele me interrompeu
com a voz calma e risonha:
-Aceitar-me-ás como teu Rei, Belial?
-Tu já o és, meu senhor...
Lúcifer sorriu então para mim, contente
com minha submissão... Perverso o suficiente para me fazer temer, encantador
demais para me permitir recuar.
-Então faça o que digo, meu príncipe.
-Ele ordenou enfim, ruflando seu par de asas e seguindo seu caminho, deixando-me ainda
aturdido ao olhar para aquele mundo azul diante de mim.
Oh, sim, eu estava sendo tolo, e sabia
disso. Reconhecia minha fraqueza naquele momento, mas não permitia que a
vergonha por tal me tomasse... Pois o amor há sempre de ser a verdadeira causa
para todas as desventuras do mundo... No Céu ou na Terra, sobre os Homens ou
sobre os Anjos... Todos nós caímos por amar!
Lilith caiu por tanto amar a justiça, a
lógica, a liberdade... Eu caí talvez por amar a mim mesmo, à minha imagem,
minha perfeição. Samael tornou-se Lúcifer por amar demais a Deus... E mesmo
tendo ciência de tais fatos, eu ainda me permitia cair mais... Eu queria –do
fundo de minh’alma- amar ainda mais Lúcifer... Eu precisava amá-lo, eu
precisava que ele ocupasse aquele vazio doloroso que a ausência da Luz Divina
deixara em meu peito.
Por isso eu precisava de Lúcifer ainda
mais próximo ao meu coração.
Por isso eu precisava encontrar o
Leviathan.